Rotina de gente pequena
De olho no futuro, crianças mostram maturidade e aprendem a dividir o tempo de lazer e de estudo

Iara Rodrigues
Maquilagem está entre as brincadeiras preferidas da pequena Esthella
Iara Rodrigues
4º período de Jornalismo
No apartamento, uma garotinha muito simpática me recebe com um sorriso. É Esthella Marciano Romano. Quando a vi, logo pensei: ela está ligada na novela global Caminho das Índias e aderiu à moda indiana, pois usava um bindi (espécie de adesivo que os indianos colocam na testa). Pouco depois, soube que a pequena faz dança indiana há quatro meses, no período da manhã. A menina de jeito meigo tem apenas nove anos e está no 4º ano, a antiga 3ª série. A jovem estuda na escola particular Jean Piaget, próximo à sua residência, no bairro Santa Maria.

Do outro lado da cidade, no Parque do Mirante, toco o interfone de uma casa e quem me recebe é Guilherme de Paula Soares Alves Barbosa. Um garoto de dez anos, que está no 5º ano, antiga 4ª série, no colégio Projeto. Guilherme conta que estava no vídeo game, enquanto me esperava. Essa é uma de suas diversões de fim de semana. Outra coisa que o garoto adora fazer é jogar futebol. Em casa, o menino é tranquilo, mas, na quadra, tem velocidade e foi apelidado de “furacãozinho” pelos amigos do clube.

Guilherme demonstra maturidade em suas respostas. “No momento, quero ser criança porque meu tempo de criança vai acabar. Como profissão, futuramente, penso em seguir carreira na medicina”.

A psicóloga educacional, Helena de Ornellas Sivieri Pereira afirma que é na infância que começamos a formar o nosso “eu”. A criança procura saber o que o outro pensa dela. “Em psicologia, acostumamos dizer que o tu vem antes do eu. Preciso do outro para me constituir; ninguém se constitui sozinho”, explica.

No domingo de manhã, encontro João Antônio Gomes de Rezende. O céu estava nublado e fazia frio. Um dia ótimo para dormir até mais tarde, mas o menino de 12 anos optou por acordar cedo e ir ao encontro do “Grupo Domingo Fraterno”, na paróquia de Nossa Senhora da Abadia. Um pouco tímido e com receio de falar, João diz estar na 6º série e tem sonho de ser climatologista. Estuda na Escola Municipal Niza Marquez Guaritá e explica que o fato de querer ser climatologista se deve ao apego pela geografia.

O dia do garoto começa cedo. Às 6h, acorda para ir à escola. Retorna na hora do almoço e assiste televisão. “Meu programa favorito é TV Globinho”, comenta João Antônio. Após o almoço, leva os irmãos para a escola. Na parte da tarde, faz as tarefas, brinca de futebol com os amigos na rua ou vê televisão. Quando chega o final de semana é só diversão, mas, para não perder o costume, também acorda cedo.

A rotina da menina Esthella também é movimentada. Aproveita seu tempo para estudar, brincar e praticar atividades físicas. Duas vezes por semana, no período da manhã, joga tênis e, nos outros dias, fica em casa para estudar e fazer as tarefas. Na parte da tarde, fica na escola. “A mamãe não quer que eu estude de manhã”, lamenta a garota. Perguntei se ela gosta de acordar cedo: “Não, mas... mas... mas é melhor para ficar folgada na parte da tarde”, fala e solta uma gargalhada.

A rotina da garota parece não ter fim. À noite, pratica vôlei na terça e na quinta. Segunda, quarta e sexta, Esthella aproveita para fazer as tarefas e ficar mais livre na manhã seguinte.

“É rotina de criança. Ainda não coloquei para fazer inglês porque quero espe rar ela ficar mais madura um pouco”, comenta a mãe de Esthella, Iluska Moritz Marciano Romano. Apesar de tantas atividades, a menina ainda tem vontade de fazer música.
Já Guilherme, não se prende a uma rotina cheia. De acordo com a mãe, Francilene de Paula Barbosa, normalmente, durante a semana, ele acorda entre 9h30 e 10h e toma café da manhã. Quando não tem tarefas, ele assiste televisão. No período da tarde, vai para a escola. À noite, fica com a mãe, em casa. Final de semana é tempo de diversão em família. “Sou filho único e me sinto muito sozinho. No domingo, gosto de brincar com meus primos na casa da minha avó. A gente brinca de pique-pega, pique-esconde, futebol... É legal demais”, explica Guilherme.

A psicóloga Helena de Ornellas pondera que o melhor para a criança é ocupar o tempo com atividades e brincadeiras livres, sem rotina. Segundo ela, atividades físicas, como dança e esportes, fazem bem para o
desenvolvimento.

Domingo Fraterno

Leandro Araujo
Adriana Cirino, mãe de João Antônio, tem outros seis filhos e garante que consegue se fazer presente na vida de todos
O Grupo Domingo Fraterno é um projeto de assistência a famílias carentes. Começou em Uberaba, em maio deste ano, e já auxilia 21famílias. Dessas famílias, 51 crianças, de zero a 13 anos, são beneficiadas.

O projeto conta com 20 voluntários que, em dois domingos do mês, participam de encontros na paróquia de Nossa Senhora da Abadia. No primeiro domingo, servem café da manhã, fazem a evangelização e distribuem fichas para as famílias pegarem cestas básicas no próximo encontro.

Além dos encontros, os voluntários visitam as famílias carentes em outros dois domingos do mês. “Temos como objetivo levar a evangelização, o sacramento da igreja católica para as crianças e até mesmo para os adultos. A gente não se preocupa só com os bens materiais”, explica João Cristóvão Guilherme, coordenador do projeto.

Os pequenos e seus pais
A mãe de Esthella, Iluska, é advogada e tem também Beathriz, de cinco anos. Afastou-se da profissão para se dedicar às filhas. Rodrigo Romano, esposo de Iluska e pai das meninas, estuda medicina e não tem muito tempo de ficar com as pequenas. Segundo Iluska, ele sai cedo para trabalhar, volta para almoçar, sai de novo à tarde e chega apenas no final do dia. “O papai é biomédico e vai ser médico. Quase todo final de semana, ele tem um plantão. Aí, a gente não fica com ele”, conta Esthella.

A mãe de Guilherme, Francilene, conta que não tem muito tempo durante a semana para se dedicar ao garoto. A mãe é técnica de faturamento e o pai profissional autônomo. “Como trabalho o dia todo e meu marido também, a gente vê muito pouco nosso filho. A gente sente muito por não poder estar com ele, mas tem que trabalhar”, desabafa Francilene.

A mãe de João Antônio, Adriana Gomes Cirino, está desempregada e mora no bairro de Lourdes com seu companheiro e os sete filhos (José Lucio, 11 anos; Jorge Luiz, sete; Jonas Maciel, seis anos; Gabriel, quatro; Carlos Eduardo, três e Washington, de um ano). O pai de João Antônio mora em outra cidade e o garoto praticamente não tem contato com ele. A mãe passa grande parte do tempo com os filhos. “Graças a Deus sou bem presente na vida dos meus filhos, ajudando, cuidando...”, argumenta Adriana.

Conforme a psicóloga educacional, o relacionamento entre pais e filhos é a base para a formação de uma criança. “A criança tem que sentir que pertence àquela família. Sentir segurança para ter um desenvolvimento mais tranquilo”, ressalta. Ainda de acordo com Helena, a escola também tem papel importante na formação da criança. A instituição representa o conhecimento formal.

A pequena Esthella está na idade de chamar atenciosamente a professora de “tia”. Ela conta que gosta da escola porque é bem tratada e são muitas as amizades. “Nas aulas, a tia lê para a gente e explica. Às vezes, a gente brinca de salão com as meninas. Aí, a gente faz maquiagem e faz escova. É muito legal”, afirma Esthella, empolgada.
Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2009