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Escultor vence barreira da
deficiência
Artesão
vítima de paralisia cria sozinho suas obras de arte
Mariana Carneiro |
O artista mostra algumas de suas peças |
Mariana Carneiro
3º Período de
Jornalismo
A escultura acompanha o homem desde
a pré-história e tanto pode estar representada na arte
de modelar o barro e a cera, como na arte de esculpir a madeira e a
pedra. Geralmente, os artesãos são pessoas simples e
levam uma vida normal, como a de Wilson Francisco Machado, que nasceu
com paralisia, em 1954. A deficiência foi a chave de sucesso
para sua profissão, pois a necessidade o impulsionou a usar
mais de sua criatividade.Sua história começou em um
pequeno sítio em Rondônia.
O local, de difícil acesso,
ficava em meio a uma área florestal do Incra, onde morava com
seus pais Maria Machado e Manoel Machado, com os quais aprendeu que o
homem deve ser honesto,digno e trabalhador.Em 1966, seu pai morreu
infectado com o vírus da malária. Após o
falecimento do pai, sua mãe vendeu o pequeno sítio e se
mudaram para Uberaba.
Dona Maria passou a sustentar a
casa e os filhos, vivendo momentos de grande dificuldade financeira,
numa cidade ainda desconhecida. Nessa época, Wilson começou
a exteriorizar sua enorme criatividade. Com as facas de cozinha da
mãe, ele aprendeu a esculpir em madeira e, com o passar do
tempo, foi aprimorando sua técnica. Hoje, esculpe pessoas e
animais como: cobras, peixes, elefantes, dentre outros. Cada detalhe
é talhado cuidadosamente e, aos poucos, dão forma aos
primeiros traços do objeto. “A arte de esculpir em madeira
utiliza poucas espécies de árvores, que são
selecionadas em função da textura, da beleza
proporcionada pelos veios e pela tonalidade da matéria-prima.
As madeiras utilizadas são o cedro, o mogno e o pinho, por
serem fáceis de trabalhar e mais leves. O acabamento da obra é
dado com tintas e vernizes”, explica o escultor.
A escolha da ferramenta a ser usada
no entalhamento depende do material que será utilizado. No
caso da madeira, os primeiros cortes de desbastes são feitos
com instrumentos muito afiados. Depois desta fase, o escultor
continua a obra, talhando e esculpindo. Posteriormente, passa a usar
ferramentas menos cortantes, como a goiva e a lima. O trabalho de
acabamento é feito com uma lima suave. Por fim, o artista
recorre a uma lixa, pedra-pomes ou areia. Além das esculturas,
Wilson Machado também confecciona brincos, colares,
braceletes, cintos e bolsas. Ele utiliza sementes, casca de coco,
penas, miçangas, dentre outros.
Ele conta que a utilização
de materiais alternativos faz com que as peças tenham baixo
custo de produção. Mas, o trabalho para produção
é alto, devido aos pequenos detalhes que são o
diferencial de seus artesanatos. Aos 20 anos, o escultor-artesão
casou-se pela primeira vez, alugou um barraco e morou junto com sua
esposa por nove anos. Wilson relembra: “Minha mulher era linda, 7
anos mais nova e fomos muito felizes enquanto durou. Reconheço
que meu problema exige muita dedicação, mas no início
do relacionamento deixei bem claro que o respeito vinha acima de
tudo”. Mas, infelizmente, não foi assim. Sem palavras e com
os olhos apertados ele prossegue, “Ela me traiu e presenciei toda a
cena”.
Seu segundo casamento, durou 17
anos. “Infelizmente, minha mulher morreu. Mas ela foi a grande
paixão da minha vida”, conta. Hoje, Wilson mora com a
enteada e seus netos.
Andréia Cristina, vizinha, o
admira muito. ”Ele é honesto e trabalhador. Sua luta para
sobreviver é diária; noto em seu trabalho a dificuldade
enfrentada na criação e na montagem de cada objeto. Ele
tem um jeito próprio para isso e acha fácil todo o
processo”.Piedade Cepreci, 66, é amiga de Wilson há
muito tempo e diz que ele está sempre feliz, sorridente e de
bem com a vida. Ele é um exemplo de pessoa.De fato ele se
considera um homem feliz. “Tenho muitos amigos, todos gostam de
mim. Eu amo minha vida, problemas todo mundo tem. Faço as
coisas com garra e determinação. A vida tem que ser
enfrentada com a cabeça erguida. Muita gente não tem um
terço da coragem que eu tenho. Tudo que faço é
por mim mesmo”.
Wilson é aposentado e recebe
um salário mínimo e, para realizar um de seus sonhos,
fez um empréstimo, porém a quantia não foi
suficiente.
As
paredes da nova casa começaram a ser erguidas, mas o alto
preço dos materiais impediu a continuidade da obra. No
entanto, ele está confiante que em breve realizará seu
sonho. Mas, para isso, precisa do auxílio das pessoas e não
nega que quando as coisas estão muito difíceis ele pede
ajuda e não se envergonha disso. Às vezes, a
necessidade o impulsiona a criar utensílios de uso pessoal
como suas cadeiras de rodas, confeccionadas com sucatas, peças
de bicicletas, carrinho de mão, de geladeira. Sua última
idéia é adaptar um mecanismo de um portão
elétrico em sua cama, com objetivo de levá-lo ao
banheiro. Seu segundo sonho é uma companheira, para
desfrutarem de um futuro juntos.
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