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Papai
Noel o ano inteiro no Abadia
Atos
de caridade marcam a vida do comerciante da Prudente de Morais
Mônica Salmazo
4º período
de Jornalismo
Olhos semicerrados, barba comprida,
cabelos longos, mãos enrugadas. Assim é a figura do
comerciante Lourenço Gonçalves de Melo. Longe do frio e
da fábrica de brinquedos no Pólo Norte, a loja do Papai
Noel Lourenço fica na Prudente de Moraes, coração
do bairro Abadia. Em meio a materiais de construção,
brinquedos, ferramentas, apetrechos e dos mais variados objetos, ele
convidou-me a entrar em seu humilde espaço de trabalho. Sentou
em volta de uma extensa mesa que, como descobri mais tarde, é
o local onde os pobres e carentes fazem as refeições
doadas por ele.
Ele faz seu papel na sociedade
oferecendo ajuda aos necessitados, com remédios, alimentos,
brinquedos e apoio moral, sem nunca recusar ajuda aos que o procuram.
Caminhão do destino
O Papai Noel uberabense nasceu em
Campos Altos, Minas Gerais, em 11 de agosto de 1951. Lourenço
tecia seus próprios sonhos e fantasias distante das telas de
cinema, em que eram exibidas na época lendas como as de
Cinderela, Peter Pan e Alice no País das Maravilhas. Mas isso
não impedia o garoto de sonhar com a vida na “cidade
grande”. E foi de tanto sonhar que ele resolveu pegar seus poucos
pertences e vir para Uberaba.
Foi um caminhão de batatas
que o trouxe para a cidade, em 1964, e, aqui chegando, virou morador
de rua. Por vários anos, a praça Rui Barbosa foi seu
único endereço. Passava as noites debaixo da antiga
ponte da praça e pedia comida de porta em porta. Trabalhava
engraxando sapatos e lavando carros. Após seis anos nas ruas,
ele conheceu a professora Célia Meire Rosa, que o convidou
para morar em sua casa.
Nos cinco anos que morou com ela,
Lourenço freqüentou a escola e ingressou na faculdade
Fista (Faculdade São Tomás de Aquino), onde começou
a cursar Ciências, com opção por Matemática.
Vivia no alojamento e trabalhava na própria instituição,
no departamento gráfico, em troca da oportunidade de poder
estudar. Infelizmente, parou seus estudos, pois a faculdade foi
vendida e, sem condições, interrompeu o aprendizado
Decidiu então ajudar as
pessoas necessitadas e mostrar a todos e, principalmente, a si mesmo,
que o bem é para todos e que existem pessoas boas.
A promessa
“Enquanto eu não construir
uma creche, adotar 50 crianças e enquanto existirem pessoas
passando fome eu não vou cortar nem a barba e nem o cabelo.”
Foi dessa forma que em 5 de janeiro de 1995 seus projetos
comunitários tiveram início, dando origem ao Sopão
São Lourenço. Através do seu emprego no Colégio
Abadia, Lourenço montou uma loja de artigos em geral e usou o
dinheiro para alugar um barracão e fazer uma panela de sopa
todos os sábados.
Após alguns anos, ele ganhou
uma roupa de Papai Noel de uma drogaria local e começou a sua
carreira como “bom velhinho”, ao entregar doces às
crianças e conversar com clientes. Esse caminho levou vários
shoppings e lojas da região a convidá-lo para
comerciais, principalmente de Uberaba e Uberlândia. Viu, na
roupa vermelha, a chance de ajudar os necessitados e começou a
recolher brinquedos quebrados e a receber doações de
todos os tipos como remédios, mobílias estragadas e
alimentos.
No dia de Natal virou tradição
receber em sua casa os pobres e dar presentes para as crianças,
sem esquecer-se de presentear adolescentes, adultos e idosos,
oferecendo a todos pão com carne, doces e até mesmo a
famosa sopa.
Verde, amarelo e azul. Vermelho
só na roupa
Com o passar dos anos, Lourenço
se casou, teve seis filhos, divorciou-se, e hoje tem orgulho de dizer
que um dos seis está atualmente cursando Direito. Seu projeto
do Sopão é realizado às quartas e sextas-feiras
e reúne dez voluntários para atender aproximadamente
800 pessoas por semana. Em seus registros, ele ajuda 210 famílias
no que for necessário. Conta que existem doadores fixos, mas
que ainda não são suficientes e precisa tirar dinheiro
do próprio bolso para completar o orçamento necessário
que hoje está por volta de 350 reais semanais.
Lourenço Melo fica chateado
com as pessoas que não procuram fazer o bem e que, quando
pretendem, levam apenas as “sobras”, e faz cara de nervoso
dizendo que os ricos não podem lembrar dos pobres apenas
quando sobra alguma coisa e que isso é falta de respeito com o
ser humano. Ele reclama que a cidade de Uberaba está parada,
que “as pessoas querem ajudar apenas entidades grandes e esquecem
que existem muitas creches e ONGs que não são tão
beneficiadas pela prefeitura”, e ainda denuncia alguns políticos
que só o ajudam em época de campanha.
Quanto ao Natal deste ano, Lourenço
relata que será difícil reunir muitos recursos por
causa da crise mundial, que afeta todas as pessoas, ainda mais as
pobres. Mesmo assim, ele conta com a ajuda das pessoas para que possa
ter um Natal feliz para oferecer aos que necessitam.
Conquista
O “bom velhinho” não
conseguiu ainda sua creche e nem adotar crianças, mas é
hoje líder comunitário do bairro Abadia,
vice-presidente da Associação do Bairro Abadia e
representa 220 lojas da rua Prudente de Moraes. Com orgulho, Lourenço
Melo conta que conseguiu banheiros químicos para o bairro,
policiamento mais intenso e vigia para a tradicional feira de domingo
do Abadia, denunciando feirantes que estão abusando dos
preços, vendendo produtos estragados ou apenas corrigindo as
pessoas que agem de má-fé.
Lourenço consegue manter o
sopão e o natal de centenas de crianças e adultos com
doações e com o dinheiro de demolições
que faz com sua equipe pela cidade. Ele lembra o tempo todo que não
recebe doações em dinheiro, mas aceita todos os demais
tipos de doações sem hesitar.
Em seu local de trabalho, ele
recebe as pessoas duas vezes por semana para comer e pegar algumas
doações, mas, no Natal, diz que fica feliz em ajudar,
que as crianças o fazem feliz. “Eu gosto do que eu faço
porque eu me sinto feliz atendendo as pessoas.” O espaço é
pequeno, com várias mesas de madeira ligadas umas às
outras, com bancos igualmente de madeira velha. Lourenço
afirma que não ajuda só no Natal ou no compromisso
firmado duas vezes por semana com a sopa, mas todas as vezes que
alguém bate à sua porta pedindo ajuda ele não
recusa. Nunca recusou. Nunca irá recusar.
Com um largo sorriso, Lourenço
mostra as fotos antigas explicando que as coisas melhoram, mas que a
ajuda é muito lenta e gostaria que as pessoas fossem mais
solidárias. Fotos do primeiro sopão e do atual estampam
a diferença e é nos velhos papéis de fotografia
que seu sorriso sempre está se mostrando nos Natais, ano após
ano. O DVD que guarda com todo o carinho - presente de uma das
produtoras da cidade que resolveu fazer um vídeo mostrando seu
trabalho - revela o discurso sobre seu trabalho. Ao contar de seu
trabalho, é inevitável para Lourenço conter a
emoção. Ele alega que ama o que faz.
Lourenço Gonçalves de
Melo termina a entrevista pedindo para qualquer pessoa do mundo
inteiro: se alguém puder ajudar sua causa de abrir uma creche
e adotar crianças, então que o faça, pois:
“Dá-se o bem sem olhar a quem. Caridade não tem
religião”.
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