Vim, vi e venci! (Numa boate gay)
As aventuras de uma universitária hetero num lugar
tipicamente GLS


Simone Souza – 6 período de jornalismo


Há uma casa simples na avenida mais movimentada da cidade. Parece um mini-chalé azul-escuro com detalhes em branco e dourado. O portão de grade, modesto, não sabe sua verdadeira função: é uma passagem para a transgressão, para a superação de preconceitos ultrapassados. Falo da boate FOX, a casa noturna GLS que veio para tirar Uberaba da idade das trevas, sexualmente falando. Para os mais desavisados, informo que a sigla GLS refere-se à gays, lésbicas e simpatizantes. O quadro com a foto de um marombeiro nu, logo na entrada, é um aviso: "agora você já sabe onde está pisando…". Entro, meio desconfiada, sem saber bem o que vou descobrir.
Bem, vamos lá. O ambiente é agradável, com um bar bem-cotado, uma pista de dança eletrizante e sofás aconchegantes para aqueles que preferem conversar. Não precisei circular muito para perceber que as pessoas são sociáveis e educadas. Um rapaz se aproxima e afirma, categórico, que me conhece de algum lugar. Obviamente não se trata de uma cantada já que ele me diz seu nome seguido por um "eu sou gay". Meu novo-antigo conhecido me apresenta a mais três pessoas e conversamos sobre o mundo da moda – e quero dizer moda com pedigree, ao nível de Côco Chanel. Fiquei impressionadíssima! Desse ponto, o assunto pula para viagens ao exterior e aí começo a boiar. Confesso que sou duríssima e, Fred, um dos interlocutores, dispara: "Mas querida, o mais importanate é ter estilo, e, isso, você tem!" Thank you, very much!
A noite vai rolando, dou umas voltas e topo com uma moça, uma das poucas que vejo, já que os homens predominam. Ela conta que é a primeira vez que vai à FOX, junto com seu irmão que é um habitué do local. Diz que está achando totalmente diferente do que imaginava e está gostando. Eu também. Mas nem tudo são flores. Um rapaz bêbado, vestido como uma drag queen, arma um escândalo por ciúme e quebra a harmonia presente. Um segurança tenta resolver, não consegue e gentilmente convida "Gilda" a se retirar. Não sei ao certo se era Gilda mesmo, mas a drag se vestia de forma idêntica ao lendário personagem de Rita Hayworth. Um moçoilo afetadíssimo me cutuca e fala: "Essa bicha escandalosa é uma bichinha pão-com-ovo (brega, sem classe)! Odeio gente barraqueira!"
Confusão terminada, faço cara de curiosa e indago ao segurança de quase dois metros de altura se isso acontece muito aqui? Ele diz que isso é raro, que esse é o lugar mais pacífico onde trabalhou, e olha que quase rejeitou o emprego por causa das gozações dos colegas de profissão. Afirma que não dá mais ouvidos às bobagens ditas sobre homossexuais. Aproveitando que estava na porta da boate, peço ao porteiro para sair e comprar cigarros no posto de conveniência ao lado. Lá, encontro de surpresa uma amiga que está sentada, bebendo. Ao contar de onde venho, ela se espanta e pergunta como é. Então, inverto a situação: " e como você acha que é?" Ela me descreve uma cena dantesca que mais parece um inferninho depravado e eu começo a achar que cachaça é um mata-neurônios eficiente…
O papo fica chato, decido voltar à minha missão. Já na porta, convido um suposto "agro-boy" que passava na calçada para entrar, e ele: "Eu não. Ocê tá doida, muié?". Virge! Penso em fazer o sinal-da-cruz. Corro, então, para dentro, com uma certeza: dentre todas as milhares de noites em danceterias que tive, essa foi a única com conversas aproveitáveis e a única em que não levei cantadas invasivas e nenhum bêbado pisou no meu pé ou me molhou com cerveja. Transgredi o conservadorismo uberabense e não me arrependi. È possível ser hetero e ser divertir numa boate gay. Quem vier, verá!

 

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