O evangelho segundo os estudantes

Alunos falam sobre suas crenças e preferências religiosas

Gilberto Lacerda Rodrigues
4 período de Jornalismo

Os dias que antecedem um vestibular são os mais tensos da vida acadêmica de um indeciso estudante. Escolher o curso que vai culminar em uma carreira não é fácil. Muitos jovens fazem teste de aptidão e alguns chegam ao extremo de experimentar vários cursos até chegar a uma conclusão. Vários fatores influem direta ou indiretamente no momento de optar por um determinado curso, até mesmo a religião pode conspirar nessa escolha.

Alécio Donizete Freire, padre, cursa o quarto período de comunicação social. A escolha do curso está diretamente ligada a outra escolha que fez ainda na adolescência. Aos quatorze anos após realizar um teste vocacional em Güaxupé, no dia três de fevereiro do ano de 1980, ingressou no seminário. Depois de doze anos de seminário e mais dez dedicados ao sacerdócio, Alécio decidiu prestar vestibular. Segundo o jovem padre sua escolha teve como motivação a propagação da religião que abraçou como modo de vida: "Hoje as missas passam por cima dos telhados", filosofa o padre.

O curso ampliou os seus conhecimentos sobre mídia impressa, eletrônica e virtual. Ainda no seminário Alécio foi o principal colaborador do jornal interno que tinha o sugestivo nome de "A Fonte". Antenado nos novos tempos o "padre-jornalista", acredita que a palavra de Deus não pode ficar restrita às missas celebradas nas igrejas. Enquanto uma missa na paróquia do bairro Alfredo Freire é assistida por pouco mais de trezentas pessoas, através do rádio, tv ou internet, milhares de pessoas poderão acompanhá-la nos mais distante pontos do país ou do mundo.

Na opinião do padre, a evangelização virtual não é um sonho distante ou utópico. Para ele os jovens que hoje preferem se isolar do mundo em frente a tela de um computador, poderão receber a palavra de Deus via internet, numa linguagem adaptada e de fácil compreensão para os internautas.

Dentro da Universidade de Uberaba, a palavra de Deus ecoa nos mais diversos cursos, através das mais diversificadas manifestações religiosas. No campus da instituição podemos encontrar espíritas, católicos, evangélicos, esotéricos e até gente que não acredita em nada. Existem várias semelhanças e diferenças entre as diversas religiões que compõem a corrente religiosa que atravessa por quase todos os cursos da escola.

Alguns alunos se destacam como elos robustos dessa corrente. Priscila Escalon Ferreira, que cursa o quarto período de Direito não esconde de ninguém a sua religiosidade. Pelo contrário, expressa-a com veemência. Ela é uma garota que tem como principal qualidade a capacidade de comunicar. Fala com fluência sobre diversos assuntos e o espiritismo é um deles. A jovem estudante segue a linha Kardecista, acredita que sua fé é racionalizada tendo como um dos principais alicerces a ciência, que segundo ela, comprova a maioria dos fenômenos espíritas.

Vários de seus colegas procuram-na para desabafar e perguntar sobre o espiritismo. Por ser evangelizadora não estranha tal fato, sempre tem algo interessante e confortador para compartilhar. Consegue despertar o interesse dos que a procuram a tal ponto que em pouco tempo já estão no centro espírita fazendo parte da grande família espírita.

Gosta de lembrar que tem três paixões em sua vida: a família, o direito e, é claro, o espiritismo. Porém, faz uma ressalva a algumas leis que regem o seu curso, como por exemplo, o aborto em caso de estupro. Ela é radicalmente contra. Essa parte da lei colide de frente com o maior preceito da sua fé: a reencarnação. Para ela, o aborto, independente das circunstâncias, impede que um espírito tenha a oportunidade de se aprimorar. Explica que no espiritismo o corpo nada mais é do que a morada provisória de um espírito, por isso é pragmática quanto a esse tema: "Sou totalmente contra o aborto. A nova vida começa no momento da concepção". Entre o direito e a fé, não pensa duas vezes em optar pela segunda.

Outro ponto do direito que causa bastante polêmica nas aulas, é a eutanásia (Eutanásia: teoria segundo a qual seria lícito abreviar a vida de um doente incurável para por fim a seus sofrimentos). Os debates, ou embates chamam a atenção pela forma apaixonada que as partes divergentes defendem seus pontos de vista. Em alguns paises a eutanásia é permitida. Parte da turma de Priscila acreditam que no Brasil também deveria ser permitida em caso de doenças terminais, a outra, da qual a luna faz parte, é contra.
Mais uma vez o seu lado religioso se sobrepõem ao direito. Para ela, a eutanásia nada mais é que um suicídio com o consentimento da lei, interrompendo a evolução do espírito, fazendo com que seu praticante contraia uma dívida no mundo espiritual.

É de praxe pai e filhos discordarem a respeito de quase tudo. No caso de Priscila e o Senhor José Antônio Ferreira esse conflito praticamente não acontece. O dois compartilham da mesma religião e também do mesmo curso, o pai está atrasado alguns períodos em relação a filha. Pai e filha discordam em vários pontos sobre as leis que regem o direito, mas concordam em praticamente tudo no que diz respeito a religiosidade. Por ser um homem religioso, acha estranho a falta de religiosidade da maioria dos seus colegas. Na opinião dele, falta uma diretriz religiosa para guiar os passos da maioria dos estudantes de direito, a filha compartilha da mesma idéia. Por concordarem nesse aspecto, os dois, sempre que a ocasião permite, tentam acender a fagulha que pode levar um frio cético a se aquecer na fogueira da fé.

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