Uma história de amor construída pelo bem

Dona Aparecida Conceição Ferreira:
Nascida na cidade de Igarapava, S.P. dedicou 40 anos de sua vida aos portadores do Fogo selvagem, veio de família pobre e não se intimou quando teve que deixa-lá de lado para cuidar dos doentes.


Por Luciana Alves de Souza
7 período de Jornalismo


Com passos calmos e cheios de amor, lá vai dona Aparecida, com seus 87 anos, passando de quarto em quarto, semeando suas palavras de bondade e carinho aos internos e funcionários do hospital do Fogo Selvagem. Trabalhando até hoje na instituição, a "vó", como é chamada pelos pacientes do Pênfigo Foliácio – também chamado vulgarmente de Fogo Selvagem devido à semelhança com queimaduras-, vai ao nosso encontro para contar a sua história de amor e caridade, mostrando o quanto foi difícil fundar um hospital para tratar de uma doença tão desconhecida e, de como conseguiu passar por cima do preconceito.

A vida pobre a influenciou ser solidária
Aparecida Conceição Ferreira nasceu em 19 de maio de 1915, na cidade de Igarapava, estado de São Paulo. Criada por um tio, vendia doces, verduras e frutas para ajudar na manutenção da casa e para aprender a trabalhar, até então, nunca tinha pensado em trabalhar com doentes. Ela cresceu, casou-se, em 1934, com Clarimundo Emídio Martins e começou a trabalhar para pegar crianças de rua para criar.
Devido a um acidente com seu marido, Aparecida teve que duplicar seus trabalhos para que não faltasse o pão em seu lar. A família mudou-se para a cidade mineira de Nova Ponte, onde ela exerceu o magistério na zona rural, além de trabalhar como parteira.
De volta a Uberaba ela foi trabalhar como enfermeira técnica, na Santa Casa de Misericórdia, no setor de Isolamento. Em 1957 começaram a chegar pacientes com a doença do Fogo Selvagem. Mas a permanencia dos portadores do pênfigo não agradava a direção do hospital. A primeira ação da diretoria, na época recém empossada, foi expulsar esses doentes. Revoltada, dona Aparecida saiu pelas ruas com os doentes tentando várias alternativas em vão. Ao voltar para o hospital, desanimada pela rejeição demonstrada pelas pessoas de Uberaba e diante do estado crítico dos doentes, que deixavam rastros de sangue onde pisavam, dona Aparecida encontrou um homem que se interessou pelo assunto e a levou ao hospital.
O homem conversou com a diretora do hospital e deu a ordem para que Aparecida e os doentes ficassem ali. Depois de tudo resolvido, ela descobriu que o tal homem era o Promotor de Justiça.
A mágoa com a direção do hospital permanecia. Dona Aparecida decidiu ir embora e os doentes resolveram acompanha-la. Na ocasião, eles não podiam sair pela porta, então ela quebrou um pedaço do muro para passarem. Depois que todo mundo passou, ela colocou as pedras no lugar e chegando em casa enfrentou mais um greve problema: a família. O marido e filhos mandaram que ela escolhesse entre eles e os doentes. Aparecida não tutibiou, escolheu os enfermos. Os vizinhos lhe deram o colchão, cavalete, tábua, caixote e tudo que pudesse servir de cama. À tarde estavam todos os doze agasalhados.
Dois dias depois, dona Aparecida recebeu a visita do diretor da Saúde Pública e o Assessor de Educação que arrumaram uma parte do asilo São Vicente de Paulo (que antes era necrotério) e disse que ficassem dez dias até arrumar local melhor. Foram dez anos. Nunca mais se ouviu falar no diretor da escola, nem assessor de educação. Mesmo assim ela continuou seu trabalho, em 1961 havia 363 enfermos.
Eles tinham somente a roupa do corpo e a roupa de cama. Em 1964, ela percebeu que naquele lugar não dava mais e foi para São Paulo. No viaduto do Chá ela pedia esmola para os doentes do Hospital do Fogo Selvagem de Uberaba. Um médico e um advogado, que eram vereadores uberabenses, foram até lá e vendo dona Aparecida naquela situação, acharam que ela estava desmoralizando Uberaba. Foram à delegacia e aos Diários Associados e fizeram a denúncia. Isto fez com que Aparecida ficasse presa quatro dias, sendo solta por intermédio de uma advogada voluntária, chamada Dra. Izolda M. Dias, que a defendeu no processo.
Ao saber do ocorrido, Saulo Gomes, repórter da TV Tupi, fez uma reportagem. Ele andou por todo o pavilhão do asilo São Vicente de Paulo, filmando e mostrando para o público a realidade dos enfermos. Com essa atitude promoveu-se uma campanha beneficente e muitas cidades participaram ajudando os doentes.
Aparecida passou muita necessidade. Quando a situação financeira piorava, ela ia para São Paulo onde recebia ajuda da comunidade espírita paulistana. Enquanto isso, sua filha ficava com os doentes. Segundo Aparecida, o povo de São Paulo a ajudou muito mais que o povo de Uberaba. Quando ela precisava de comida pegava um caminhão, que não era dela, e passava nas fazendas da região, recebendo alimentos dos fazendeiros.

 

O descaso social

As experiências e a fé a fizeram descobrir uma pomada abençoada

Nova sede do hospital fogo selvagem


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