Entre
o medo e a esperança
Duas eleitoras revelam suas expectativas
em relação ao governo de oposição
Gilberto Lacerda Rodrigues
4 período de Jornalismo
Dona Geni Santana Rodrigues sai cedo para votar. Embora não revele
a idade, garante que não tem mais obrigatoriedade de votar, mas
faz questão de votar em Serra para presidente. Teme que Lula
chegue ao poder. As idéias "socialistas" do barbudo
do ABC, lhe dão arrepios. Já dona Lucilia Soares Rosa,
não via a hora de votar em Lula, que ela chama de grande esperança.
Comunista de carteirinha, Lucilia, não suporta nem olhar para
o candidato do presidente Fernando Henrique Cardoso, que ela chama carinhosamente
de entreguista nojento.
Na urna, Geni aperta o 45 apreensiva: "Será que votei certo?"
Já dona Lucilia confirma o 13 confiante: "Agora é
Lula". Católica praticante, Dona Geni reza para derrota
de Lula. Já Lucilia acredita que a religião é o
narcótico do povo. Despreza com eloquência o catolicismo.
Prefere "orar" para Luis Carlos Prestes. Uma espécie
de "santo" para a comunista.
Dona Lucilia nasceu em Uberaba, numa casa próxima ao mercado
central, na rua Sete de Abril, em 1912. Filha de alfaiate e neta de
comandante. Ao lembrar-se que o avô era comandante começa
a rir: "Naquele tempo, se é novo não vai lembrar,
mas naquele tempo, o povo trabalhava das tripa coração
de sol a sol só pra poder comprar uma comenda do governo. Tinha
as mais baratas, que é a que o meu avô comprou, a de comandante,
e tinha as mais caras, como a de coronel. Aqui em Uberaba essas famílias
todas são descendente de coronel de araque." As comendas
davam um certo status as famílias, uma nobreza paga.
Na pequena fazenda Baixadão, próximo ao município
de Ituiutaba, nascia dona Geni Santana Rodrigues. Vaidosa, prefere não
lembrar a data do seu nascimento. O pai plantava café enquanto
ela e os oito irmãos fiavam a lã de carneiro, tira-vam
leite do gado, faziam doces dos mais variados frutos entre outros, muitos
outros afazeres destinados aos filhos de um pequeno produtor rural.
Um grande avanço acontece na vida de dona Geni quando ela completa
treze anos. Após o pai vender a pequena fazenda, a família
toda muda-se para o promissor vilarejo de Córrego do Açude.
Montam uma loja de tecidos, e novamente começam a trabalhar em
família. O pai faz sociedade com um jovem chamado Rosal Antonio
Rodrigues, que se tornaria professor dos filhos do ex-fazendeiro, incluindo
a jovem Geni de treze anos. Três anos mais tarde a aluna se casaria
com o professor. Não sem antes obrigá-lo a terminar o
relacionamento com a rival que já durava mais de dois anos. Geni
e Rosal tiveram oito filhos. Rogenir, Rosal, Sueli, Sonia Marilde, Dinair,
Zumair, Dirce e João Batista.
Lucilia não fala muito do seu falecido marido. Prefere falar
de Marx, do qual se confessa devota. A bíblia que carrega debaixo
do braço, é a obra que inspirou a revolução
bolchevique, o famoso "Capital" de Karl Marx.
No final da década de 30 e início da década de
40, Dona Geni, temia que o ditador Getúlio Vargas, implantasse
no Brasil o regime comunista.
Já Dona Lucília, temia que o ditador, exilasse o "verdadeiro"
comunista brasileiro, Luis Carlos Prestes, do qual ela foi cozinheira.
Até hoje Lucilia troca cartas com a filha de Prestes com Olga
Benário, nascida num campo de concentração nazista.
As injustiças que presenciou durante o governo Vargas, motivaram
Lucilia a entrar na vida pública. Em 1947 elege-se vereadora.
Com orgulho lembra que foi a primeira mulher a ser eleita em Minas Gerais.
Dona Geni tinha horror a política. Temia que alguém fizesse
mal ao seu marido, também vereador, e também contrário
a ditadura Vargas.
Distância dos temidos comunistas é o que Dona Geni queria.
Temia duas coisas: que seus filhos homens casassem antes dos trinta,
e que as filhas mulheres não casassem até completarem
a terceira década de vida. Para decepção de dona
Geni, um deles casou-se aos vinte e três anos. E pra piorar a
situação foi morar com mulher e filhos, na pensão
da aguerrida comu-nista. Lucilia ado-rou o filho, a nora e os netos
de Geni. Só tinha ressalvas quanto ao menor de pele morena, pernas
tortas e que segundo ela fazia muita bagunça, espalhando por
toda a casa os seus livros de Marx.
Tudo de ruim Geni associa aos comunistas. Ninguém tira de sua
cabeça que os militares que participaram do golpe de 64, tinham
ideais comunistas. Odiava os militares. Lucilia também, mas por
motivos diferentes. Perdeu alguns colegas de luta naquele período.
Em Ituiutaba, Geni lembra, que várias pessoas desapareceram naquela
época. "Teve muita morte, muita tortura, foi um bom tempo,
não? Prendia, matava. Tinha vereador simpatizante do governo
que contratava jagunço, mandava sumir as pessoas, morria de medo
deles matar meu marido que era vereador adversário, ele era contra
as matanças, contra as torturas, e eu tinha medo deles pegarem
meu marido. As coisas aconteciam na pensão de um vereador, levavam
o povo pra lá, e sumiam com o povo. A gente espera que esse Lula
não seja desse jeito. Chega dessas coisas ruim."
Inconformada com a situação dos idosos, Geni cobra mais
atenção do novo governo: "Tem que dar aposentadoria
melhor né? Dar uma condição melhor de moradia,
por que agora eu tô sofrendo né? Tive que vender a minha
casa. Todo idoso tinha que ter uma condição de moradia.
Fora do Brasil todo mundo respeita os velhos. Meu neto que veio da Espanha
falou assim: Vó a senhora precisa ver lá nas Espanha
como eles tratam os velhinhos, as pessoas idosas, a senhora encanta,
a senhora quer mudar pra lá correndo. Lá eles dão
as coisas, ajudam, trata bem, tem médico, tem tudo, os jovens
pegam na mão do velhinhos e ajudam, dão condução.
Aqui no Brasil a gente tem que depender de favor dos outros, não
tem transporte descente, os motoristas não respeitam a gente,
tão sempre com pressa, não tem remédio de graça,
o dinheiro da aposentadoria não dá pra remédio,
não dá pra médico, não dá pra nada,
não é fácil, viu? Pior que isso é os filho
que não visita a gente. No exterior tem que tratar bem, eles
dão recursos, eles falam que é assim né? Vamos
ver se esse Lula esquece as greves e dá jeito nisso pra gente."
Já dona Lucilia acredita que tudo vai melhorar com a entrada
de Lula na presidência. Ela acredita que finalmente o seu sonho
de um Brasil comunista vai se realizar. Questionada sobre o novo Lula
"paz e amor", ela desconversa: "Pra chegar no poder tem
que ter jogo de cintura, filho. Aqui o povo é muito quieto pra
acontecer uma revolução como aquela da Rússia.
Tem que ter jeitinho. E o Lula tem. Ele vai acabar com a mamata daqueles
senadores e deputados que ganham rios de dinheiro enquanto o aposentado
ganha salário mínimo. Tem que deixar os salários
deles igual a minha aposentadoria. O capitalismo tá morrendo.
O enterro vai ser muito difícil. E o nascimento do socialismo
é um parto, um parto demorado, sacrificado, judiado, mas ele
vai nascer. Em termos de parto, nós mulheres que parimos é
que sabemos, uns partos são mais rápidos outros menos,
mas pra parir uma coisa nova, bonita, bem feita e bem acabada não
é fácil não".
Dona Geni não se entusiasma tanto com o governo Lula: "Morro
de medo de um governo do Lula. A gente vê muito comentário
por ai. Ele gosta demais de greve, fica só fazendo greve. A gente
tem medo dessas coisas. A turma, a maioria fala muito mal dele, a gente
acreditou naquilo né? Ele que só toma as terra dos outros.
Se uma pessoa tivesse duas casas ele tomava uma. Tudo isso já
saiu. E a gente vai acreditando né? Agora a gente tem que acreditar
em Deus, acreditar que a pessoa pode mudar, então de repente
a gente tem uma esperança de qualquer coisa. É tão
triste a gente fica na dúvida com uma pessoa né? Pra mim
ele vai é só tomar as terras dos outro, fazer greve todo
dia, vai encarecer tudo, a gente chegou a pensar tudo isso né?".
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