Nasce um novo Jornalismo
O primeiro jornal impresso do mundo, o Acta Diuena Populi Romana era fixado na parede da casa de Júlio César e trazia em suas páginas diversas notícias, desde feitos militares a obituários e crônicas esportivas. Hoje, as novas mídias chegam capturando audiência fresca - onde quer que ela esteja - com linguagem diferente, velocidade diferente, impacto diferente e o mesmo conteúdo das atas afixadas na parede de Júlio César

Francisco Marcos Reis integra a geração de jornalistas que redescobriram a profissão a partir do empreendedorismo
Kelle Oliveira
Leandro Araújo
4º período de jornalismo

O jornalismo, como conhecemos um dia, está morrendo. O surgimento quase diário de novas tecnologias obriga mudanças na forma como as notícias são produzidas e transmitidas. O novo jornalista não é mais somente a figura que encontramos nas tradicionais redações. Com a multiplicação de novas plataformas de comunicação, ou seja, novos métodos de transmitir mensagens dentro de meios como a Internet, TV e o próprio impresso, grandes veículos e pequenos grupos se aventuram na tentativa de informar, reportar e atingir diferentes públicos, ao mesmo tempo.

Recentemente, o blog em que o jornalista André Deak é escritor colaborador (www.overmundo.com.br), considerou o advento das novas mídias, até pouco tempo consideradas alternativas. “No Brasil, a experiência do repórter multimídia ainda está no início. A Agência Brasil é uma das poucas redações cujos mesmos repórteres produzem tanto para as rádios da empresa, quanto para o online, em tempo real”. Deak acrescenta que, para o profissional, as dificuldades em se produzir para novas mídias não são poucas e, embora uma operação jornalística multimídia possa oferecer uma compreensão mais abrangente da história – com a soma de vídeo, fotos, infográficos e áudio – é preciso que haja infra-estrutura de trabalho e remuneração adequadas.

Empresas internacionais, como a BBC e o jornal The New York Times e, mesmo nacionais, como a Agência Brasil, já vêm testando de forma bem-sucedida experiências no campo da fusão das mídias. Muito além das reportagens tradicionais, esses grupos conseguiram enxergar novos caminhos para expandir a mensagem e alcançar novas audiências e novas maneiras já na apuração dos fatos. O jornal britânico Daily Telegraph, por exemplo, organiza a produção de suas notícias em uma espécie de redação integrada, capaz de reunir diversos tipos de plataformas, na qual o jornalista não escreve especificamente para rádio, TV ou impresso. Ele escreve para todos os formatos de que o veículo dispõe para captar audiência, desde blogs a redes sociais, como Orkut e Facebook.

Os profissionais e as novas tendências
Francisco Marcos Reis, conhecido como Chico Marcos, é um dos jornalistas que começaram a explorar as novas áreas do jornalismo moderno. “Trabalhei a vida inteira com o jornalismo impresso, porém, chegou um momento em que essa atividade já não me dava prazer. Com isso, comecei a criar produtos relacionados à área de comunicação para vender a empresas, prefeituras e agências de comunicação”, esclarece Chico, que graduou-se na Uniube (Universidade de Uberaba), há quase 30 anos.

Atualmente, tem como projetos as revistas H2O Brasil e Foco Regional, um guia turístico distribuído anualmente e um programa de televisão chamado Negócio Fechado. “Sempre haverá a necessidade de informação. Cabe a nós, jornalistas, inventar nosso emprego, criando novas formas de exercê-lo”, finaliza Chico.

A comunicóloga Neire Castfer, da agência de comunicação Futura, já aderiu às novas maneiras para a transmissão de mensagens, cada vez mais revolucionárias e integradas. “Estamos presentes em quase todas as mídias sociais e nos sentimos à vontade para indicar e acompanhar a evolução da comunicação de empresas que entendem, ou pelo menos querem entender, que a única forma de conversas com seus públicos é conversar com eles através de um conjunto articulado de ações, esforços, estratégias e produtos, a chamada Comunicação Integrada, afirma. Segundo ela, o mercado sente dificuldades em se adaptar à nova corrente, não só os profissionais. "O que se vê é uma inércia geral provocada pelo medo do desconhecido”.

Comunicação ampliada
A Comunicação Integrada pressupõe não apenas um diálogo produtivo entre todos os esforços, mas um planejamento conjunto. Nesse sentido, a utilização de novas tecnologias, a presença na web e as formas múltiplas de relacionamento com o público se tornam fundamentais para agregar valor às marcas e consolidar a imagem das corporações junto a públicos específicos ou à sociedade como um todo. A comunicação em todos esses níveis amplia radicalmente o campo de atuação do jornalista e ajuda a definir a multifacetada cara do novo jornalismo.

Faeza Rezende, jornalista “de diploma e coração”, como se considera, graduou-se na Uniube, em 2006, e já transitou por impresso, TV e assessorias de comunicação. Para ela, cada vez mais abre-se um leque de possibilidades de fazer jornalismo. “Não só o rádio ou a TV estão mudando, mas, a maneira como se produzem as notícias. A evolução tecnológica e o surgimento de novas plataformas para comunicação são os grandes responsáveis por isso”, ressalta.

Seu trabalho de Conclusão de Curso, o vídeo-documentário “As Sete Chaves”, sobre a cidade de Uberaba, foi transmitido em um programa regional da TV aberta em abril de 2007 e repercute de forma positiva até hoje. Para Faeza, o jornalista deve explorar as novas possibilidades de produção (como os vídeo-documentrios, por exemplo) e apoiar-se em investimentos públicos e leis de incentivo à cultura, que ajudem a difundir os novos trabalhos e ampliar ainda mais o campo de atuação e criação jornalística.
Outro jornalista formado pela Uniube, Wagner Fonseca, investe na produção de vídeo-documentários desde a época da faculdade. “O documentário sobre desnutrição infantil que foi filmado no Vale do Jequitinhonha para meu Trabalho de Conclusão de Curso custou dez mil reais. Tive que pedir ajuda à família, amigos e até professores”, ele diz

Para o jornalista, a maior dificuldade nesse segmento está em angariar recursos públicos, federais ou estaduais. “Frequentemente são divulgados editais para financiamento, mas o grande problema é que o número de projetos enviados é infinitamente superior ao número de vagas”, afirma Wagner.

Ele acrescenta ainda que o cadastro de espera para verbas é muito grande e a liberação do financiamento pode levar anos. “Isso desestimula o envio de materiais e acaba desacreditando os órgãos de fomento à cultura. Em uma cidade como Uberaba, por exemplo, com cerca de 300 mil habitantes, a produção fica restrita a vídeos de baixo custo e produção simples.

É preciso que estimulemos a arrecadação de dinheiro para a cultura, pois, com certeza, é um rico campo de trabalho para jornalistas”. Apesar das dificuldades, o jornalista se mostra determinado. “O mais importante é que não paremos de criar”

Multi-Bitencourt

Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2009