HOMOSSEXUALIDADE OU HOMOSSEXUALISMO

Mais um preconceito lingüístico
Cíntia Cerqueira Cunha*

Vou começar minha argumentação recorrendo ao “pai dos burros”, o velho, bom e amigo dicionário, embora o pensador russo Mikhail Bakhtin o descreva como “o cemitério das palavras”. Depois de consultar alguns dicionaristas e procurar a origem etimológica de algumas palavras, me atenho a dois autores: Houaiss e Aurélio. Vejamos...

Homossexualismo
Datação

1899 cf. CF1
Acepções
? substantivo masculino
1 a prática de relação amorosa e/ou sexual entre indivíduos do mesmo sexo
2 m.q. (mesmo que) homossexualidade
Obs.: p.opos. (por oposição) a heterossexualismo

Etimologia
homossexual + -ismo; ver hom(o)- e sex(i/o)-; f.hist. (forma histórica) 1899 -homòsexualismo, 1913 - homossexualismo

Antônimos
heterossexualismo

Homossexualidade
Acepções
? substantivo feminino
condição de homossexual; homossexualismo
Obs.: p.opos. a heterossexualidade

Etimologia
homossexual + -i- + -dade; ver hom(o)- e sex(i/o)-

Sinônimos
uranismo

Antônimos
heterossexualidade

Uranismo
Acepções
? substantivo masculino
1 homossexualismo
2 em sentido restritivo – homossexualismo masculino

Etimologia
uran(i/o)- + -ista. Mitologia. Vem de Urania, um dos epítetos (palavra ou frase que qualifica pessoa ou coisa) de Afrodite, deusa grega do amor.

Pederastia
Datação

1858 cf. MS6
Acepções
? substantivo feminino
1 prática sexual entre um homem e um rapaz mais jovem
2 Derivação: por extensão de sentido - homossexualidade masculina (veja que não consta aqui o vocábulo homossexualismo). O Aurélio recomenda, ainda, comparar e confrontar, somente nesta acepção, homossexualidade com uranismo.

Etimologia
gr. (grego) paiderastía, as ‘pederastia’; f.hist. (forma histórica) 1858 pederastía

Você deve se perguntar: por que verifiquei uranismo e pederastia? A resposta é simples. Pura curiosidade de pesquisador. Ao procurar homossexualidade, encontrei uranismo. Daí, pensei: “Nome feio mesmo é “pede-rasta”. Será que ele também tem algum ismo junto dele? Qual será mesmo o sentido estrito da palavra pederastia?”. Nada a ver. Vamos adiante.

Muitos atribuem ao sufixo ismo apenas doença como significado, dizendo que, etimologicamente, palavras terminadas em “-ismo” são relativas a “qualquer desvio do estado normal”. Esse disparate linguístico é de uso médico restrito, um tanto decadente e deveras insuficiente, do ponto de vista científico. Mesmo assim, alguns grupos até hoje se indignam quando alguém utiliza o termo “homosse-xualismo”, que denotaria um caráter de anormalidade ao comportamento homossexual humano.

Ismo
Acepções

? substantivo masculino
doutrina, sistema, teoria, tendência, corrente etc. (mais frequentemente no plural e com sentido pejorativo)
Ex.: o professor consciente contextualiza as idéias evitando ater-se simplesmente aos ismos.

Etimologia
substantivo do sufixo
SILVEIRA BUENO, Francisco da. Grande Dicionário Etimológico – prosódico da Língua Portuguesa. Editora Brasília: Santos-SP, 1974.
Homossexualismo = o mesmo que homossexualidade

Em consulta ao respeitado linguista e escritor brasileiro Marcos Bagno, professor da Universidade de Brasília, narrei a situação vexatória a que fui exposta recentemente em sala de aula simplesmente por verbalizar homossexualismo em vez de homossexualidade. Na ocasião, uma aluna ficou totalmente estarrecida e achincalhou meu “reprovável enunciado”.

Prontamente, o professor me respondeu: “Veja que os dicionários todos apresentam a palavra ‘ioga’ escrita assim e classificada como substantivo feminino, mas os praticantes insistem em dizer ‘o yôga’, numa tentativa de ficar mais perto da palavra sânscrita original, por mais que isso pareça bobagem. O que acontece hoje, com as palavras que preocupam você, é que as pessoas sentem o sufixo ‘ismo’ em ‘homossexualismo’ como se designasse uma doutrina, uma ideologia, uma tomada de atitude (como acontece com fundamentalismo, comunismo, reacionarismo, etc.) ou, como uma doença (tabagismo, alcoolismo etc.). Por isso, a opção julgada mais adequada é “homossexualidade”, porque o sufixo ‘dade’ indica algo que é natural, intrínseco, que pertence àquilo que designa. Observe que a palavra que se usa é ‘sexualidade’, ninguém fala de ‘sexualismo’, mas fala de ‘sexis-mo’ como atitude deliberadamente marcada, como postura reacionária em relação ao sexo”.

Concordo plenamente com o professor, embora homossexualidade e homossexualismo sejam SINÔNIMOS em todos os dicionários consultados (além do Houaiss e Aurélio). Quer comparar? Analisemos os termos sedentariedade e sedentarismo. Sedentariedade significa, de acordo com o dicionário Aurélio, qualidade de sedentário, vida sedentária. E sedentarismo expressa hábitos sedentários, vida seden-tária. O problema aqui não está no “ismo” e, sim, no sedentário, do latim sedentarius (aquele que está comumente sentado; que anda ou se exercita pouco; inativo).

Ainda insatisfeito, alguém chega e fala: “Mas raquitismo, botulismo, alcoolismo são doenças”, tentando comprovar que “ismo” significa somente enfermidade, vício, mania. E eu retruco: “Heterossexualismo, patriotismo, automobilismo, atletismo, Jornalismo, entre milhares de outros ismos, como Classicismo, Romantismo, Modernismo, Catolicismo, Espiritismo, e agora está na moda a onda do empreendedorismo (hehe), têm significados bastante distintos, não é verdade?”. Aliás, o que chamamos de alcoolismo, por exemplo, em psiquiatria, é verdadeiramente uma doença: a dipsomania, sem ismo.

Normalmente, jornalistas são orientados a não usar determinados vocábulos pelo seu caráter eminentemente pejorativo ou discriminatório. O Ministério da Saúde, por exemplo, recomenda que a imprensa jamais empregue as palavras leproso e lepra para designar, respectivamente, hanseniano e hanse-níase. Vale lembrar que a história bíblica comprova a marginalização das pessoas relegadas aos leprosá-ri-os. Outro termo terminantemente proibido é aidético, pois ninguém morre de Aids ou Sida (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), é vítima de doenças oportunistas que acometem o organismo debilitado pela imunidade falha. E o próprio dicionário asse-vera: “Uso impróprio – escreva soropositivo”.

Para terminar a discussão, o homossexualismo nada mais é do que uma expressão genuína da se-xualidade humana. Em matérias jornalísticas, obvia-mente também recomendo o uso de homossexualidade, para evitar pendengas. Mas o que importa mesmo na comunicação é o receptor entender o intento do falante que pode, muito bem, recitar em alto e bom som a palavra homossexualidade com o nariz torcido de um intolerante. O resto é puro preconceito linguístico.

* Cíntia Cerqueira Cunha é jornalista, especialista em Comunicação Jornalística e mestre em Jornalismo na Contemporaneidade, pela Faculdade Cásper Líbero. Atualmente, é docente do curso de Comunicação da Universidade de Uberaba, no qual leciona Legislação e Ética em Jornalismo, Teoria do Jornalismo, Edição, Livro-Reportagem, Responsabilidade Social em Comunicação e Técnicas de Reportagem, Entrevista e Pesquisa.

Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2009