Um sonho distante

A oportunidade de viver em um ambiente como o Harambê passa distante dos olhos do aposentado Antônio Augusto Souza, 74 anos. O "seu Tonico", é um dos residentes do Asilo São Vicente de Paulo . O dia-a-dia dele resume-se a uma vassoura e uma enxada. Para ser manter ativo, ele costuma ficar horas cortando a grama que insiste em crescer sobre o cimento. Ele chegou ao asilo nos anos oitenta, depois de atravessar uma crise financeira. O trabalho de pintor não lhe rendeu uma quantia significativa para garantir uma aposentadoria mais tranqüila e uma casa para morar. O seu Tonico não foi casado e não tem filhos, as únicas companhias são os amigos que vivem com ele no asilo. De vez em quando, alguns parentes o visitam. Para ele o simples fato de cortar a grama é um trabalho que o torna útil. E o pensamento de utilidade o faz passar o tempo. "Eu fico cortando a grama e varrendo o chão. A gente que já está meio fora de forma precisa fazer alguma coisa para não ficar parado e, ficar parado é ruim", disse.

Ao contrário da pedagoga aposentada Maria Tereza que já faz parte do projeto Harambê, o seu Tonico dificilmente vai conseguir participar de projetos, como este, que valorizam a terceira idade. Estudos comprovam que a atividade nesta fase da vida aumenta a sobrevida do idoso. Muitos velhinhos que estão no asilo foram desprezados e tratados como encosto pela família e pela sociedade de modo geral. Eles vivem do trabalho voluntário de diretores e da dedicação dos funcionários.

O asilo foi inaugurado em 1902 pela Fundação São Vicente de Paulo e é mantido pela comunidade e por parte da aposentadoria dos internos. A organização do lugar pode ser notada em uma simples visita. Todos os 55 internos, recebem cuidados iguais. Algumas empresas privadas mantêm convênio com o asilo nas áreas de exame laboratorial e serviço de SOS móvel. A Universidade de Uberaba possui um convênio na área fisioterápica, e hoje, o asilo tem um moderno centro de fisioterapia. A prefeitura oferece o trabalho de um médico para exames preliminares. Outro serviço importante é o da cabeleireira Simone Barbosa. Quase sempre ela está no asilo cortando o cabelo dos internos. Todo o apoio é válido e digno de respeito, mas talvez o que falta no asilo é algum projeto que torne todos os internos ativos de alguma forma.

Para o presidente da casa, Paulo Roberto Queiroz da Costa, é impossível manter algum projeto que ative a vida do seu Tonico e dos outros 54 idosos. Financeiramente a casa está bem e com todos os compromissos em dia, mas todo o orçamento tem destino certo. Ele considera que é necessário um maior apoio da comunidade diante do assunto e talvez uma integração entre o asilo e as universidades em Uberaba. "Estamos dispostos a receber universitários e professores aqui no asilo para que juntos criemos um projeto para manter a vida das pessoas daqui ativa. Mas que seja um projeto que funcione o ano todo" disse.

No ano passado alguns alunos da Escola Agrotécnica de Uberaba desenvolveram oficinas de arte no asilo. O projeto movimentou os idosos e acima de tudo ocupou o tempo deles, mas o projeto não existe mais. Tornar todos os internos ativos é na verdade uma forma de aumentar a expectativa de vida entre eles. Mesmo não sendo uma comunidade biossocial, o Asilo São Vicente pode ser um exemplo de integração entre entidades educacionais e filantrópicas. Os idosos têm uma grande importância na formação cultural e social do país e é necessário darmos valor a eles. Cortar a grama, limpar o terreiro e colher o lixo, não podem ser as únicas atividades do seu Tonico. Como bom homem ele oferece ao asilo a aos amigos apenas parte do que sabe fazer. É fácil notar que ele tem muitos outros benefícios e qualidades não só para o Asilo São Vicente, mas também para a sociedade. Privar o ser humano de desenvolver alguns dons com a estapafúrdia idéia de que ele não é mais útil dentro da comunidade é na verdade um ato desumano. "Nós estamos abertos a novas parcerias para promover projetos em prol de uma velhice ativa e saudável", conclui o presidente.

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