Ombudsman
Liberdade e compromisso

Newton Luís Mamede

Certos conceitos podem ter seu uso exacerbado e transformado em abuso, o que culmina, inexoravelmente, em deturpação de seu conteúdo original. A modernidade social e tecnológica e o senso da novidade e da eterna juventude intelectual são um excelente adubo a esses desvios conceptuais, que geram profundas transformações de mentalidade e de comportamento. Como tudo o que é novo agrada, e, principalmente, impõe-se, o apego ao novo é, com toda certeza, uma forma de se mostrar "atualizado" e engajado ao momento histórico.

É o que ocorre com o conceito de liberdade, nos tempos que estamos vivendo. A liberdade ontológica, inerente à própria condição humana, banalizou-se e perdeu a sua essência, o seu eixo semântico. O sentido atual de liberdade vulgarizou-se, depreciou-se, esvaziou-se, pouco tem a ver com a verdadeira liberdade que identifica e distingue o homem no reino da vida. E surgiu e vige soberana a falsa liberdade. Em todos os setores da sociedade isso se faz sentir, com as lamentáveis e desastrosas conseqüências, principalmente na ética, ou na moral.

As deturpações de seu conceito não deixaram de atingir a mentalidade e a consciência dos estudantes universitários. A convivência com modelos avançados rápida e indiscriminadamente, sem o devido senso crítico e a censura da inteligência racional e superior, promove uma espécie de "evolução" intelectual que domina e massifica a atual geração. O novo, associado à idéia de contestação e de revolta, induz a metamorfose do conceito de liberdade e a sua imediata aplicação. E vivemos sob a égide do que não é liberdade. Falsa liberdade que confunde, em vez de nortear; que aliena, em vez de conscientizar; que entristece, em vez de alegrar; que destrói, em vez de construir.

Costumam alguns psicólogos e sociólogos atribuir o fenômeno às transformações políticas e sociais por que passaram vários países e nações no período pós-ditaduras, nas últimas décadas, em que cessou a repressão à liberdade. Esta, então, veio à tona de forma atabalhoada, sem direção e sem orientação. Ressurgiu de chofre, desviada de sua essência e de seu real sentido.

Na universidade moderna, esses conceitos estão adulterados e precisam, urgentemente, corrigir o seu rumo. A liberdade de pensamento e de atitude científica precisa acontecer, sim, mas de forma lúcida e equilibrada, sempre com o controle da razão, da consciência crítica e esclarecida, da consciência madura e superior. A liberdade, em seu sentido pleno, reto, responsável, é parceira do compromisso. Coexiste com ele. Compromisso com a verdade e com os valores ontológicos do homem. Valores universais e imutáveis, por isso, essenciais. A liberdade real é o exercício desses valores e o compromisso de os fazer valer e se impor. A liberdade humana é a garantia da manifestação do que é essencialmente humano. É o pleno direito de existir e de agir como homem. É o compromisso com a inteligência.

Newton Luís Mamede é Ombudsman da Universidade de Uberaba

 

 

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