Os
campeões do jogo da vida
Deficientes
visuais superam as dificuldades e se destacam no esporte e na vida profissional
Claudinei Honório
8 período Jornalismo
Filipe Tavares dos Santos, 12 anos, é uma criança como
outra qualquer. Gosta de brincar com os amigos, estudar e principalmente
fazer natação. Já ganhou três medalhas, sendo
uma de ouro, prata e bronze. Até aí tudo bem e nada mais
natural do que um jovem praticando esporte. Mas a realidade do garoto
é bem diferente. Ele possui uma síndrome denominada de
B1, que significa ser totalmente cego. Filipe não enxergar absolutamente
nada, o que não o impede de praticar vários esportes e
até mesmo ganhar, como no caso da natação.
Além da família, o menino recebe apoio do Instituto de
Cegos do Brasil Central de Uberaba (MG) para estudar e praticar esporte.
Seu tempo fica dividido entre as aulas na parte da manhã e os
treinos de natação que acontecem duas vezes por semana
durante a tarde. O restante do período passa geralmente na oficina
mecânica com o pai. "Eu já desmonto e monto carburador
sozinho, meu pai me ensinou, demorei um pouco para aprender, mas hoje
já consigo fazer o serviço sem que ele me ajude, também
lavo peças e até troco rodas", afirma.
Atualmente cursa a terceira série primária e já
pensa no futuro. Pretende seguir os passos do pai e se tornar um bom
mecânico. "Quero trabalhar e montar uma oficina e também
ter um carro", comenta. Apesar das dificuldades que o garoto sabe
que enfrentará ele não se preocupa muito. Elogiado por
todos os professores, Filipe está confiante no futuro que tem
pela frente, apesar de sua deficiência visual.
Como Felipe, os portadores de deficiência visual desenvolvem várias
habilidades e a maioria leva uma vida normal, trabalham, estudam, moram
sozinhos ou constituem família como é o caso de Adilsson
Antonio da Silva, 35 anos. Ele nasceu com um grau de deficiência
visual não muito grande, mas o caso foi se agravando.
Adilsson conseguia ler e escrever, estudou até a quarta série
do ensino fundamental, quando começou a perder totalmente a visão.
"Eu comecei a escrever em cima das linhas que já estavam
escritas e por medo e timidez abandonei os estudos", relembra.
Hoje enxerga apenas luminosidade. Sua irmã também possui
o mesmo problema. Tiveram retinose pigmentar. De acordo com Adilsson
a causa é indeterminada.
Casado com Ana Lice da Silva, que também é deficiente
visual, os dois tiveram um filho que está com três anos,
Marcos Vinícius da Silva. Ele não possui nenhum tipo de
problema na visão. Adilsson é professor de Matemática
e Ciências no Instituto dos Cegos, e sempre busca alcançar
seus objetivos. No fim do ano ele conclui o curso de Pedagogia Especial
na Universidade de Uberaba.
Segundo ele, o deficiente visual tem que se desdobrar, pois quase nunca
encontra material para estudar. "Você precisa ter um conhecimento
geral muito grande, pegar todo tipo de informação, buscar
entender tudo, pois isto pode contribuir e muito na sua vida e na sua
escolaridade. Tudo que escuto, seja em notícias ou até
propaganda eu tento assimilar de uma maneira que vai ser útil
no futuro", conta Adilsson.
As dificuldades
Mesmo desenvolvendo de maneira inigualável a audição
e o tato os deficientes deparam-se com dificuldades que não são
superadas por esses sentidos. No caso do professor, as dificuldades
estão presentes dentro de casa, quando precisa lidar com remédios
do filho. "Identificar o medicamento é fácil, o difícil
é saber as reações, como no caso de vermelhidão.
Se o remédio é em gotas então não tem jeito,
vamos ter que pedir ajuda", ressalta.
A batalha de Adilsson é ter que vencer os obstáculos todos
os dias. Na faculdade sempre precisa da ajuda dos colegas para acompanhar
a turma. Na rua encontra dificuldades principalmente nos passeios em
que são colocadas as caçambas de entulho, sem falar na
má conservação dos mesmos. Os portões das
casas se tornam grandes vilões quando esquecidos abertos no meio
da calçada. Mas para Adilsson, o problema maior são as
lixeiras de ferro que brotam na rua da noite para o dia: "a gente
nunca se sabe onde elas estão, se no meio da calçada ou
perto da rua", completa. O formato dessas lixeiras surpreendem
os deficientes de maneira dolorosa. "Elas quase nunca são
redondas e a gente sempre bate de frente e acaba se machucando. Estou
com a barriga arranhada pois no meio do caminho havia uma lixeira cheia
de quinas", disse .
O professor deixa sua indignação explicita e ressalta
o que teria que melhorar na cidade para que o deficiente visual pudesse
ter uma vida com menos dificuldades. "Eu tenho na minha mente,
mais ou menos, um mapa da cidade. Sei como chegar aos locais, mas quem
ainda não conseguiu mentalizar isto, fica difícil. Por
isso os ônibus escolares são importantes; a padronização
dos passeios também amenizaria. Poderia haver também nos
pontos de ônibus, uma caderneta escrita em Braile e em tinta ampliada
assim poderíamos saber as linhas e os números dos ônibus.
Por exemplo, se estou no ponto e quero pegar um ônibus que vai
para o Primavera, vou saber a linha e o número. Tendo a tinta,
o número vai ficar na minha mão, vou mostrar para o motorista
e se não for o meu ônibus ele não vai precisar parar
sem necessidade. Esse serviço poderia ser implantado, uma vez
que não é imaginação, já existe em
Franca (SP)", finaliza Adilsson.
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