Luta contra o manicômio leva ativistas às ruas
Entidades
e pacientes defendem tratamento humanizado e o fim dos hospícios.
Karla Marília Meneses
4 Período de Jornalismo
Anualmente, no dia 18 de maio, ocorre no calçadão da rua
Arthur Machado, um evento comemorando o Dia da Luta Antimanicomial.
É uma data nacional, ocorrendo desde 1995 em Uberaba, com a participação
efetiva da comunidade e profissionais da saúde. Essa luta consiste
num ato de protesto para erradicar tratamentos obsoletos que em nada
auxiliam na melhora e auxílio ao enfermo mental. Choques elétricos,
confinamento e algemas eram alguns dos "métodos" utilizados.
Em alguns casos, executavam a famigerada lobotomia, operação
que removia o córtex cerebral impossibilitando o indivíduo
às reações, tornando-o uma espécie de "morto-vivo".
Maria de Fátima Caiedo, psicóloga e Coordenadora Geral
da Fundação Gregório Baremblitt, ONG especializada
em saúde mental, esclarece que existem vertentes nessa manifestação
e uma delas é a modificação legislativa. A Lei
Paulo Delgado, aprovada no ano passado após doze anos de espera,
prevê reforma nos tratamentos psiquiátricos. "A lei
anterior tratava o doente mental como um indivíduo de alta periculosidade,
quase um criminoso. Atualmente, através da nova legislação,
novas propostas foram ofereci-das ao enfermo, resguardando sua integridade."
A psicóloga afirma que existem no Brasil cerca de 80 mil doentes
mentais trancafiados em hospícios. "E o resultado é
a quebra dos laços familiares, não há possibilidade
de uma reintegração do doente na sociedade. Em Uberaba
existem serviços flexíveis, coerentes com a realidade
do paciente. Na Fundação Gregório Baremblitt há
todo um trabalho medicamentoso, atividades e oficinas, psicoterapia
e atenção à família dos usuários.
Infelizmente, serviços assim são em torno de 400 no Brasil."
garante. Maria de Fátima encerra, citando a importância
da participação da sociedade na manifestação,
atentando para a necessidade do auxílio de empresários
e entidades na exposição dos trabalhos feitos nas oficinas
terapêuticas.
A Assistente Social Gilda Crozara é presidente da Associação
dos Usuários, Familiares e Trabalhadores da Saúde. Segundo
ela, a participação da família é fundamental.
"O Naps (Núcleo de Atenção Psicossocial),
promove reuniões mensais com a família para que haja um
suporte no tratamento do doente mental. Há uma participação
efetiva. Inclusive na luta antimanicomial estão engajados familiares,
a população e várias instituições
como a Cria (Associação Cristã de Assistência
ao Doente Mental Pobre), que atende crianças e adolescentes com
distúrbios mentais, Secretaria Municipal da Saúde entre
outras", relata.
Fundação Gregório Baremblitt
Gregório Baremblitt, é um médico argentino sempre
atuante nas causas que favorecem um tratamento humanizado ao doente
mental. "Em meados de agosto ou setembro, realizaremos um seminário
com profissionais da área e palestrantes de todo o país
para debatermos a questão do doente mental. Será aberto
para toda a comunidade", finaliza.
Há cinco anos, a Coordenadora da Saúde Mental, da Secretaria
Municipal de Saúde, Wagna Lúcia Alves resolveu se dispor
contra o preconceito dirigido aos enfermos. " O doente lida com
sintomas terríveis da doença, o nosso papel é amenizá-los
e não segregar os portadores. A última década foi
decisiva para uma reforma clínica. Hoje, apenas em crises extremas,
o doente é internado. Mesmo assim por um período determinado.
O doente recebe uma gama de atividades, com acompanhamento médico
e terapia ocupacional. Não há confinamento nos muros de
uma instituição, já que esse método é
ultrapassado e os custos são maiores" , relata.
A coordenadora cita ainda a ocorrência da III Conferência
Nacional de Saúde Mental feita em Brasília, com novas
propostas apresentadas por familiares de pacientes e profissionais.
As propostas serão encaminhadas ao Conselho Nacional de Saúde
para apreciação dos órgãos responsáveis.
"Nos últimos dez anos houve uma redução dos
hospitais psiquiátricos no Brasil. É o resultado de uma
política mais humana dispensada aos doentes. Uma prova disso
são esses produtos demonstrados aqui, as barracas com artesanato
de qualidade que os pacientes confeccionam. Hoje as instituições
de saúde mental reforçam a auto - estima dos doentes e
fazem atividades comemorativas para uma interação social:
imaginem quantas vezes um doente mental teve a data do seu aniversário
esquecido?", finaliza.
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