Moradores
sofrem com falta de água

Gilberto Lacerda Rodrigues
4 período de Jornalismo
17 de outubro de 2002. Como faz todos os dias, por volta das cinco e
meia da manhã, dona Rita de 53 anos, se levanta para buscar água
na mina. Sempre acompanhada de dois baldes, ela pacientemente desce
a ladeira de mais de 300 metros para enchê-los. Agachando com
a agilidade incomum para sua idade, Rita deixa que a água ocupe
apenas metade de cada recipiente, evitando assim que o lodo também
entre nos baldes.
Concluída a primeira etapa da tarefa, ela sobe a ladeira levando
o precioso líquido. Parte dessa água é usada para
fazer o café do marido. Ralo e doce como ele gosta. Em uma panela
de pressão, ela esquenta água para dar banho no seu netinho
de apenas um ano e nove meses. Com delicadeza coloca o garotinho em
uma bacia enquanto a água esquenta. A filha acorda e assume suas
obrigações de mãe solteira.
Novamente dona Rita pega os baldes e recomeça a sua peleja. Decepciona-se
ao constatar que outras pessoas já estão as margens da
pequena mina. O objetivo delas é o mesmo. Encher os vasilhames
de água para saciar as necessidades diárias.
Dona Rita fica irritada e repreende um garoto que pisa com seus pés
descalços dentro da mina. A água fica barrenta, o jeito
é deixar para mais tarde. Sobe novamente a ladeira. Enquanto
ela sobe, dezenas de pessoas descem com seus baldes rumo à pequena
e cobiçada mina.
Engana-se quem pensa que esta cena acontece em uma chácara, sítio,
ou fazenda. Na realidade ela acontece dentro da cidade de Uberaba, mais
especificamente no bairro Cartafina. Diante do racionamento de água
na cidade, a solução encontrada por alguns moradores daquele
bairro, foi dividir uma pequena mina que corre bem no meio do bairro.
O que mais impressiona na cena, é o fato da mina estar rodeada
de lixo. Papéis, restos de alimentos, fezes de animais, sacos
de cimento compõem o trágico cenário.
Assim como dona Rita, os demais moradores do bairro Cartafina vêm
sofrendo há vários dias com a falta dágua.
O caminhoneiro Luiz Antônio de Freitas, leva toda a família
para tomar banho num posto localizado às margens da BR 050. A
filha adolescente do senhor Luiz descreve o banheiro do posto: "Nossa,
podrão cara, podrão. Até barata tem vergonha de
morar num lugar daquele. Pra começar não tem vaso, só
um buracão. Tem nem como fazer alguma coisa ali. E o chão
cara, na hora de tomar banho é o maior drama. O chão até
gruda. Chuveiro nem pensar. É água fria na cabeça.
Cara, ninguém merece". O pai acha que a filha reclama demais.
A água que tem dentro de casa também é proveniente
da mina. Para que os filhos pequenos possam bebê-la, o caminhoneiro
diz que a ferve por três vezes.
Durante todo o dia os moradores ficam na expectativa, aguardando a chegada
do caminhão pipa. Olhando para o céu um deles acredita
que no final da tarde vai chover. Esperança travestida de palpite.
Boa parte dos moradores não sai do lado do telefone. Ligam para
a central de atendimento do CODAU, e a cada minuto perguntam sobre o
caminhão que nunca chega. Desaforos aos atendentes são
proferidos em forma de desabafo.
Do lado de dentro das casas, agitação. Ninguém
consegue ficar parado por causa do escaldante calor. Os ânimos
alterados, contribuem para que hajam brigas ao menor e mais banal sinal
de provocação. Com o forte calor e a falta dágua,
os relacionamentos interpessoais ficam mais ríspidos. Irmãos
se odeiam ainda mais. O romantismo dos jovens casais evapora, e crianças
brigam por motivos mais banais do que o de costume. Um garoto quase
foi "linchado" pela mãe ao ser pego dentro de uma bacia.
Até aí nada de mais, só que o jovem "infrator"
utilizou todo o gelo da geladeira para abrandar o forte calor.
Do lado de fora das casas, uma cena que faz lembrar os quadros surrealistas
do pintor espanhol, Salvador Dali. Centenas de vasilhames, das mais
diversas cores e tamanhos aguardam boquiabertos o líquido precioso.
Alguns moradores lembram que essa é a pior seca dos últimos
trinta anos.
Expressões casadas e incrédulas diante da situação
que segundo o comentário da maioria, só tende a piorar.
Os mais velhos teorizam lembrando que o rio Uberaba não consegue
mais abastecer a crescente população.
Uma senhora gorda, que transpira em cascata, reza o seu terço
pedindo um intervenção divina. Para ela, tudo não
passa de castigo de Deus: "Os homens têm feito muita mal
com a natureza", teoriza.
No topo da rua comprida e estreita, um garoto desce correndo e gritando:
"Água, água, mãe". A esperança
se reacende em todos. O silêncio toma conta da rua que aguarda
impaciente.
No início da rua aponta um velho caminhão azul. Uma família
de flamenguistas vibra como se fosse um gol de Zico. O carro pipa desce
lento contrastando com a pressa dos aflitos moradores. Todos olham para
o veículo com uma certa devoção.
Parando na primeira casa da rua, os funcionários do CODAU, correm
contra o tempo. Descem agitados do caminhão e desenrolam uma
grossa mangueira. Os "heróis", recebem tapinhas carinhosos
nas costas. Nenhum morador reclama com os funcionários. Não
se sabe se por comodismo, ou por saberem que eles não têm
culpa nenhuma do que está acontecendo.
Os vasilhames sedentos, aguardam o fim da agonia. A pressão forte
da mangueira enche um a um. Nas casas, os impacientes, de olhar baixo,
esperam sua a vez. O processo é lento e laborioso, mas não
existe outra maneira. O encarregado do caminhão, Walter Brito
diz que esse sistema foi adotado depois de um incidente no conjunto
Valim de Melo: "Rapaz, lá a turma avançou na gente.
Teve até que chamar a polícia. Antes a gente parava o
caminhão e os moradores vinham pegar a água, mas é
muita gente, e o melhor é passar de casa em casa. É mais
lento, mas é melhor, evita o tumulto". Em seis horas eles
conseguiram abastecer quatro ruas.
Distribuíram mais de vinte mil litros. O caminhão tem
capacidade para cinco mil litros por vez. Ou seja: a cada cinco mil
litros tem de ser reabastecido. É pouco para tanta gente. Em
quarenta minutos o caminhão está praticamente seco. Isso
não ocorre apenas por causa do grande volume de pessoas com seus
mais diversos vasilhames. Mas também por causa do desperdício.
O velho caminhão azul está repleto de furos, por onde
o precioso líquido se perde. Crianças aproveitam os pequenos
riscos dágua para encher garrafas de coca-cola vazias.
Ocupadas carregando enormes baldes, as mães nem atentam para
o perigo dos filhos embaixo do caminhão.
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