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Ameaça
a quilombos em Minas
Demora
no reconhecimento leva moradores a migrar dos Quilombos para as
cidades
Roseli Lara
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Resistencia de um século das famílias da comunidade do Atalho interior de Monte Carmelo (MG)
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Roseli
Lara
5º
período de Jornalismo
Minas
Gerais é o estado com maior número de Quilombolas do
Brasil. São 400 comunidades de remanescentes de Quilombos,
distribuídas em mais de 155 municípios, com maior
concentração nas regiões norte e nordeste. Mas a
demora do governo federal em proceder o reconhecimento dos Quilombos
tem desagregado as comunidades com a perda acelerada dos territórios.
Até
junho de 2007, Porto Coris, no Vale do Jequitinhonha, foi a única
comunidade Quilombola de Minas Gerais que conseguiu a titulação
das terras. As 86 famílias só receberam a titulação
depois de terem sido desalojadas pela Usina Irapé, após
120 anos de existência do Quilombo, atestada em documento de
1888.
Segundo
o historiador Jeremias Brasileiro, professor da Universidade Federal
de Uberlândia, a maior parte dessas comunidades sobrevive sem
qualquer acompanhamento. “Embora existam programas específicos
para os Quilombolas, há uma dificuldade imensa no
reconhecimento dessas pessoas, e essa realidade é vivida em
todo o Estado”, enfatiza. O historiador explica que cabe ao governo
federal fazer a certificação dos Quilombos e proceder
a demarcação das terras. Sem essas providências,
Jeremias Brasileiro diz que as comunidades estão sujeitas à
fome e à violência. Observa que, em 2007, foi intensa a
mobilização dos grupos políticos e econômicos
desfavoráveis à regularização dos
territórios.
O
professor afirma que o governo de Minas não colabora para
agilização dos processos.Questiona por que na época
em que foram perseguidos e devastados, os Quilombos eram facilmente
reconhecidos como tal.” Têm comunidades negras em Minas, de
negros livres, que, em 1735 ,estavam à beira de rios, em áreas
de extração de ouro e diamante, que foram devastadas
pelo governo, com decreto para ocupação posterior por
fazendeiros,”desabafa Jeremias. O historiador garante que no Estado
tem comunidades que estão há mais de 200 anos em
Quilombos e não conseguem provar.
“ Também
hoje, o interesse é ocupar as terras dos descendentes com
outras atividades econômicas, o que explica a inoperância
e o descaso”, denuncia.
Sem
água potável
Exemplo
de abandono pode ser comprovado na Comunidade Quilombola do Atalho,
no município mineiro de Monte Carmelo. Vivem na área 10
das 50 famílias que estão na terra há mais de um
século.
Com
62 anos, o aposentado Jair Bueno lembra saudoso do tempo em que,
usando uma carretinha, levava a produção da comunidade
do Atalho para a cidade. Sua maior preocupação é
com a violência e com a falta de apoio à produção.
“Precisamos de uma força. A saúde não vem
aqui, não tem escola. Não tem segurança. Não
sabemos com quem falar. Falta trator para arrumar a terra. Antes era
muita gente aqui.”, recorda.
De
acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de
Monte Carmelo, a área tem grande potencial produtivo. Porém,
segundo Divino Ramos, a tendência da comunidade é
acabar. Ele explica que as famílias vivem um processo de
empobrecimento. “Eles só têm energia elétrica,
no mais falta até água potável”, reclama.
A
comunidade que já produziu pimenta, arroz, milho, banana,
feijão e mandioca paralisou a produção e os
moradores estão migrando para as cidades próximas.
Outro problema apontado pelo sindicalista diz respeito aos freqüentes
atos de violência vividos pelos descendentes. “Eles têm
medo porque são comuns os assaltos por aqui, onde até
mesmo o patriarca da comunidade foi assassinado brutalmente”,
lamenta.
Resistência
As
barreiras políticas e sociais para o acesso às
políticas da igualdade racial motivaram as comunidades
Quilombolas a se organizarem em busca de seus direitos. Foi criada a
Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de
Minas Gerais, que conseguiu, junto ao Incra, a abertura de vários
processos para a titulação de terras de Quilombo. Em
maio de 2007, estavam em tramitação 67 processos. No
entanto, 61 deles apenas haviam recebido um número de
protocolo, com nenhuma medida efetiva no sentido de encaminhar a
regularização dos territórios.
Em
maio deste ano, foi lançada pelo governo federal a Agenda
Social Quilombola, um conjunto de programas para atender 1.739
comunidades, localizadas em 22 estados e 330 municípios até
o ano de 2010. Os recursos, no entanto, são insuficientes
para atender o número crescente de afrodescendentes que
reivindicam titulação das terras de Quilombo. Esses
recursos vão atender cerca de 50% de um total de 1,7 milhão
de Quilombolas . As áreas específicas de investimento
são o acesso à terra, infra-estrutura e qualidade de
vida, inclusão produtiva e desenvolvimento local e cidadania.
A
organização dos Quilombolas em Minas Gerais, no
entanto, foi surpreendida com a decisão do governo em
modificar as normas de regularização fundiária
dos Quilombos. Segundo o historiador Jeremias Salvador, a coordenação
nacional dos Quilombolas enviou documento ao presidente da República
alertando sobre o início de uma guerra no campo. “ O
governo, que já era inoperante, agora cedeu à pressão
dos ruralistas e multinacionais, modificando a instrução
normativa do Instituto Nacional de Reforma Agrária(INCRA) a
respeito da regularização das terras. O resultado foi
o princípio de uma guerra de cor no país ”, desabafa.
O
documento encaminhado pela Coordenação Nacional dos
Quilombolas-Conaq, refere-se à alteração feita
na Instrução Normativa 20/2005 do Incra, que torna mais
rigoroso o procedimento administrativo para titulação
das terras ocupadas pelas comunidades de Quilombos no Brasil. A
titulação é direito garantido pela Constituição
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