O
Educador além do seu tempo
Rubem
Alves mostra que educar
é uma arte que se ensina com amor
Margarida Ribeiro
7 período de Jornalismo
No dia 15 de março, o auditório da ABCZ (Associação
Brasileira de Criadores de Zebu) reuniu centenas de pessoas para prestigiar
um dos intelectuais mais famoso e respeitado do País, Rubem Alves.
Esta personalidade brasileira com as suas multifacetas - pedagogo, poeta,
filosofo, cronista, contador de estórias, ensaísta, teólogo,
acadêmico e psicanalista - tem enriquecido a nossa Educação
com vasta obra para adultos e crianças. Suas literaturas têm
servido de subsídio também para trabalhos nas igrejas,
consultório psiquiátrico e outros fins de ajuda.
Rubem Alves tem o dom de fazer das palavras e das idéias brinquedos
e instrumentos divertidos para transmitir conhecimentos. Deste modo
ele fala de uma educação que perpassa todo o universo
humano. Ensina que o verbo educar deve ser conjugado com o amor e paixão.
Sobre seu interesse pela educação brasileira, o próprio
Rubem irá nos comunicar através desta entrevista.
Revelação: Como surgiu o seu interesse pela educação?
Rubem Alves: Eu sempre tive vontade de ensinar, mas o interesse
concentrado foi quando era professor em Lavras, interior de Minas. Nesse
período comecei a pensar nos problemas da educação,
o assunto passou a ser parte da minha vida, é a coisa que mais
me domina, o tempo todo estou pensando nisto.
Revelação: Sobre as suas obras, quantas já tem
publicadas?
Rubem Alves: Eu devo ter mais ou menos trinta livros para crianças
e trinta para adultos. Os livros têm sido usados muito em igreja,
em hospitais infantis para preparar as crianças para cirurgia.
Quando os escrevi foi pensando somente na minha filha, de repente descobri
que estavam sendo aproveitados em empresas, em situações
de terapias, viraram teatros e agora vão virar Cds.
Revelação: Qual obra que tem mais do seu pensamento de
forma sistemática?
Rubem Alves: A obra que circunda o meu pensamento saiu de circulação
e vai reentrar na bienal, se chama "O poeta, o guerreiro e o profeta".
Revelação: Como o senhor vê os atuais livros
de literatura?
Rubem Alves: A gente ainda tem grandes autores, por exemplo Saramago
e Guimarães Rosa. Há muitas obras bonitas sendo produzidas,
mas também há muito lixo. Shopenhauer dizia que parte
da sabedoria de ler é a sabedoria de saber escolher o que no
ler. Ele falou isto no século XIX, imagina a quantidade de lixo
que existe nas livrarias!
Revelação: Como o senhor avalia a forma de incentivo
do Governo, com o Programa Bolsa-Escola?
Rubem Alves: Para mim esses esforços são louváveis,
mas a grande questão da educação não passa
por aí, mas pelas cabeças dos professores. Educação
não se faz com prédios com material escolar, mas ela se
faz com professor apaixonado.
Revelação: Esta seria a prioridade para educação?
Rubem Alves: Para mim a prioridade que tenho é seduzir os
professores. O que acontece freqüentemente, é que, com a
rotina e o passar do tempo, eles ficam amargos e começam a fazer
contagem do tempo para a aposentadoria. Aí perdem o encantamento
com as crianças e os adolescentes.
Revelação: E qual é o grande segredo da educação?
Rubem Alves: O grande segredo é a paixão do professor.
Se você tiver um professor apaixonado, ainda que ele não
saiba muita didática dará um jeito.
Revelação: O senhor falou que há dois tipos
de olhos na educação. Gostaria que comentasse um pouco
sobre o olhar do atual educador?
Rubem Alves: A educação do primeiro olho, vê
as coisas do finito, é o que a maioria das nossas escolas fazem
o tempo todo, ensinar a ciência, ensinar as coisas da vida, ver
o mundo. A educação do segundo olho mostra as coisas eternas.
Com o primeiro olho ensinamos a ciência, com o segundo a poesia.
Gastor Maschelar, se dedicou a vida inteira a educar o primeiro olho,
e escreveu livros eruditos sobre a filosofia das ciências. De
repente ele passou a educar o segundo olho e escreveu "A chama
de uma vela". A vela para iluminar precisa se consumir. Quando
Maschelar fala da vela, não se refere a conhecimentos modernos,
mas ele abre um terceiro olho, o da sensibilidade.
Revelação: Como se desenvolve a sensibilidade dos educadores
e educandos?
Rubem Alves: Através da literatura. O conselho que eu daria
é ler literatura. Na minha área de psicanálise
é muito importante conhecer a alma humana, e o conhecimento vem
não é da leitura de Freud, ela ajuda, mas na medida que
buscamos a literatura, então se descobre o drama da existência
humana, vivida com todas as suas dores e alegrias.
Revelação: Qual a grande tarefa do educador?
Rubem Alves: A grande tarefa é dizer "está ali,
está ali perceba! Olhe!" Fernando Pessoa diz,
não basta não ser cego pra ver as árvores e as
cores, há pessoas que têm vistas excelentes e não
percebem nada. É preciso ensinar os nossos alunos a enxergar
o mundo.
Revelação:Que conselho o senhor daria aos novos educadores?
Rubem Alves: Que a educação é absolutamente
apaixonante. Paixão para uma vida. Em primeiro lugar eu diria
que eles se considerem afortunados por serem tocados por esta vocação.
Segunda coisa, é preciso que amem as crianças. Freqüente-mente
os professores têm a preocupação com um programa.
Meu filósofo favorito, Nietzsche, dizia que o verdadeiro educador
é aquele que leva a sério questões relacionadas
com seus alunos, inclusive a si mesmo. Logo a preocupação
do educador não pode ser com o programa, deve ser com o aluno,
e por isso, ele deve ter um olho para cada aluno, porque está
lidando com ser humano e não com o número para exame.
A primeira tarefa do educador é seduzir o aluno para o fascínio
do seu objeto. Se ele não for seduzido não terá
vontade de aprender. A Adélia Prado, uma grande pedagoga dizia,
"não quero faca e nem queijo, eu quero é fome".
Significa que a primeira tarefa é fazer o aluno ter fome do que
você pretende ensinar.