Um impostor no hospital

Cronista conta seu feriado em um hospital

Fernando Machado

5 período

12 de outubro, sábado, feriado. Meio-dia. Centro da cidade. O calor derretendo o asfalto. O sol fazia com que tudo brilhasse, tudo reluzisse. Resolvo voltar para casa de moto-táxi, porque estava quente demais para andar de ônibus. Aliás, estava quente demais para se fazer qualquer coisa. Uberaba tinha algo do Brooklyn de "Faça a Coisa Certa", o filme de Spike Lee em que, devido ao calor insuportável, as pessoas vão enlouquecendo. Talvez o mototaxista tenha bebido um pouco aquele dia. Saímos da porta do cine Metrópole a caminho do Universitário. Ziguezagueamos na Santos Dummont e, no seu encontro com a Medalha Milagrosa, dois garotos desciam o morro em uma moto com o pneu traseiro estourado, os freios inutilizados. Da garupa, segundos antes, vi que o acidente era inevitável. Fazer o quê?

A roda da moto pilotada pelo garoto resvalou na minha perna direita e depois na lateral da moto. O mototaxista jogou pra cá, jogou pra lá, bateu o pé no canteiro central buscando apoio e cambaleamos uns 20 metros até recuperar o equilíbrio.

A batida havia feito um barulho tremendo. Tive medo de olhar para a minha perna. Nessas horas, se pensa sempre no pior. Pelo menos foi o que pensei, o pior. Mas tomei coragem e olhei para ela. Havia um arranhado e um caroço se avolumando. O garoto que pilotava a outra moto caiu e se arranhou um pouco. O outro garoto, que estava na garupa, não se machucou assim como o mototaxista. O garoto que pilotava repetia: "Meu pai vai me matar, meu pai vai me matar", indiferente à minha perna destra. Um bando de carniceiros veio dar uma espiada, mas se foram meio desapontados porque havia muito pouco sangue. Um homem muito educado olhou para a minha perna e aconselhou que eu tirasse uma radiografia. Ele se ofereceu a me levar ao hospital. Eu não sentia dor e conseguia pisar sem dificuldades, mesmo assim achei melhor garantir. Anotei a placa da moto do menor e aceitei a carona para o Hospital Escola. Não tive raiva dos garotos, mas queria que o responsável por eles e pela moto fosse punido.

O hospital? O hospital era como qualquer hospital: chega um sem cabeça, depois um que só tem a cabeça, e um monte de motoqueiros e bicicleteiros. Não vi nenhum caso muito grave nos instantes que fiquei lá, mas todos eram piores do que o meu. Pouco a pouco, fui me sentindo um impostor entre pacientes e médicos. O arranhão na minha perna parecia, cada vez mais, uma coisa insignificante, idiota. Um velho, todo esfolado, havia caído de bicicleta em um morro da cidade. Saí de cima da maca em que estava sentado para que o deitassem sobre ela. Ele não deveria mover a cabeça, conforme havia alertado um residente de uns vinte e poucos anos, dotado de espírito de liderança entre os colegas. O velho dizia que estava coçando muito, que tinha que levantar a cabeça "só um pouquinho". O rapaz tornou a adverti-lo, repetindo os riscos que correria se não obedecesse. Mas o velho não resistiu e mexeu um pouco a cabeça. Aí o médico se irritou e lhe passou um sabão. O velho ficou com cara de menino que sabe que fez coisa errada, caladinho.

Me mandaram para a fila do raio-x, onde tive a companhia de um pai que tentava convencer o filho de que tudo estava bem. O garoto chamava-se Lucas e tinha três anos, tinha quebrado o dedinho. "Coisa à toa", repetia o pai. Contrastava com a feiura dos pobres diabos a beleza de uma residente que ia e vinha no corredor. Quando não estava ajudando os pacientes, ela se detia nas portas à direita e à esquerda para checar se o nome do enfermo conferia com o que estava designado na parede. "Uma rosa entre dois abismos", como a música de Beethoven. Infelizmente, não foi ela quem me atendeu. Uma outra moça, bastante gentil, tirou o raio-x da minha perna. Depois de examinar o resultado da radiografia, o médico me olhou e disse que eu estava " pronto para outra". O calor ainda derretia a cidade quando saí de lá quase que de fininho, ainda bem…e de táxi, com os vidros abertos já que o carro não tinha ar condicionado.

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