Rodoviária é cenário de altas histórias

Diário de estudante relata experiência de algumas horas observando o cotidiano do terminal de Araxá


Valéria Alves
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No dia 14 de agosto, dia ensolarado, véspera de feriado, às 13h, lá ia eu toda tranqüila para a rodoviária, (não me inveje por enquanto). Usava trajes confortáveis, tinha dinheiro suficiente... e na mente estava tudo esquematizado... Mesmo se neste mesmo momento você estava ralando no serviço ou nos livros, ainda não me inveje. Eu não previa em quanto tempo exatamente estaria de volta em casa, tudo ia depender, simplesmente "depender".

Meu destino era o terminal rodoviário de Araxá. Fui a pé. (caminhar é bom). Fazia muito calor (uns quase 30¼). Sono, preguiça (tinha terminado de almoçar). Estava indo fazer um trabalho de pesquisa de campo para a matéria de Teoria da Comunicação. (nussa!). Minha missão (esquema) era observar e descrever o local. Usava chinelos, jeans e camiseta. (disse que estava confortável!). Carregava uma agenda e uma caneta. (prática, não?). E tinha R$2,00 no bolso. (pros picolés!).

Dez guichês, dez plataformas, 80 poltronas, lancho-nete, restaurante self service, banca de revistas; loja de lembranças, sorvetes Kibon, doces, cinco telefones públicos, central de infor-mações, caixa dos correios, banheiros feminino e masculino, salas no segundo andar: DNER, Polícia Militar, Administração, Juizado de Menores e Fiscalização de DER. Doze taxistas fazendo ponto. Bastante movi-mento, muita gente trabalhando. Boa hi-giene, boa capacidade, boa aparência (acaba de ser reformada). Acho que é só....

Não leio mão, nem adivinho pensamento, mas você deve estar pensando qual o motivo de eu estar publicando isso, se eu já comecei detestando. Bem, jogando limpo: isso vai me render uns pontinhos... Mas, mais importante do que isto: esta pesquisa aparentemente chata se tornou uma experiência interessante. Vamos a segunda parte que você vai me compreender...

Ao me preocupar com o cenário, tinha me esquecido dos personagens. Caras de cansaço, suor, nervoso, agonia, pressa, saudade, solidão, tranquilidade, sono. Cheiros de cigarro, suor, desodorante vencido. Barulho de movimento, gente andando, carregando malas, comendo, descendo escadas, entrando e saindo dos ônibus. Gente normal e gente muito estranha! Mendigo, vendedor de alianças artesanais (ele faz lá mesmo).

Um rapaz claro, gordo de olhar convergente, voz alta (altíssima), manco, literalmente doido, usando blusa gola polo muito frouxa, calça jeans e tênis velho, sempre aparece na rodoviária (na verdade, ele anda o dia todo por vários lugares). Conversa com todo mundo, briga, grita, faz comentários, ri, e sai.

Até que ele é engraçado, e apesar de falar muito em coisas que não fazem sentido nos leva a pensar no quanto nos distanciamos das pessoas. Na rodoviária, tem gente (muita gente) que fica horas parado, não conversa com ninguém, só come, olha no relógio, vai ao banheiro...

Um pouco de loucura não faria mal a ninguém, ao contrário, a loucura tornaria a viagem legal no próprio local de partida, e não apenas no ponto de chegada. Já pensou, "Eba, vou conhecer um montão de gente nova agora, vou poder observar o movimento, cumprimentar a moça do guichê, da banca e poder conversar com quem estiver perto de mim, que bom!"

As pessoas aqui trabalham muito sérias, conversam o básico com você: pois não, tanto, obrigado... (clichê). Espera aí, fragrante! A moça de um dos guichês, saiu de fininho para conversar com a moça da informação, só que era ela quem levava a mensagem, ou melhor a "fofoca", mas chegou alguém e ela baixinho disse "Daqui a pouco volto para terminar de te contar". Nesse meio tempo a moça da informação vai até a banca, começa a conversar e o seu telefone toca e ela sai correndo... Telefone às vezes é mal educado! Interrompe a gente no meio da conversa!

As posições em que as pessoas se acomodam para sentar são as mais variadas possíveis – só se sentam de forma ereta! E o medo do queixo cair! (todo mundo fica segurando o queixo). Tinha uma senhora bem velhinha que ficou em pé o tempo todo do lado de uma poltrona, parecia triste e cansada, segurava sua sacolinha, olhava, olhava, mas parecia olhar para o nada. Gente com picolé pingando, deixando refrigerante cair no chão. Que lambança!

Alguns não se importam, e acham o máximo quando lhes dirijo uma pergunta. Mas outros se sentem incomodados ao serem observados. "Ocê é da prefeitura?" "O que que ocê tá anotando?"

Conheci um senhor bem simples e educado, de Sacramento. Ele trabalha de pedreiro e vem sempre à Araxá. Tem parentes aqui, mas não gosta muito de ir visitá-los: sente que incomoda, já que vem durante a semana, e que todos os parentes trabalham. Prefere ficar andando, vendo vitrines, gente, preços de materiais de construção. Disse ter escolaridade baixa. Trabalha desde pequeno, mora no Bocão (apelido do seu bairro), "Lá mora gente que nem eu" (mesma classe social, profissão etc), "mas é legal, eu até que gosto!". Falou dos demais bairros da cidade, da rodoviária de lá, das grutas, eventos, do crescimento demográfico devido às madeireiras.

Pode perguntar agora "tudo" sobre a cidade, eu respondo sem nunca ter ido lá (risos).
"É possível viajar para qualquer lugar sentado num banco da rodoviária, basta se comunicar!", afirmou.

As mais variadas combinações de roupas e sapatos. Parece que ninguém por aqui se importa muito com o visual! Chapelões e botas de Cawboy. Saiões e blusas estampadas descombinando. Daria até para fazer um Certo ou Errado. Se bem que... errado é não ser autêntico (não estrapolando, é claro!)

O principal destino dos passageiros aqui são cidadezinhas mais próximas (Ibiá, Perdizes, Uberaba) e áreas rurais (por isso o predomínio de sacolas de compras mensais de supermercado, caixas de bebida, de carne (quanta carne moída).

Os taxistas foram os mais receptivos à minha "visita". Identifiquei-me primeiro, disse o porquê de estar lá, e fiz uma série de perguntas misturadas a um gostoso bate papo.
Falamos dos preços, das corridas, do movimento... Boas foram as histórias e algumas palavras escapadas.

Eles trabalham dia e noite, vão em casa para comer, tomar banho e cochilar um pouquinho. São bastante simples e comunicativos, com exceção de uns senhores mais fechados, de cara "amarrada".

"Já que vocês passam tanto tempo aqui, têm algum passatempo?" - perguntei. Seu Antônio, meu entrevistado, contou que eles costumam ficar jogando conversa fora, disputam baralho (até me mostrou a mesa que usam – é toda envocadinha!) Mas ele não pode mais jogar: tornou-se evangélico. "Vocês são amigos?". "A gente diz que é, mas tem um ou outro aqui muito encrenqueiro" – responde com um sorrisinho irônico. "As pessoas escolhem que carro ou motorista querem?" "Não podem. Nós temos uma fila, só o primeiro pode sair. E se alguém ligar e pedir para chamar tal taxista para fazer uma corrida, e ele não for o primeiro, simplesmente dizem que ele não está!". A concorrência é brava, num é brinquedo não!!!

Há duas semanas um dos "colegas" foi assaltado. O rapaz fazia uma corrida no Delrey, quando, de repente, os passageiros colocaram-lhe uma arma na cabeça e anunciaram o assalto! Amarraram o pobre e colocaram-no no porta-malas. Até aqui, um assalto quase perfeito, não acha? Mas os dois sujeitos até que tentaram, mas não conseguiram dirigir o veículo. O Delrey estava com "probleminhas" básicos no cabo da embreagem, acelerador, e por aí vai... Esses carros "especiais" que só o dono tem as manhas de dirigir…

E não é que os criminosos tiraram o homem do porta-malas e colocaram-no de volta para dirigir! Mandaram que ele pisasse na tábua para a rodovia: primeiro iriam a Uberaba, depois Uberlândia. Chegando perto do posto Nova Era, o carro começa a dar sinais de sede. Mas quem teve que abastecer? Uma dica, o taxista é que não foi, ele tinha só uns trocados no bolso...

Pois é, morrendo de raiva os dois ladrões desastrados encaram o prejuízo. Seguiram... Em Uberaba, pararam para reabastecer, nem precisa contar quem pagou a conta, né? Segundo "preju"! Cansa-dos (assalto custoso esse), com sono, param o carro, recolocam o motorista no porta malas e, inacreditavelmente ou não, vão dormir.

Passado um tempo, nosso taxista escapa (a tranca do porta-malas estava com "defeito"), corre e chama a polícia por telefone. A defensora dos fracos e oprimidos (e dos taxistas) chega e pega os dois "azarados" dormindo como dois anjinhos... Seus destinos: o xadrez! Terceiro e último "preju", para um dia foi mais que suficiente, não acham?! História de taxista (nem é de pescador!).

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