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Antidepressivo
na modernidade
Quando
a correria vira estresse, as pessoas ficam dependentes de remédio
Fotos por Marina Rabelo

Aldair toma antidepressivo cada vez que é frustrado
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Jaime constata o aumento na venda de antidepressivos
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Marina
Rabelo
3º
período de Jornalismo
Com
o avanço da tecnologia, a execução de tarefas
que antes demorava horas e até dias, hoje ocorre em minutos.
Assim, o homem viu que podia fazer muitas coisas ao mesmo tempo, e
que cada dia que passa vem piorando porque entra outra discussão
na roda: “Tempo é dinheiro”, “Time is money”! Quem
nunca se pegou falando: “Não posso perder tempo com isso”,
“deixa eu correr ali”, “tô atrasado”, “tô numa
pressa”, entre várias outras expressões do tipo. Essa
correria do dia-a-dia tornou-se comum nos dias atuais. A professora
e socióloga Natália Morato Fernandes, falando sobre as
principais causas do stresse no mundo moderno, diz: “A lógica
de produção foi transferida para a lógica de
vida”. Ela comenta, ainda, que não se consegue mais fazer
projetos a longo prazo porque tudo está em constante mutação,
e isso gera ansiedade e fobia. “As pessoas precisam ter objetivos,
metas e sonhos. Com essas mudanças constantes, fica difícil
traçar um ideal certo”, completa ela.
Esse
é um dos motivos que fez aumentar consideravelmente a venda de
antidepressivos nas farmácias. Jaime Tomé, 62 anos,
farmacista e professor, trabalha há muitos anos em uma mesma
farmácia no centro de Uberaba e relata que a procura é
enorme, e que a tendência é aumentar. “Eu não
quero resolver o meu problema, eu quero que as pessoas resolvam o meu
problema”, justifica Jaime, sobre a conduta de quem procura tanto
pela droga. O farmacista constatou que após o lançamento
do primeiro antidepressivo, o Prosac, as pessoas começaram a
escolher o caminho mais fácil. Em vez de encararem o
problema, elas tomam remédio achando que tudo ficará
bem, sem pensar nas conseqüências e dependências que
o uso desses medicamentos pode trazer, explica ele. “Agora tá
na moda falar que está estressado. Estresse pra mim é
falta de educação. A pessoa não é
estressada, ela é mal educada, isso sim”, conclui Jaime, com
algumas risadas e falando que seu trabalho é seu melhor
antidepressivo.
A
psiquiatra Andréa de Dávide Ratto complementa, com
propriedade, que as pessoas confundem saber viver com tomar remédio.
“É como se sentir tristeza fosse anormal”. Dra. Andréa
alerta para que as pessoas não abusem de antidepressivos em
situações normais de tristeza e/ou decepção.
“Se as pessoas se livrarem de ter contato com o próprio
sentimento, como vão crescer?”, completa a médica.
“O
uso de medicamentos é um fator de auxílio na luta
contra muitas dificuldades, mas deslocar o foco de que a felicidade
dos seres humanos trata-se de um todo composto de fatores complexos,
para acreditar que ela só dependeria de ajustes químicos,
é empobrecer perigosamente o que nos constitui como pessoas”,
fala Dra. Andréa. Ou seja, além de medicamentos, é
preciso pensar em soluções que reúnem
crescimento humano, individual e social. Normalmente, é
necessário fazer sessões de psicoterapia. Assim, fica
mais acessível o conhecimento pessoal do paciente e a médica
consegue ajudá-lo a enxergar suas próprias
dificuldades.
Existem
transtornos que vão desde depressões leves até
graves, isoladas ou associadas a outros casos de doença. Mas
os casos que mais aparecem no consultório da Dra. Andréa,
segundo ela, são transtornos mistos, nos quais ocorrem
depressão e ansiedade. É aí que a gente volta um
pouquinho, lá na raiz do problema, com as ansiedades que a
vida moderna traz para as pessoas.
Casos
e casos
Depois
da morte do pai, a empresária Patrícia de Lucca, 31
anos, começou a tomar antidepressivo. Sentia-se desmotivada,
agoniada e muito triste. Tomou a droga por dois anos e passou por
alguns acompanhamentos psicológicos nesse mesmo período.
“Sinto que o antidepressivo não me ajudou em nada”, afirma
Patrícia. Diz ainda que “acordou pra vida” quando viu que
sua mãe também corria risco de vida. “Arrumei forças
dentro de mim. Quando me sinto mal agora, ou eu quebro um copo, ou
coloco o som bem alto, ou vou fazer uma faxina em casa. Meu trabalho
também me ajuda muito”, conclui Patrícia.
Já
a história de Aldair Pereira Silva, maquiador e cabeleireiro,
é bem diferente. Procurou a ajuda de um psiquiatra pela
primeira vez em 1994, quando tinha 14 anos. Sentia-se agitado,
ansioso e deprimido. Nunca sabiam o motivo. “Já fiz
tratamentos prolongados. Quando eu melhoro, eu paro de tomar o
remédio. Hoje em dia, quando acontece alguma coisa que me
frustra, eu tomo um remédio e pronto. Quando eu vejo que não
vou dormir, eu tomo remédio também”. Ao ser
questionado sobre uma tentativa de enfrentar os problemas sem o uso
da droga, Aldair complementa: “É muito mais fácil
tomar o remédio”.
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