Cirurgia da alma
A reportagem do Jornal Revelação foi até a Chácara Vale do Sol, no município de Uberaba, onde o médium Maurício Magalhães diz incorporar o espírito de Dr. Fritz para realizar cirurgias espirituais. Movidas pela fé, pessoas de todas as idades e com vários tipos de enfermidades buscam soluções. Encontramos casos de sucesso e outros que apresentaram complicações.

Thiago Ferreira
4º período de Jornalismo

Saindo de Uberaba pela rodovia MG 427, sentido Conceição das Alagoas, percorremos dois quilômetros e entramos à esquerda. Rodamos mais um quilômetro por uma estrada estreita. O asfalto acaba e são mais alguns metros de estrada de terra até chegarmos à Chácara Vale do Sol, sede do centro espírita do médium Maurício Magalhães.

O lugar é bem simples, com muitas árvores e cerca de dez salas para os atendimentos. Maurício nos recebe e exibe o consultório odontológico, montando, em um trailer, a cozinha industrial, ambientes para cromoterapia, musicoterapia, salas de passes e de estudos sobre a doutrina espírita. Por último, nos apresenta a sala do Dr. Fritz. Na parede, um quadro do mentor, o médico alemão Adolf Fritz, que nasceu em Munique, em 1876. Após sua formatura, Fritz ingressou no exército atuando como clínico geral, na Primeira Guerra Mundial. Pela falta de recursos, tornou-se mestre no uso de material improvisado para o atendimento emergencial e cirúrgico.

Estudiosos da doutrina espírita dizem que ele teria causado muitos danos às pessoas e que voltou à terra por meio de um intermediário para se redimir dos males. A primeira manifestação que se tem conhecimento no Brasil foi na década de 50, com Zé Arigó, em Congonhas/MG.

Com o mato-grossense Maurício Magalhães, a incorporação de Fritz teria sido quando o médium completou 17 anos. “A minha família é espírita e os líderes do centro que frequentávamos achavam meio absurdas aquelas manifestações, já que o Fritz é um espírito raro”, fala o médium.

O retrato de Fritz fica em meio a outros de espíritas renomados, como Alan Kardec, Chico Xavier e Bezerra de Menezes. No canto da sala, há um armário cheio de medicamentos, sondas, bisturis e tesouras.

Em dia de cirurgia espiritual, os quadros são expostos sobre uma mesa em uma imensa varanda, onde o médium “opera” as pessoas.

Uma trabalhadora autônoma, de 41 anos, mãe de duas filhas, que preferiu ter sua identidade preservada, já esteve na chácara em busca de cura. Ela sentia fortes dores na coluna, causadas por uma hérnia de disco, quando foi incentivada por amigos a procurar o Dr. Fritz, por meio de Maurício Magalhães.

A senhora não entrou na fila, organizada por um sistema de senhas, pois tinha conhecidos que trabalhavam como voluntários auxiliando as sessões. Ela conta que com um bisturi, o médium fez um corte de aproximadamente um centímetro na região lombar. Ela afirma que sentiu uma leve dor, mas não saiu sangue. Depois, seguiu para uma sala, onde foi feito o chamado “ponto espiritual”, uma sutura. Na volta para casa, sentiu uma forte dor e percebeu um leve sangramento. No terceiro dia após a cirurgia, estava agendado o retorno. Houve um segundo corte, no mesmo local. A senhora conta que, desta vez, sentiu uma dor forte. Nos dias anteriores, ela já havia percebido que uma secreção esbranquiçada saia do corte e a região apresentava inchaço.

O que a trabalhadora não imaginava é que o bisturi usado para fazer o corte estava contaminado com uma bactéria comum em hospitais. Exames clínicos comprovaram, cerca de uma semana após a cirurgia, uma infecção pela bactéria Staphylococcus Aureus, comum em materiais cirúrgicos não esterilizados. Foram 18 dias internada sob os cuidados de um ortopedista, um infectologista e um neurologista. O uso de anti-inflamatórios e de outros medicamentos se prolongou por mais um mês. Além do emocional abalado, houve ainda o agravamento do problema na coluna. “Eu tinha 10% de chance de me livrar da morte ou de uma paralisia. Fui envolvida e levada pelo desespero, pela minha dor. Não volto e não recomendo”, desabafa a entrevistada.
Perguntamos ao médium Maurício o que ele tem a dizer sobre a história da mulher que contraiu a infecção e ele foi enfático: “Eu não tenho conhecimento desse caso”. O médium diz que as pessoas o procuram quando estão em um estágio avançado da doença e que, na maioria das vezes, já não há eficácia no tratamento. Ele explica que há uma “bipolaridade espiritual”, ou seja, que teria ouvido falar que outro médium na cidade também estaria recebendo o Dr. Fritz. “Eu não sei quem é essa pessoa, apenas ouvi dizer que é no bairro Volta Grande. Ela deve ter confundido o local que ela foi”, justifica-se.

O médium se empenha para passar credibilidade. Afirma que todas as quartas- feiras, a partir das 18h, são recebidas cerca de 1500 pessoas na Chácara Vale do Sol, mas ressalta que apenas 500 são atendias. Quando nossa equipe de reportagem esteve no local no dia 30 de setembro, havia aproximadamente 100 pessoas. Segundo ele, o atendimento é totalmente gratuito, realizado com o apoio de uma equipe com 150 voluntários. Maurício assegura que são médicos, dentistas e fisioterapeutas. O médium ressalta que realiza um trabalho rigoroso de assepsia dos materiais cirúrgicos, além de um cadastro que funciona como um prontuário médico.

Na noite da reportagem, luvas descartáveis não foram utilizadas. Os bisturis e tesouras estavam expostos nas bandejas dos
assistentes.

Durante as entrevistas, chegamos a mais um “paciente” de Maurício Magalhães. O auxiliar de produção Antônio Júnior, de 47 anos. Ele contou que em 2004, durante uma partida de futebol, sofreu uma contusão. O diagnóstico médico foi o rompimento do tendão do joelho esquerdo. Antônio chegou a fazer tratamento com um ortopedista, mas achava que a melhora estava muito lenta. Com a indicação de amigos, foi até a Chácara para a “cirurgia” com o Dr. Fritz. Foram três cortes, um a cada sessão, e seis semanas de tratamento, baseadas em passes. Ele garante que conseguiu se curar. “Os auxiliares do Maurício explicam tudo o que será feito. É evidente a minha melhora. É preciso ter fé, caso contrário, não vai adiantar”.

À medida que fomos produzindo esta matéria, localizamos vários outros personagens, mas todos se negaram a dar entrevista.
Buscamos novo contato com Maurício e ele nos assegurou que em seus 34 anos de trabalho já atendeu mais de quatro milhões de pessoas de todos os lugares do país. Nos revelou que esteve preso, quando morava na capital paulista, em 1998. Segundo o próprio Magalhães, são 49 processos por diferentes acusações, como prática ilegal da medicina, curandeirismo, charlatanismo e formação de quadrilha.

No Fórum Mello Viana, em Uberaba, não há nenhuma ação criminal; encontramos alguns autos ligados a assuntos financeiros.
Membro do Conselho Regional de Medicina de Uberaba, Nelson Barsan, diz que nada pode ser feito quanto ao trabalho de Maurício Magalhães. De acordo com ele, o conselho só pode agir e interferir na classe médica. O que o CRM pode fazer é orientar qualquer pessoa que tenha alguma queixa a formalizar uma denúncia no Ministério Público para que seja aberta uma investigação. “Esse tipo de atividade exerce um certo fascínio sobre as pessoas, mas lhe garanto que tratamento médico verdadeiro só é possível com profissional qualificado”, assegura Barsan.

A equipe do Revelação também procurou a AME - Aliança Municipal Espírita de Uberaba. Depois de vários telefonemas conseguimos conversar com o coordenador do Departamento da Juventude, Júlio César da Silva. Ele disse, por telefone, que não há ninguém da AME que possa falar sobre o trabalho realizado por Magalhães. “Não conhecemos o trabalho desenvolvido na Chácara Vale do Sol, por isso não podemos falar sobre a questão”, frisa Júlio.
Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2009