Carambola!


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Paulo Borges
4º período de Jornalismo
Caramba!
Carambola!

Na hora eu não conseguiria descrever isso para você. Mas, ontem, eu vi uma velha senhora, com o rosto marcado pelo sofrimento, pés rachados de tanto andar pelo mundo, cabelos brancos e sebosos, olhar triste (como deve ser triste toda sua existência e de milhões de idosos maltratados em nosso país), chupando uma carambola.

Sim. Carambola. Esta fruta que costuma nascer na beira de rios e que só de pensar no gosto azedo que ela tem, minha face começa a repuxar, desde o início do maxilar até minha língua, quando esta se enche de saliva.

Carambola. Este era o almoço daquela velha senhora. Nenhum dente na boca. Apenas a fome e vontade de devorar aquele fruto, que poderia muito bem ser sua única e última refeição daquele dia.

A cada chupada, um fiapo ficava entre seus lábios e sua mão. A cada chupada que ela dava naquela fruta eu sentia mais constrangimento por estar ali. Vergonha de não ter tido coragem de oferecer a ela uma comida. Vergonha de ver, do outro lado da rua, uma lanchonete cheia de pessoas se deliciando com seus lanches atolados de maionese. Vergonha de ver que em um país tão rico, o almoço de muitos pode ser uma carambola. Fruta azeda que azedou meu dia e saciou ou disfarçou a fome daquela mulher.

Se tem caroço eu não me lembro, mas se tem mesmo caroço essa tal de carambola, aquela velha engoliu. Engoliu com caroço e tudo.

Olhei para ela e por um momento cheguei a pensar que aquilo poderia ser gostoso. Uma carambola em pleno meio-dia, (aliás um dia quente), acho que não seria o sonho de consumo de muita gente. Mas era o único item de consumo daquela mulher. Agachada e se apoiando em seus joelhos ela não sentava... talvez se o fizesse não mais levantaria. E quem a levantaria?

Mas, cedo, antes do almoço, eu havia comido uma maçã para abrir o apetite. Agora, na hora do almoço, alguém comia, com a melhor boca do mundo e sem fazer careta, uma frutinha azeda que serviu para azedar meu dia.

Caramba, o almoço daquela velha maltratada e sem esperanças no olhar foi uma carambola.

Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2008