Pitty, em defesa do rock brazuca
Ultrapassando as fronteiras do país e da Internet, o humor de cara limpa se apresenta

Alex Batista Rocha
4° período de Jornalismo
Três álbuns de estúdio, um DVD ao vivo, vários prêmios e uma incontável quantidade de fãs Brasil afora. Pitty ostenta bem o título de ser um dos principais ícones da atual geração do rock brazuca. Antes de tantas realizações, a cantora vivenciou a cena underground baiana tocando em duas bandas, a Inkoma e a Shes. Com a Inkoma, Pitty chegou a gravar o álbum ”Influir” e participar de algumas coletâneas, inclusive um tributo à banda Ratos de Porão. Ela continuou compondo após o fim de ambas bandas e não demorou muito para ela ser procurada pelo amigo e produtor musical, Rafael Ramos. A banda que iria se chamar Projeto Andróide, acabou sendo batizada com o apelido de Priscilla Novaes Leone – Pitty. Atualmente, conta com Duda na bateria, Martin na guitarra e Joe no baixo.

Na correria da divulgação e lançamento da turnê de seu mais recente álbum, Chiaroscuro, Pitty concedeu entrevista para o Revelação via email. Confira!

Revelação. Como você teve a ideia de fazer música independente?
Pitty. Escrevo desde muito nova e ter uma banda possibilitava que eu escoasse esses escritos além de fazer outra coisa que eu amava que era cantar. Isso começou na pré adolescência, por volta de 13, 14 anos.

Revela. Como aconteciam os shows, as gravações e os horários? Pitty. Era tudo feito de forma bem independente e underground. O desejo de fazer um som era tanto que driblávamos, de algum jeito, as dificuldades. Esse espírito do “do it yourself” é bem presente no rock e, em Salvador, mais ainda. Não havia apoio de mídia, nem patrocínios. Tudo era conquistado a muito custo e com muita garra. Um trabalho de militância.

Revela. Quais foram as maiores dificuldades em levar adiante uma banda só de garotas?
Pitty. Tanto no caso da Shes, do Inkoma, ou das inúmeras bandas de rock de Salvador as questões eram as mesmas: não havia mídia especializada, nem meios de divulgar os nossos trabalhos. Era difícil chegar ao público e informá-lo de que ali havia uma cena. Isso acabou conquistando aos poucos, a passos de formiga e, algum tempo depois, foi se formando um público cativo.

Revela. Na banda Inkoma, você era a única calcinha no meio de três cuecas. 
Pitty. Eu já estava acostumadíssima a conviver e ter banda com meninos. Sempre tive mais amigos homens, inclusive. Estranho foi me adaptar ao ambiente feminino da Shes, a coisa de se arrumar, todas juntas para o show. Eu era um moleque. Na época, essas frescurites de menina eram motivos de piada pra mim. Demorei a descobrir a minha feminilidade.

Revela.  Que tal o rock feito por garotas hoje?
Pitty. Rolou um boom na mídia de bandas de garotas de uns tempos pra cá, mas eu não acredito em modismos. Não adianta forçar a barra e empurrar coisas goela abaixo somente porque alguma garota deu certo. É chato ser tratado como um freak. É sacal essa distinção de gêneros. Música não tem sexo. O que importa é se as canções são legais.

Revela. Qual dica você dá a essas garotas?
Pitty. Não se preocupem tanto em serem “garotas” e sim em serem boas instrumentistas, compositoras. O fato de ser mulher é um detalhe que transparece naturalmente, sem que se precise colocar um holofote em cima disso.

A Kimera resiste!
Hoje, em Uberaba, a banda Kimera talvez seja a única formada apenas por mulheres e que esteja em plena atividade. As amigas Renata Karini (Reeh) vocal, Fernanda de Assis (Coooxa) guitarra solo, Jéssica Alves (Géèla) guitarra base e Gislaine Santos (Gisa) baixo, criaram a banda há um ano.

“Tocamos no Festival Rock Dog e no Favela Chic. No festival, a maioria das pessoas estavam lá para nos ver. No Favela, lotamos a casa”, comentam Reeh e Coooxa.

As garotas têm como influências bandas atuais, como Paramore, Vanilla Sky, Pitty, Lipstick, Agnela e associam a escolha à evolução natural no rock no município. “A maioria das bandas toca o rock clássico, Led Zeppelin, Deep Purple, Beatles, nós direcionamos nosso som mais para o público de 13, 14 anos. Eles ouvem músicas atuais. Nós apenas evoluímos”, declara Gisa.

Sobre o apoio dos pais, as opiniões das meninas são bem diversas. Coooxa e Rehh contam que não há repressão, mas também não existe muito apoio. Já Géèla teve mais sorte. “Eles (pais) sempre me apoiaram, tanto que o meu primeiro violão foram eles quem deram”, lembra. Gisa foi a mais polêmica: “Acho que minha mãe nem sabe que eu toco em uma banda”.
A respeito do preconceito, elas são diretas. “Às vezes perguntam quem toca para gente. Se não somos muito novas para isso, mas, subimos no palco e mandamos ver”, finalizam Gisa e Géèla.

Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2009