Generoso sim, fiado nunca!
Recortes da vida de um comerciante que conquistou a simpatia dos universitários

Kelle Monik de Oliveira
3º Período de Jornalismo
Kelle Monik de Oliveira
Senhor Batista ainda preserva a forma de fazer as contas na ponta do lápis, Nada de calculadora

Entro na velha mercearia e me deparo com um senhor já idoso que, embora tenha os cabelos brancos e a pele curtida pelos anos, carrega uma pesada caixa de batatas. Com a camisa aberta até o meio, mostra o crucifixo no pescoço, homem religioso que é. A pele está suada pelo esforço, mas ele me recebe alegre, sorrindo, como sempre.

Nossa entrevista acontece ali mesmo, no balcão da mercearia, entre os pães, os doces, a peça de mortadela e os fregueses, que entram e saem a toda hora. Atrás do balcão, um homem com olhos simpáticos, pele morena e 66 anos de idade. Entre outras ocupações, toca há 24 anos a mercearia através da qual sustentou a família - esposa, quatro filhos e dois netos. Lázaro Soares Batista, ou simplesmente Senhor Batista, olha para minha lista de perguntas e fala “temos uma lista grande aí, hein!”. Coloca as mãos sobre o balcão, em sinal de entrega e respira fundo, como se preparando para uma tarefa difícil.

Difícil não é exatamente a palavra para nossa conversa. Já nas primeiras perguntas percebo que o Senhor Batista toca a própria vida como toca a mercearia. Há tanta tranquilidade diante dos pro-ble-mas, que beira à indulgência. Nasceu em Araxá, passou por Ituiutaba e cresceu em Sacramento, onde viveu até os 26 anos de idade antes de se mudar para Uberaba, cidade que adotou como querida e onde nasceram seus filhos: Valéria, Valquíria, Marco Túlio e Marcos, sendo que o último deu-lhe seus dois netos: Murilo e Letícia, que moram em Araxá, mas visitam o avô com frequência. A fam--lia, aliás, é parte importante da vida e cotidiano desse homem. Trabalham com ele na mercearia dois filhos e sua esposa, Dona Irene, que, tímida, não fala muito, mas diz que seu marido “adora dar entrevistas”.

Antes de se mudar para o bairro Universitário, senhor Batista foi proprietário de um bar na rodoviária, no Bairro São Benedito, até que em 1984 transferiu-se com toda família para a casa alugada à rua Rio Grande do Norte onde montou a mercearia Lázaro&Soares. O lugar, há 24 anos vem sendo a “salvação” dos universitários do bairro, vendendo desde alimentos até materiais de reforma, passando por bebidas, guarda-chuvas, inseticidas, panelas, varas de pescar, buchas vegetais e analgésicos. É possível encontrar um pouco de tudo.

Bem, um pouco de quase tudo. Em todos esses anos, o senhor Batista nunca aderiu ao computador ou sequer à calculadora. Faz seus cálculos com caneta e papel de pão, preservando um dos últimos resquícios da cidade e único do bairro, das tradicionais “mercearias de caderneta”.

Na verdade, nem tanto assim. Caderneta mesmo só para uns poucos clientes. “Vendia muito fiado, mas estavam me passando para trás e hoje, só para os fregueses mais antigos”, revela, e quase ao mesmo tempo, um desses fregueses entra e o cumprimenta. Cliente tão antigo que trata o amigo ape-nas como Lázaro e sobre ele diz ser “uma pessoa boa e sempre generosa”. Palavra de Amigo? Não.

A generosidade do seu Batista é confirmada por vários frequentadores do ponto que, no Natal, fazem uma grande festa na porta da mercearia, com churrasco e cerveja à vontade para quem aparecer por lá. A essas pessoas, o Senhor Batista refere-se como “família da rua”, família essa que a cada semestre letivo aumenta um pouquinho. São várias gerações de estudantes que chegam, se formam e vão embora, não sem antes passar pela “vendinha do Seu Batista”. Tem a turma quieta, a turma barulhenta, mas a relação é 100%”, ele me diz quando pergunto se é mais difícil lidar com estudantes.

E entre eles, os universitários, a opinião é u-nânime: a mercearia é ponto cativo de quase todos os dias, embora seja unânime também a reclamação: o senhor Batista não faz fiado nem desconta os centavos.

Coisas de homem precavido? Talvez, mas nem por isso menos querido.

Eu mesma, freqüentadora assídua da mercea-ria há cinco anos, já tive momentos de fúria contra essa singular figura e seu terrível hábito de não descontar os centavos. Tudo bem, a raiva passou e sobrou-me o respeito a esse personagem único, já folclórico e tão obrigatório na vida acadêmica dos estudantes do bairro quanto às disciplinas do currículo.

A “vendinha do Seu Batista” não deixa ninguém na mão, abre todos os dias até as 22h e a única folga da semana é no domingo à tarde, quando toda a família vai junto à missa. Nesse pouco tempo de folga, o Senhor Batista ouve música caipira ou assiste futebol pela TV. Quando pergunto sobre seu time de coração, “qualquer um que tiver jogando é bom”, é o que ele responde. Férias? Não tira nunca e só para de trabalhar na sexta-feira da paixão, quando fecha sua mercearia em respeito ao feriado religioso.

Vou terminando a conversa e pergunto se ele pretende que a mercearia continue através de seus filhos e netos e, antes que ele me responda, seu filho Marco Túlio nos interrompe e diz “dos filhos pode ter certeza que não”.

O Sr. Batista me olha com a expressão inalterada e não fala nada. A resposta já está clara, mas ainda assim ele sorri e a impressão que tenho é de que a pessoa que está à minha frente não desiste. Não se cansa nunca e orgulha-se muito do trabalho de toda uma vida.

Quando faço minha última pergunta, a resposta é tão simples e sincera quanto o homem a quem entrevistei: “Se sou feliz? Graças a Deus”.

Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2009