Esporte precisa de apoio
Atletas da Adefu lutam para se manterem no ranking nacional

Fernanda Carvalho Silveira
3 º período de Jornalismo

Fernanda Gonçalves
Mariane Meire em seu treinamento de bocha

Sobre sua cadeira de rodas a atleta Mariane Meire se esforça durante o treino de bocha. O braço ergue com a dificuldade de quem tenta driblar a tetraplegia. Com a bola em uma das mãos ela alcança uma calha, construída especialmente para que os atletas com este nível de deficiência possa paraticar bocha. A calha funciona como um canal condutor da bola. Com a ajuda da treinadora, ela solta a bolinha vermelha em um exercício aparentemente fácil, mas cheio de técnicas, ângulos e coordenação.

A atleta, que participa de campeonatos regionais, sofre de uma paralisia severa, e é enquadrada somente na bocha adaptada, onde há utilização de ca-lhas. O ginásio da Associação dos Deficientes Físicos de Uberaba (Adefu) é utilizado para treinamento de todos os atletas dos esportes que a associação dis-ponibiliza: bocha, atletismo, tênis de mesa, polibate e basquete. Em Uberaba há também a prática do halterofilismo, que é trabalhado fora da instituição em parceria com academia, e também o golbol que é praticado no Instituto dos Cegos.

O treinamento esportivo ocorre todos os dias com a ajuda dos três treinadores responsáveis na associação: Janaina Pessato, Franscisco de Sales e Loreno Kikuch. De acordo com a treinadora Janaina, o esporte é uma das alavancas que faz com que os portadores de deficiência compreendam que eles têm potencial. “Porque a gente não trabalha o esporte em cima da deficiência, a gente trabalha em cima do potencial que o atleta tem. Então quando você valoriza o potencial, ele vai se valorizar também. Há um ga-nho na estima, há um ganho na auto-imagem, nessa credibilidade que ele passa a ter com ele mesmo,” afirma a treinadora.

De acordo com o diretor da associação, Marcos Paulo Faria, não há nenhum tipo de incentivo ao esporte especial na cidade de Uberaba. A verba que entra na instituição vem de algumas parcerias. A prefeitura de Uberaba era responsável pelo fornecimento do ônibus que levava os atletas à instituição para treinamento, porém, agora os atletas têm que pagar seu próprio transporte. “A gente chega nas empresas e pede pra patrocinar o atleta. Leva o histórico, mostra que ele está bem e eles olham e não se interes-sam. A gente sai até um pouco desanimado de lá. O atleta ainda é um pouco desacreditado. Porque resultado tem, mas eles não investem,” conta desanimado Marcos Paulo.

Segundo a treinadora Janaina Pessato, o único incentivo vem do Ministério do Esporte, que dis-ponibiliza uma Bolsa Atleta para aqueles que conse-guem ficar entre os três primeiros do ranking em sua modalidade, em âmbito nacional ou internacional. “Na categoria nacional, o atleta recebe R$750,00 e na ca-tegoria para-olímpica, R$2500,00 mensais,” explica a treinadora.

O diretor da Adefu, Marcos Paulo afirma ser o primeiro do ranking em sua categoria. Ele pratica atletismo na categoria f52 e é um dos que recebem Bolsa Atleta nacional. Após um acidente em uma represa, Marcos lesionou a medula e foi para a cadeira de rodas. No início ele conta que sofreu muito e sentiu vergonha da sua condição, até que conheceu o trabalho da Adefu. Na associação começou a praticar basquete. “O esporte ajuda na reabilitação e inclusão e também muda a nossa cabeça. Comecei a perder aquela vergonha que eu tinha e cresci na vida. Voltei a estudar, passei a fazer cursos. Depois eu fui trocando de esporte. Fui procurando um em que eu me destacasse. Passei pela natação, pelo tênis de mesa, pelo atletismo. E neste eu me destaquei e continuo até hoje.”, conta.

A classificação dos esportes especiais é feita de acordo com o nível da lesão e da modalidade esportiva. As regras das modalidades esportivas especiais são basicamente as mesmas do esporte convencional. No atletismo, a lesão medular vai de f51 até f58. “Quanto menor o número, mais comprometida é a pessoa”, explica Ersileide Laurinda da Silva, diretora de promoções e eventos da associação.

A diretora teve sua deficiência manifestada a partir dos seus 13 anos, vítima de uma paralisia e distrofia congênita. Ersileide pratica bocha há seis anos e participa sempre das competições. E com o estímulo desse esporte, a diretora agora faz também outros cursos. “Estou no 2º período de direito noturno, na Uniube e estudo inglês e espanhol pela manhã. É muita coisa, mas eu gosto bastante!”, conta ela satisfeita.

Campeonatos

Os esportes especiais são divididos por regiões, e seus campeonatos ocorrem cada ano em uma cidade que a compõe. O de bocha é na região centro-oeste, que compreende Uberlândia, Uberaba e Campo Grande. A região do atletismo é outra. A maioria delas ocorre em Brasília ou São Paulo.

Os treinamentos na Adefu ocorrem, geralmente, em conjunto, no mesmo espaço. Apesar de serem muitos os atletas, não há competições dentro da ins-tituição, pois cada um tem um nível de lesão, e na maioria dos esportes resulta somente um atleta para cada nível.

De acordo com Marcos Paulo, as pessoas dizem não ter preconceito, mas ele percebe que ainda há muito. “Só o fato de não ter incentivo já demonstra o preconceito.”, exemplifica ele. Para a treinadora Janaina Pessato, as pessoas enxergam o esporte especial como uma superação e passam a admirar, por ser uma coisa distante do dia-a-dia delas. “Eu acredito que o esporte especial ainda é visto como especial, diferente. Acho que não existe um preconceito e sim uma perplexidade ao ver.”, afirma a treinadora. Ela acredita que, com a divulgação que ocorreu na última para-olimpíada, melhorou bastante, e que a tendência é sempre melhorar.

Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2009