A vida por trás de 63 anos de clausura
A história de uma mulher que decidiu ser monja, e que contraria a agitação do nosso tempo



Rosely Lara
Irmã Antônia vive na clausura há mais de 60 anos, e aos 87 anos, a monja é um exemplo de alegria e lucidez. Prova disso é o lançamento do seu mais novo livro, que sai no final de setembro.
Rosely Lara
4º período de Jornalismo

Uma só conversa com Irmã Maria Antônia muda os conceitos de realização pessoal. Sua imagem transpira lucidez e serenidade, passa mensagens de firmeza e superação. Alegria e segurança de uma mulher que aos 87 anos não poupa gestos nobres às pessoas que a procuram no Mosteiro da Imaculada Conceição, em Uberaba.

Na clausura há seis décadas, ao contrário do que pensamos aqui fora, sua vida é cheia de realizações. Escrever sempre foi um hábito. Mas, com pouca visão, como conseguir essa proeza? Não hesitou. Pediu uma máquina de escrever. Foi doada por uma amiga de Recife. A pequena máquina, desses modelos bem antigos, acabou rendendo muito. Nela, Irmã Maria Antonia fez seus registros durante 16 anos no claustro.

Sobre a história da velha máquina, Irmã Maria Antônia registrou: Estando sofrendo sérios problemas visuais e impossibilitada de ler e escrever por prescrição médica, escrevi um bilhetinho a Santo Antônio, no qual pedia-lhe uma máquina de escrever, e o coloquei debaixo de uma imagem. Poucos dias depois, em primeiro de janeiro de 1959, recebi esta máquina doada por Dª. Laura Pereira Cruz. Nela, datilografei, de 1960 a 1976, todo trabalho de divulgação do culto de pró-canonização de nossa Fundadora Santa Beatriz. ”

Lá mesmo no Mosteiro, se colocou também a escrever poesias, publicadas em cinco livros e quatro CDs. Com a venda dos livros, atendeu a muitos pobres que a ela recorreram. Não se sabe, nem se saberá o número exato.

Firme em seus propósitos, sua saúde fragilizada não a impede de manter a obra de Santa Beatriz. Cesta básica para 130 famílias todo mês. Providência tomada sem sair dos limites do mosteiro. Discreta, como a vida que assumiu, insiste no anonimato. Impossível, porém, não falar dela, depois de ter olhado sua imagem e de ter penetrado nos segredos de sua mansidão decidida.

Por trás dos muros
O dia dessa mulher de estatura pequena é cheio de atividades, horários rigorosos. Mesmo com quase 90 anos começa ao amanhecer e não pára mais.

Dia desses, foi ela supervisionar a obra de uma capela, mesmo sem enxergar com os olhos. Foi durante uma das rápidas saídas do monastério, de onde só é possível sair com autorização da madre e, algumas vezes, só com autorização de Roma.

Com o abrandamento das regras na clausura, é fácil encontrá-la na roda, um equipamento antigo, feito de madeira, que separa as monjas do mundo externo. Já é possível também vê-la no capitólio, lugarzinho pequeno, atrás de uma grade. Quando está bem de saúde, pega um tipo de elevador que poucas pessoas viram e vem para a grade. Sem a cortina escura, é possível abraçá-la, contemplar seu amplo sorriso e ouvir seus consolos.

Não pense ser ela uma alienada. Que nada. Sabe muito do que ocorre no mundo. Corresponde com pessoas do Brasil e do exterior. Quis dia desses saber “ o que acontecerá se a cana tomar conta das terras antes cultivadas para produzir comida.” O que comerá o mundo? - perguntou preocupada.

Uberaba, mil endereços de cabeça
Maria Antônia de Alencar considera Uberaba sua terra, mas veio de longe. Veio de onde ser mais que gentil é próprio do povo. Seus pais, de Exu, Pernambuco, viram Maria de Lourdes de Alencar, (nome de Batismo) sair de casa aos 24 anos.

Tomou uma decisão que só cabe às mulheres de coragem incomum. Não foi por fuga, nem por falta de opção. Decidiu ser monja.

Saiu do mundo, mas não deixou de viver. Ingressou na ordem, em 1.945. Pouco tempo depois de se tornar monja, em Sorocaba, São Paulo, sua vida tomaria outro rumo. As monjas, além de assumirem uma vida de clausura, assumem também um lugar onde ficarão para sempre.

Veio então em definitivo para Uberaba. Junto, vieram mais seis religiosas. Sete mulheres que

fundaram o mais novo Mosteiro da Ordem da Imaculada. O mosteiro da Afonso Rato, como ficou conhecido na época.

É hoje a última fundadora viva. As demais já se foram, inclusive Ir. Virgínea, cujos restos mortais estão intactos, no Santuário da Medalha Milagrosa.

Quem sai com ela não faz esforço para encontrar endereços. Parece até que Irmã Antônia tem um GPs na cabeça. Conhece as ruas, sem enxergar. Manda cartas a centenas de pessoas e dita de cabeça os endereços.

Nos deu escritos inéditos que estão em seu novo livro, cujo lançamento está marcado para 21 de setembro. É uma autobiografia. Vai contar detalhes de um sim dito a cada dia, sem ver muito além.

Recortes de escritos não-publicados

Sem conhecer os desígnios e caminhos da Providência Divina, nos anos de 1959 e de 1960 preparava-me para uma grande missão. Tendo sido operada de descolamento da retina do olho direito, no dia 16 de outubro de 1959, na Santa Casa de São Paulo, impossibilitada de fazer esforços físicos e proibida de ler e escrever. Depois de ganhar a máquina, que veio de avião, ganhei também o método e sozinha aprendi a escrever. Escrevi a história de Santa Beatriz, ou melhor, “ Uma Alma Celestial”, “ Os Sete Gozos celestiais da Bem-Aventurada Madre Beatriz e a Consagração das Concepcionistas à sua Santa Fundadora. Por motivos particulares, não foram publicados, mas esperei a hora de Deus porque quando Deus quer, Deus age.”

Uma gráfica amiga editou gratuitamente, os primeiros livrinhos, do trabalho que eu fizera anos antes. Umas bondosas amigas andavam pela cidade, passando aqueles livrinhos, que embora cheios de erro, foram bem acolhidos, pelo encanto da vida da santa. Durante quatorze anos consecutivos devotamente, noite e dia,quase cega, gastei uma máquina de escrever, nesse bendito trabalho, unindo meus esforços e orações a todas as monjas do Brasil e do mundo inteiro, porém, o Senhor me gratificou centuplicadamente, concedendo-me a graça e a imensa alegria de planejar e dirigir a Festa de Canonização de minha Santa Mãe Beatriz, no dia 03 de outubro de 1976. Com todo esse esforço visual e emocional, contra toda prescrição médica, continuo enxergando milagrosamente e a missão não terminou. O trabalho continua todos os dias. “

Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2008