Moradores de rua recebem atenção especial nos albergues
Projetos visam melhorar assistência aos moradores de rua

Leslye Ferreira de Paula Silveira
3 º período de Jornalismo

Leslye Ferreira de Paula
Albergados dizem não ir para o albergue por medo de agressão

Projeto Ronda Social promete tratamento mais humanizado aos albergados de Uberaba. O trabalho de abordagem e recolhimento das pessoas que necessitam ser albergadas, antes feito pela Guarda Municipal, agora vem sendo executado por uma equipe composta de psicólogos, assistentes sociais e educadores de plantão: a Equipe Ronda.

Essa equipe desenvolveu novos projetos, pois segundo a coordenadora Eliana Rezende Venâncio, 54 anos, nas ruas, sem casa, encontra-se dois tipos de públicos. São eles os moradores de rua e os itinerantes ou andarilhos, aos quais todos chamam de mendigos. Para João Eurípides Sabino, 59 anos, autor do livro “O Andarilho”, o homem de rua é aquele que não sai da cidade e se limita apenas a estar na rua. “Já aquele que tem na rua seu lar e anda, anda, anda, sem parar, é o andarilho,” completa. A partir desse entendimento tornou necessária a criação de novas estratégias e de duas formas de abordagens.

“O município não se responsabiliza pela promoção humana dos itinerantes, mas dá a eles comida, instalação, um kit higiene e passagem para destinos de até 100 quilômetros. Se for preciso o andarilho recebe tratamento médico. Já o morador de rua, aquele que normalmente tem família na cidade, fica albergado e em tratamento, para se libertar de seus vícios, até que possa retornar ao convívio familiar; isso se ele aceitar ser tratado,” relata Eliana.

Uberaba tem apenas um albergue municipal, subsidiado pela SEDS (Secretaria de Desenvolvimento Social) e pela Prefeitura. Mesmo assim, nem todos os moradores de rua querem ir para o albergue. Maria tem 31 anos, mora nas ruas e rejeita ideia de ir para o albergue. Ressabiadamente diz ter medo de apanhar e de ter que ficar presa. “Não quero ter que voltar pra casa, tenho muitos problemas lá,” confidencia.

Para escrever o livro “Andarilho”, o enge-nheiro João Eurípedes Sabino acompanhou durante anos a trajetória de muitos andarilhos e pessoas que moram nas ruas de Uberaba. A pesquisa lhe permitiu chegar à conclusão de que os conflitos vividos por estas pessoas são as principais causas da mudança de endereço, em que a pessoa deixa de ter uma residência fixa para perambular pelas ruas ou de cidade em cidade. Ele ressalta que esse conflito é algo de alta relevância, que marcou profundamente a pessoa, fazendo com que ela deixe tudo o que integra seu meio de convivência e não tenha vontade de voltar mais.

Outros, no entanto, já nascem dentro de um conflito social e não encontram opção senão vi-ver na rua. Assim é a vida de Adriano Carva-lho. Desde que nasceu, há 32 anos, ele mora nas ruas de Uberaba. Sem família, ele vê na possiblidade de ir para o albergue uma saída que possa livrá-lo desta vida. “Queria sair da rua, podia ser para ir pro albergue, lá talvez minha vida mudasse,” acredita.

Retorno as ruas

O Albergue Municipal de Uberaba acolhe em média 18 pessoas por dia, mas o espaço pode acomodar até 40 pessoas. De acordo com Eliana Resende, já houve casos de serem atendidas mais de 40 pessoas. Principalmente em momentos festivos como a festa de Nossa Senhora Abadia e a Expozebu (Exposição de Gado de Uberaba) quando há um maior fluxo de pessoas itinerantes que precisam ser albergados.

João Sabino diz que a passagem pelo albergue é uma simples passagem, pois a liberdade que os homens de rua e os andarilhos experimentam jamais sai de dentro deles. Eliana acredita que a cada 100 pessoas atendidas, 10 retornam ao convívio familiar, mas relata que não há nenhuma garantia de que eles permanecerão em casa.

Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2009