Que calor, né?

Isabella Lima
4º período de Jornalismo
Depois de andar pra cima e pra baixo o dia inteiro, enfrentar filas em dois bancos, correr para o terceiro e não poder entrar - já que passa das 15h, passar na pastelaria lotada só porque lá o pastel é cinquenta centavos mais barato que na concorrência, ir às Casas Bahia pagar a décima quinta prestação do carnê e isso tudo com muito sol e muito calor, eis que finalmente é hora de ir pra casa.

Mas como sou uma pessoa com muita consciência ecológica, vou para casa de ônibus, claro. Porque não uso desculpas esfarrapadas para justificar a minha falta de dinheiro e os carros são muito poluentes e individualistas.

No ponto de ônibus, espero alguns muitos minutos até que surge um banco vazio. Sento equilibrando no colo as sacolas que carrego e a bolsa. Cansada. Muito cansada. Torço para que o ônibus não demore. O calor é tanto que quase consigo ver a evaporação da água que molha a grama. Tudo que eu mais quero é chegar em casa.

De repente tenho a impressão de ouvir alguém falando comigo. Torço para que seja apenas uma miragem, e ignoro. Mas a voz continua. Olho pro lado e vejo uma senhora de cabelos brancos, rosto enrugado e muita disposição verbal.
Pronto. Não devia ter virado pra ela. Agora que a olhei, ela vai pensar que sou simpática e que estou disposta a conversar. Continuo calada. Ela me olha e eu, já sem graça, dou um sorriso amarelo. Era o sinal que a senhora esperava.
“Que calor, né, menina?!”, é o máximo que a criatividade dela consegue. Dou outro sorrisinho, seguido de um “é mesmo, tá quente.”

Ao pé da letra, conversa fiada seria um papo para um pós-pagamento. Entretanto, no vocabulário popular, conversa fiada é a famosa conversa jogada fora. Por que uma pessoa usa com outra alguma coisa que vai ser jogada fora? Durma com este barulho.

Já me acostumava novamente com o silêncio, quando a senhora com incontinência verbal reiniciou a prosa. Ela reclamou do atraso dos ônibus. Disse que o motivo era o prefeito, que tinha feito um acordo com a companhia de ônibus em troca de nove fazendas no Mato Grosso. E que por isso a viação não se preocupava em andar no horário. E desandou a se queixar da política nacional.

Minha vontade era de chorar, implorando pra que ela parasse de falar. Eu me segurei, não chorei nem gritei. Ao contrário, disse à senhorinha que sim, a política é muito bagunçada e suja, mas que o país está melhorando aos poucos. Achei que com essa minha fala otimista ela fosse ficar um tempo calada, pensando no que eu tinha dito. Doce ilusão.

“É, a política pode até melhorar, mas tem que ser rápido, antes que o mundo acabe.” Quando a mulher disse isso, fiquei curiosa. Afinal, teria ela alguma relação com Nostradamus? Então ela se explicou. Disse que o sol está se aproximando da Terra, daí o aquecimento global. Que todo o gelo do planeta vai derreter, a água dos oceanos vai secar e o mundo ou vai acabar submerso por água salgada, ou queimado, quando o sol finalmente colidir com a Terra.

Não pude evitar a gargalhada na frente dela. Nessa hora eu ri, talvez de desespero, que me fazia tramar soluções para que o silêncio voltasse a reinar. Paz mundial? Acabar com a miséria e com a fome? Que nada! Naquela hora eu só queria silêncio e paz interior. Pensei em fingir um ataque epilético, assim ela se assustaria comigo e se afastaria. Quando analisava o chão, medindo onde seria menos sujo pra eu me jogar, vejo surgir ao longe a salvação do meu dia.

Grande, branco e azul, esplêndido. O ônibus! Tamanha foi minha felicidade nesse momento que dei um pulo do banco para a beirada da calçada. Dei um tchauzinho para a senhora que não parava de falar e, quando ele parou, fui a primeira a entrar.
Depois desse dia, aprendi a lição: nunca ir para o ponto de ônibus sem fones de ouvido. Mesmo que a música não esteja tocando, você pode fingir à vontade que não ouve o que estão falando.

Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2009