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Lições de Ana Laura
Aos 11 anos,
estudante do ICBC mostra domínio na leitura do Braile
Maria Gabriela Ferreira |
Ana lê em braile melhor do que as pessoas lêem normalmente |
Maria
Gabriela Ferreira
3º Período
de Jornalismo
Manhã de quinta-feira no Instituto de Cegos
do Brasil Central (ICBC). O porteiro deficiente visual me indica o
caminho até Cida, a diretora da instituição. A
diretora, por sua vez, me encaminha para Joana, a mãe de uma
criança com deficiência visual.
Joana D’arc de Paula
Alves Souza, me esperava na sala de aula onde algumas crianças
estudavam braile. Fomos ao encontro de sua filha que estava tendo
aula em outra sala. A mãe chama Ana Laura e explica a ela que
eu estava lá. A menina se levanta de sua carteira e, muito
receptiva, já chega à porta estendendo-me a mão.
Ana Laura Alves de
Souza, 11 anos, nasceu com Amaurose Congênita de Leber, que
pode ser identificada nos primeiros meses de vida: é
uma cegueira total, porém com percepção
luminosa. A confirmação veio aos quatro meses de
vida de Ana Laura, mas a mãe confessa ter percebido a
deficiência desde que a filha nasceu. “Mãe sabe”,
afirma Joana. “Na maternidade já percebi (...), comentei com
minha mãe a respeito e ela achou que eu estava enganada”,
completa.
A mãe de Ana
Laura conta que no começo foi “uma bomba”, tanto para ela
como para a família, porém ela confessa ter tido sorte.
Joana diz ter conhecido mulheres que tiveram que se separar de seus
maridos, já que eles não aceitavam a deficiência
do próprio filho.
Joana, que morava em
Planura, percorreu várias cidades do Brasil em busca de
acompanhamento especializado para a filha. Chegou a ir para o
Instituto Lara Mara, na cidade de São Paulo, onde ela diz ter
conseguido apoio, porém a rotina ficou estressante, já
que ela viajava com a filha para lá e voltava no mesmo dia. O
alívio chegou quando uma amiga indicou o ICBC de Uberaba, no
ano de 1999. Ana Laura começou a freqüentar o instituto
e, em 2006, Joana, a filha e o marido mudaram-se para Uberaba.
A educação
de uma criança deficiente visual não é fácil,
porém Joana afirma que educar qualquer criança tem suas
dificuldades. A mãe confessa que tratar a filha normalmente
foi o segredo para torná-la hoje uma criança madura.
Ana Laura não
costuma perguntar muitas coisas, “Ela é insegura”,
confessa Joana, porém a mãe conta um episódio em
que a menina, quando menor, estudava com um garotinho deficiente
físico, de nome Gabriel. Ana Laura foi perguntar para a mãe
por que ele não podia andar. Joana explicou: “Papai do céu
quis assim”. A filha, sem questionar, apenas afirmou: “É
pior não andar do que não poder ver”.
“Muitas
pessoas reclamam da vida, do corpo que têm (...)” afirma
Joana, “A gente tem que aprender a valorizar o que tem. Eu vejo
essas crianças e elas são esforçadas, vejo a Ana
Laura, que não reclama de nada. Às vezes eu tenho que
adivinhar se ela está bem ou não”, completa a mãe,
emocionada.
Como Joana, muitas
outras mães enfrentam a mesma situação. Em
Uberaba, as famílias dessas crianças podem contar com a
ajuda do ICBC. Segundo a diretora de Saúde do Instituto,
Verena Conti, formada em assistência social pela Universidade
Estadual de Londrina (UEL), os pais das crianças com
deficiência visual costumam procurá-los desde muito
cedo. “Aqui no instituto nós temos desde bebês de 4
meses até idosos de 75 anos”, afirma Verena. As crianças
com deficiência visual podem interagir normalmente com outras;
elas vão para escolas comuns e no horário livre
assistem às aulas de reforço que o instituto
oferece.
Uma das psicólogas
do ICBC, Juliana Justina Mundim, formada pela Universidade
de Uberaba, faz o acompanhamento de duas crianças no
instituto. Ela afirma que o tratamento delas é diferente do
tratamento de uma criança sem deficiência nenhuma, mas
que estar no instituto foi uma lição de vida para ela.
Juliana, que é voluntária no instituto há
aproximadamente um mês, diz que o acompanhamento da
criança só acontece depois de conversar com os pais.
Alguns deles também optam por fazer acompanhamento psicológico
para poder lidar melhor com a situação.
De acordo com o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
atualmente, no Brasil, os deficientes visuais somam 16,5 milhões
de pessoas, sendo que 160 000 são totalmente cegos e a outra
parte possui apenas baixa visão. Ainda pelos dados do IBGE, a
região Sudeste tem a maior concentração de
deficientes visuais no país, com quase 100 mil pessoas.
Dentre essas 16,5
milhões de pessoas, está Ana Laura, que, apesar de
tudo, consegue ser uma criança ativa e feliz. Joana diz que
ela consegue fazer tudo sozinha, “Ensinei ela a fazer as coisas
porque ela não vai ter mãe pra sempre”, completa
Joana. A menina diz ter muitos amigos e como qualquer outra criança
gosta de brincar e de ver televisão. Ela confessa não
gostar de matemática e diz que leitura também não
é sua atividade favorita, mas, apesar disso, a mãe a
incentiva a ler sempre.
Joana, que também
se interessou em aprender braile, diz que às vezes não
consegue definir uma palavra e corre para perguntar para a filha, que
apesar de não se interessar muito por ler, é uma
excelente leitora.
O programa favorito de
Ana Laura é ir para Planura visitar a família. “Ela
gosta de sair de casa”, afirma a mãe. Quando questiono a Ana
Laura sobre o que mais a deixa feliz, ela diz “Ir para Planura e
saber que meu time ganhou.” Ana Laura, que torce pelo Corinthians,
vai ter que fazer sua felicidade só em ir para a cidade natal,
já que seu time não anda muito bem no campeonato
brasileiro. |