Carta ao leitor (ch)

Fobia (ti)
Maria Gabriela Brito

3º Período de jornalismo


O medo faz parte da natureza e do cotidiano de qualquer ser vivo dotado de um cérebro. Ele pode ocorrer desde o susto com uma simples barata até medos doentios que mexem com o psicológico humano. Por esses motivos, como tema dessa edição do jornal escolhemos alguns medos que mais assustam a humanidade. São eles: a morte, a solidão, a loucura e a velhice.

Ao longo dessa edição, o leitor vai perceber que sentir medo é normal, entretanto, existe um grau acima que passa a se tornar uma fobia, uma doença, um medo não-saudável e infundado.

Quem nunca se pegou pensando no futuro e assustado com o que vem pela frente? Como essa edição foi baseada em um tema um tanto quanto sombrio, tentamos tratar o assunto da forma mais agradável e descontraída possível, com crônicas engraçadas e uma página apenas para falar de assuntos fora do tema escolhido.

Tudo foi feito de maneira que o leitor possa conhecer mais a fundo os medos que mais assustam as pessoas pelo mundo afora e optar por qual o assombra mais. Entretanto, o jornal REVELAÇÃO adverte: Medo - só se for saudável.


Crônica (ch)

O Medo e a Fé (ti)

Cristiano Senhorini

3º Período de jornalismo


O homem, com o passar dos tempos, manifestou seu medo das mais diferentes formas. Seja através da segregação, por medo da diferença, seja através da paranóia, por medo do inimigo invisível que antes eram os vermelhos e hoje são os terroristas, entre outras formas de manifestação. Porém, dentre todas essas, uma chama atenção pela sua longevidade e assimilação. Esta manifestação se chama religião. Afinal, as religiões saneam os principais e mais antigos medos do homem. O medo da morte e o medo do incontrolável.

Com relação ao primeiro temor é fato que independente da origem, época ou região, não há religião que não apregoe a existência de uma segunda vida após nossa existência terrena. Dessa forma, por que deveríamos temer a morte se outra vida se apresenta para nós? Na História existem vários momentos em que podemos verificar a crença dessa segunda vida como um pilar social. No tempo das sociedades escravocratas e, posteriormente, na Era Feudal, a classe trabalhadora sempre se dedicou com afinco à prática religiosa como forma de garantir uma outra vida livre de sofrimentos e, assim, suportar os sofrimentos a que se submetiam nesta vida.

O segundo temor, o incontrolável, encontra manifestações tão ou mais antigas do que o da morte. A natureza até hoje surpreende o homem com seus arroubos de fúria como tornados e terremotos. E como uma espécie poderosa e obcecada por controle como a humana poderia assumir tal insignificância diante do mundo sem responsabilizar alguém? Desde as primeiras civilizações existem deuses responsáveis pelas chuvas, pela colheita, pelos vulcões e pelo mais que o homem não controle. Se acaso se perde uma plantação foi porque não honramos o deus certo a contento. Mesmo questões biológicas como a natalidade eram atribuídas a uma divindade. E o que é a morte senão a impossibilidade de controlar a vida? Embora hoje os avanços tecnológicos nos permitam distanciarmos um pouco dessa concepção, ainda é comum atribuirmos qualquer catástrofe ocorrida aos desígnios de Deus. Deus este que veio para simplificar as coisas, já que podemos transferir a Ele a responsabilidade que antes era de muitos.

Sendo assim, ainda que seja inconteste a importância das religiões para a humanidade, não podemos deixar de vê-las, também, com uma representação de seus mais profundos e antigos medos.


Moema Rabelo

3º Período de jornalismo


Suar frio, tremer, arrepiar da cabeça aos pés e até mesmo perder os sentidos são sintomas claros de pavor e medo. Muitas pessoas têm medo de fantasmas, altura, de bichos horripilantes e nojentos como cobras e baratas, mas existem também pessoas que simplesmente têm medo de ficar velhas, loucas, sozinhas e até de morrer. Pode-se dizer que esses são conhecidos como os medos da humanidade.

Mulheres com os seus 50 e poucos anos que fazem plásticas, esticam seus rostos e fazem de tudo para ficar sempre belas. Essas, além de vaidosas, com certeza temem a velhice, pois fazem isso para se manter jovens. De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), são realizadas em média 300 mil cirurgias plásticas por ano no Brasil. Os custos são de R$ 2 mil a R$ 8 mil. Já a loucura é um transtorno mental que pode acontecer com qualquer pessoa, principalmente com aquelas que andam sempre ansiosas e com milhões de preocupações na cabeça. A solidão é um sentimento que temos quando estamos sozinhos ou simplesmente quando sentimos a falta de algo ou alguém, mas diversas pessoas têm medo da solidão, não de sentir falta de algo, mas, sim, de ficarem totalmente sozinhas para o resto de suas vidas. Todos acreditam que a morte é o maior medo da humanidade por ela ser inevitável, afinal, todos um dia irão morrer.

Todos esses medos, com certeza, já passaram ou passarão pela cabeça de cada um. É impossível não pensar que um dia todos irão ficar velhos e morrer, ou até mesmo ficar loucos ou sozinhos. E o seu maior medo, qual seria?


TV (ch)

To do or not to do? (ti)

A enorme polêmica em torno do seriado mais “escrachado”da TV americana (lf)


Felipe de Negri

3º período de jornalismo


Quem nunca viu, ou pelo menos não conhece o famoso “desenho” South Park e, logicamente, por conseqüência, as controvérsias que o programa causa? Não é novidade em nossa grade televisiva programas de teor cultural rasteiro ou mesmo prejudicial a certas mentes frágeis, entendam como quiserem! Porém, o desenho, criado por Matt Stone e Trey Parker, não vai ao ar apenas para preencher horários ou tapar buracos, ele também pode nos informar, através de sátiras “escrachadas”, sobre a hipocrisia que a sociedade americana, e por que não dizer, mundial, vive.

Mas ainda não chegamos ao ponto principal. A grande chave das controvérsias que rondam o programa é o fato de que as situações contidas nos episódios não têm apenas o intuito de desmascarar os hipócritas, mas fazem justamente o oposto, com requintes de crueldade, do que é pregado por estes. E sem dó. Um bom exemplo pode ser o fato de que a personagem Kenny morre em todos os episódios (ok, não em todos, mas na maioria massacrante), combinado com o fato de ser pobre. Quem sabe isso não é uma metáfora? “Por mais pobres que morram, nunca deixarão de existir.” Inclusive, há casos de pessoas que trabalhavam na produção do desenho que pediram demissão por não concordarem com certas provocações

Agora, a grande questão: assistir ou não assistir (pode ser lido “apoiar ou não apoiar?”)? Números, para os dois lados, não faltam! Alguns dizem que sim, pois é engraçado, diz coisas que outros não ousam. Alguns, que temos que saber discernir o que é um programa de entretenimento e realidade, alguns outros, que não há nada de mau em um pouco de crueldade e sátiras. O outro lado diz não, pois é um lixo televisivo, não traz nada de construtivo, denigre a imagem de pessoas e empresas, ensina palavrões a crianças e por aí vai...

Um dos inimigos mortais da série (tambores!) é a Igreja. Em inúmeros episódios, a igreja aparece como corrupta, maliciosa, manipuladora, entidade que faz justamente o contrário do que prega. Imaginem um padre que mete medo em crianças para que elas sempre freqüentem a igreja e quando elas vão se confessar encontram o padre metendo outra coisa dentro do confessionário? Porém, convenhamos que a realidade não se distancia muito disso, verdade? E isso é um prato cheio pra qualquer fã da série.

Uma coisa é certa: nunca uma série de TV como essa agradará a gregos e troianos. Quem achar que a série não faz mal e nos faz pensar em uma sociedade hipócrita, tem toda a liberdade de sentar em frente à TV e se deliciar. Quem a achar um lixo televisivo, reclame, mande cartas, mude de canal. E citando nosso professor André: “A briga tem que ser boa!”.


Cinema

Indiana Jones e

O Reino da Caveira de Cristal

Cristiano Ximenes Senhorini

3º período de jornalismo


Às vésperas do ano 2000, revistas do mundo todo lançavam listas sobre todos os assuntos e temas a fim de escolher os melhores do século e, quem sabe, do milênio. Várias foram as publicações que realizaram enquetes e votações para definir quem foi o maior herói do século 20 e em quase todas a resposta foi a mesma: Indiana Jones. Mas será que, quase duas décadas após sua última aparição nas telas e protagonizado por um astro sexagenário, o herói conseguirá manter-se querido entre os fãs deste novo século?

A resposta é sim! Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal é um filme de aventura que, embora se baseie nos filmes de antigamente, consegue entregar ao público cenas de ação com todos os efeitos digitais a que este está acostumado.

A história se inicia em 1957, mostrando que o tempo passou igualmente tanto de um lado quanto do outro da tela. Esta passagem de tempo também modifica o estilo da série, sem perder o conceito original. Se os filmes anteriores eram uma homenagem às cinesséries de aventura produzidas pela Republic Pictures nas décadas de 30 e 40, este novo longa dá espaço também aos filmes “B” de ficção científica produzidos na década de 50. Esta mudança também afeta os vilões, que antes eram os nazistas, uma vez que Hitler era um conhecido colecionador de artefatos históricos, e agora são os comunistas motivados pela Guerra Fria, além de vislumbrarmos um pouco do vilão que havia dentro dos EUA que era a paranóia macartista.

Esta ambientação ocupa a primeira parte do longa, que também é responsável por saciar a nostalgia dos fãs antigos, mostrando Indy se desvencilhando das mais improváveis enrascadas em cenas feitas com poucos efeitos e nas quais são possíveis ver até mesmo momentos de humor físico que parecem saídos de uma comédia muda de Buster Keaton. A segunda parte, no entanto, é dedicada aos fãs de hoje. Nela, Indy segue para Amazônia peruana em busca das tais caveiras do título e aqui afloram os efeitos para criar seqüências mirabolantes, algumas até chegando a lembrar desenhos animados. Esta segunda metade pode não agradar os puristas, mas com certeza é muito eficiente junto aos fãs das aventuras de hoje, como A Múmia e a série Piratas do Caribe.

O filme também tenta agradar novos fãs ao trazer um co-protagonista jovem para a trama. Shia LaBeouf, a imagem e semelhança de Marlon Brando em O Selvagem(1953), traz sangue novo para o mundo de Indy com seu impetuoso e inexperiente Mutt Williams, que seria filho de uma das antigas paixões de nosso herói. Este contraponto com Indiana de Harrison Ford funciona muito bem e pode-se dizer que é o grande achado do longa.

O que se pode dizer é que mesmo não agradando a todos, este novo longa ainda é uma grande diversão e um belo filme de aventura. Que Harrinson Ford nasceu para o papel e que se esta aventura não é tão empolgante quanto as anteriores, não faz feio perante as feitas atualmente. O que significa que pelo menos por enquanto Indy não precisa se preocupar, pois ainda é o maior herói das telas.





Velhice (ch)
Tempo: aliado ou inimigo? (ti)

A velhice é inevitável, mas nem sempre lidar com ela é algo simples. Muitos buscam ajuda (lf)


Moema Rabelo

Sthefânia Gianvechio

3º Período de jornalismo


Tic-tac, tic-tac.O tempo não pára. E esta passagem contínua do tempo é o que faz com que as pessoas cheguem à outra etapa de sua vida, a velhice. Biologicamente, envelhecer faz parte de um processo natural, que acompanha o desenvolvimento vital do ser humano. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma pessoa é considerada idosa a partir de seus 60 anos de idade. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, 10% da população brasileira é idosa, representando cerca de 18 milhões de pessoas, com estimativa que, em 2025, essa porcentagem alcançará 14%.

Muitos associam a velhice e a inatividade a dificuldades e ao fim da vida. Com isso, envelhecer pode não ser natural para várias pessoas, o que pode desencadear o medo da velhice. Este medo engloba alguns fatores: como lidar com restrições fisiológicas? Como se portar dentro dos estereótipos aceitos pelo senso comum,em que, na maioria das vezes, a palavra velho é empregada como adjetivo pejorativo? O idoso não é visto somente como uma pessoa que envelheceu biologicamente, mas como um ser totalmente limitado e inativo.

Maria Regina Basillho é cantora, professora e psicóloga há 20 anos. Em entrevista ela relata que o envelhecimento é um processo natural que todos nós iremos passar, assim como a infância e a adolescência, e que no Brasil a maioria dos idosos são abandonados. “Processos depressivos, de isolamento, de melancolia, podem estar relacionados em função do enve­lhecimento. Por trás dessas queixas existe o luto pelo corpo jovem, pelos papéis que ocupavam antes.” ressalta Maria Regina.

Recentemente, Maria Regina participou da II Conferência Municipal de Uberaba, cujo tema era “Avaliação da Rede Nacional de Defesa de Direitos de Proteção da Pessoa Idosa: Avanços e Desafios”, na qual foi discutido várias questões sobre os direitos dos idosos. Vários órgãos levaram sua colaboração, na área da saúde, social, esporte e todas as entidades ligadas ao idoso.

Em Uberaba acontecerão al­gumas mudanças em relação aos idosos, como: so­licitação para que o direito do trans­porte seja a partir dos 60 anos, (já que esse direito pertence somente aos idosos com idade acima de 65 anos) e, também devido aos maus tratados, abusos e precon­ceitos, a elaboração de uma cartilha, na qual eles possam buscar e recorrer aos seus direitos. “Os idosos precisam conhecer os seus direitos para que eles possam cobrar. Então, o propósito é esse: estabelecer trabalhos de divulgação desses direitos, de suas possibilidades e também de seus deveres, para que ele possa, enquanto cidadão, cumprir seus deveres.”, completa a psicóloga.

Maria Helena Cruvinel, conhecida como Dona Heleninha, tem 70 anos de idade, é natural de Caldas Novas, Goiás, e compõe o grupo de idosos moradores do asilo Santo Antonio, em Uberaba. Em uma breve retrospectiva de sua vida, Dona Heleninha nos conta dos bailes, das danças e dos namorados. As recordações levam um sorriso aberto ao rosto de Heleninha que, aos poucos, se fecha ao lembrar-se do falecimento de sua mãe, de quem cuidou até os 83 anos de idade. Dona Heleninha, apesar de confessar uma juven­tude namoradeira, não se casou e, conforme foi envelhecendo, percebeu que não poderia mais morar sozinha. Assim que comple­tou 70 anos resolveu ir mo­rar no asilo Santo Antonio. Se­gundo ela, envelhecer não lhe causava medo. “Envelhecer é outra parte, é outra etapa, de tranqüilidade, de amor ao próximo.”, diz Heleninha. O estudo citado acima constata que os depoimentos dos asilados foram acompanhados de silêncio, postura cabisbaixa, olhar vago e distante, diferente de Dona Heleninha, que se mostrava alegre e satisfeita. De acordo com ela, a família é fundamental para sua felicidade e ela acredita que se todos os outros moradores do asilo tivessem uma família como a sua, eles também seriam felizes. Mas ela relata que muitos se mostram insatisfeitos e têm vontade de ir embora ou de morrer.

Já Maria Helena da Silva, de 54 anos, tem pavor da velhice. Maria Helena é doméstica há 15 anos, divorciada e mãe de três filhas. O seu maior motivo pelo qual teme a velhice é a solidão. “Tenho medo de ficar doente, e não ter ninguém para cuidar de mim. O meu maior medo é de viver sozinha,” completa. Maria Helena percebe os maus tratos e descasos da maioria dos jovens para com os idosos “Quando eu ando de ônibus, eu vejo muitas pessoas mais novas sentadas nos lugares dos idosos, fingindo que estão dormindo para não ceder o lugar. Acho muita falta de respeito,” ressalta.

Vivemos em uma sociedade que busca incessantemente o novo, que tenta driblar o corpo para retardar o envelhecimento biológico, que curiosa­mente cobra experiência dos jovens e descarta o acúmulo dela nos idosos. Neste contexto social se insere o medo da velhice, que tráz consigo outros medos. No entanto, discutir temas que envolvem a velhice e o envelhecimento, definitivamente, não é perda de tempo.


Exclusão Social (ch)

O outro lado da vida fácil (ti)

A falta de oportunidade ameaça o futuro de muitas garotas (lf)


Sarah Menezes

3º período de jornalismo


Minissaia, meia arrastão, salto agulha, blusa decotada, perfume marcante e, para finalizar, um batom vermelho na boca. Este modelo pode ser facilmente encontrado nas ruas dos centros urbanos. Meninas que ainda na adolescência se atiram para o mundo em busca do sustento, fazendo do sexo a sua ferramenta para ganhar a vida. Isto acontece também com mulheres na idade adulta. Elas não poupam charme para atrair a clientela.

Este é um retrato do Brasil que só não vê quem fecha os olhos para a realidade. Em Uberaba a situação não é diferente. Garotas em situação de risco expõem esta problemática social pelas calçadas da Marcus Cherém e postos das rodovias que cortam a cidade.

- Hei, me leva com você! Cobro baratinho!

A tentadora oferta é feita a caminhoneiros e demais motoristas que param para ouvi-las . Alguns recusam secamente. Outros arriscam ao programa. Há ainda aqueles que hostilizam e tornam a vida dessas garotas um verdadeiro pesadelo.

Em março deste ano ouvi o relato de um profissional da saúde que contou os casos que ele testemunha no dia-a-dia em São Paulo. O trabalho dele consiste em retirar das ruas da capital paulista pessoas em situação de risco e dar a elas a assistência necessária. As histórias me deixaram aterrorizada. Dentre elas, uma me chocou mais, então a relatarei,usando nome fictício para a personagem principal.

Chega a hora de Samanta sair de casa, são 10h da noite e ela caminha em direção à av. Paulista. Já no local, escolhe a esquina mais movimentada e, achando-a, permanece por lá.

- Aoooo gostosa! Quanto cê tá cobranu pra fazer serviço completo com três?

- 120...precinho especial pra vocês!

- Quê isso! 30 reais...e tá passando de bom.

Esses são tipos de agressões pelas quais a garota passa dia­ria­mente.

Não é fácil a vida de pro­fis­sio­nal do sexo. Sama­nta saiu de casa aos quinze anos e foi parar em São Paulo, alme­jando melhores con­di­ções de vida e buscando tam­bém ajudar sua fa­mí­lia. Porém, che­­­­gando à “cidade gran­de”, a vida não lhe ofe­receu nenhu­ma facili­da­de, e sem encon­trar outro modo de sobrevivência, de­cidiu prostituir-se.

Em sua rotina profissional ela se submete, ou é obrigada a se submeter, a todos os tipos de desejos de seus clientes, indo contra seus princípios e vontades.

Em certa ocasião, Samanta estava à espera de um cliente. Pára uma Pajero preta, último modelo, os vidros insufilmados descem, e por detrás deles está um homem com seus 35 anos, moreno, cabelos bem penteados, uma camisa azul marinho, e um cheiro que aguçou Samanta. Ele, discreta e educadamente perguntou quanto era o programa completo, e ela, que já estava interessada pelo “cavalheiro” tendo esperança de conquistá-lo, respondeu:

- 150 reais, com todo prazer, pra você.

-Te pago 600 para passar a noite comigo! Mas terá que me satisfazer por com­pleto.

Samanta não pen­sou duas vezes, pro­pos­ta irre­cusável, 600 re­­­ais não se en­con­tra em qualquer pro­­­­­grama.

Chegando à casa do rapaz, eles foram direto para o quarto, sem muita cerimônia. Ele já foi mandando ela tirar a roupa, e enquanto se despia, observou a movimentação de seu cliente, que também estava se preparando para começar a noite. Quando estava completamente nua ele pediu para que ela dançasse para ele, se insinuasse, e fizesse gestos eróticos. Samanta seguiu as ordens dadas, e no auge de sua performance ele a interrompe. Samanta ouve o pedido mais bizarro, assustador e nojento que já escutou em toda sua carreira. O cavalheiro trouxe o seu doberman e exigiu que Samanta transasse com o cão enquanto ele se satisfazia sozinho, olhando a patética cena.

Ao ouvir tal história percebi como é difícil a vida dessas mulheres que, ironicamente, são rotuladas de “mulheres de vida fácil”. Senti um medo que veio do inconsciente. Medo de a vida ser traiçoeira comigo, pois quantas destas meninas tinham vontade de freqüentarem uma universidade, ter uma profissão diferente, mas e não tiveram oportunidade, ou, se tiveram, não puderam agarrála.

Apesar de fazer jornalismo e ter uma vida estável, o medo do fracasso me acompanha e, junto com ele, vem o medo de ao menos pensar em me submeter às coisas que as prostitutas passam. Vem à minha cabeça: como jornalista eu poderei ajudar essas pessoas a terem um destino melhor? Será que isto é possível? São indagações que me preocupam e ao mesmo tempo me incentivam a ser uma boa profissional de imprensa.


Comportamento (ch)

Onde está minha metade? (ti)


Mônica Salmazo

3º período de jornalismo


Bem mais do que o desejo humano de estar sempre em busca da felicidade e dos prazeres da vida, o homem busca para si a perfeição. E o que seria um mundo ideal sem a cobiçada alma gêmea? Desejos e necessidades. Desejos são realizados e necessidades são satisfeitas. Independente da respectiva intensidade, a paixão, sem dúvida, é a maior busca do ser humano. Viver uma paixão ou um grande amor nos faz sentir extasiados, alucinados, entusiasmados, loucos por afeto, nos faz perder a hora, os sentidos e tudo fica mais colorido e alegre. Mas será que todo esse mundo mágico pertence somente a pessoas que estão lado a lado? Diria que sim e digo que não! Estar ao lado de uma pessoa não se remete simplesmente à forma física, diz respeito também aos nossos limites.

O amor é sem fronteiras, sem barras, mas, com certeza, cheio de obstáculos. Não é o caminho mais fácil e nem o mais correto, muito menos o mais simples, mas certamente é o mais repleto de diversões em uma montanha russa de sentimentos. É muito bonito, belo e sublime acreditar que existe amor eterno, mas por que será que a maioria das pessoas não está pronta para amar alguém a ponto de conseguir ficar longe? História de filme, não é mesmo? Exatamente. Se os filmes são histórias que expressam nossas fantasias, então por que é lindo assistir a um filme no qual os protagonistas precisam ficar, às vezes, a vida inteira separados? Por que, na vida real, uma parcela bem pequena consegue viver e se submeter realmente à situação? O homem quer amar, mas não suporta a barreira física. Não é nossa culpa, afinal temos necessidade de compartilhar nossas vidas. Uma boa pergunta para reflexão seria: os amores que suportam as distâncias são mais fortes do que os amores presentes fisicamente? Pode ser triste, solitário, melancólico, depressivo, desesperador e maduro não poder tocar ou abraçar a pessoa amada, mas com certeza, sempre acreditaremos que valeu à pena. Consideramos esses amores como o tesouro precioso da alma gêmea, que resistiu a distâncias e ameaças, provou que não importa onde você está, mas que é amado e nunca está sozinho.

A ausência física pode ensinar a ver um mundo diferente, e que mesmo assim é colorido. O preço é caro, os riscos são muito altos, mas ver os primeiros riscos alaranjados sob a fina camada de branco clareando a vida compensa qualquer espera. Por isso, caro leitor, devemos pensar que é gostoso conhecer pessoas e vivenciar aventuras diferentes, mas repetindo: o caminho correto não precisa ser o mais fácil e nem o mais simples. Quem sabe a sua alma gêmea não está embaralhada entre as 6 bilhões de pessoas pelo mundo afora? Pense...


Comunicação (ch)

Por que faço Relações Públicas? (ti)


Flaviane Cruz

Suellen Bielsa

3º período Relações Públicas


Hoje, já possuímos a noção do quanto é importante se comunicar bem. Por isso, houve a necessidade de criar uma área específica para o estudo da arte de comunicar: o curso de Comunicação Social. Na Universidade de Uberaba, ele subdivide-se em três áreas: Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas. Cada curso possui grande importância para toda a sociedade, porém, é necessário chamarmos a atenção para o curso de Relações Públicas.

A profissão já existe há mais de 40 anos, mas ainda não é muito conhecida. Iniciou-se no século 20, quando um jornalista abriu os olhos dos empresários norte-americanos para a nova ótica de correção da atitude para com a opinião pública, época em que um dos barões do livre mercado usou a frase “O público que se dane”. No Brasil, a profissão foi devidamente disciplinada em 1967. E, em 1972, houve a necessidade de criar o CONRERP (Conselho Regional dos Profissionais de Relações Públicas). Todos que atuam nessa profissão devem ter tal registro.

Mas infelizmente, em Uberaba, o profissional de Relações Públicas não possui o devido reconhecimento de sua profissão, e isso acaba refletindo na procura pelo curso. Na Uniube, o curso de Relações Públicas foi reaberto em 2006 e em apenas dois anos de funcionamento, antes mesmo de formar a primeira turma, já foi levantada a possibilidade de fechá-lo. Acontece que o número de inscrições para o vestibular em RP está diminuindo gradativamente.

A explicação é simples e ocorre devido a alguns motivos, dentre eles, a falta de conhecimento dos empresários e da população do que seria e quais as funções exerceria esse profissional, e o fato das pessoas sem a formação devida ocuparem o cargo de Relações Públicas. Alertamos que o CONRERP existe exatamente para auxiliar o Relações Públicas, e se necessário, possui autoridade para punir pessoas que se dizem supostos “Relações Públicas”.

O fato de os empresários não reconhecerem o curso e não se interessarem pelo trabalho dos relações públicas é um fator negativo para as empresas. O profissional dessa área constrói e mantém uma imagem positiva para a organização, aponta suas falhas, planeja uma estratégia e mostra-lhe os resultados.

O profissional de Relações Públicas sabe exatamente como planejar e tomar providências corretas para que a empresa não cometa erros irreparáveis, além de obter outros recursos para que empresa tenha todos os seus públicos satisfeitos, tanto internos como externos.

Para mostrar a importância do curso, os alunos do terceiro e do quinto períodos do curso de Relações Públicas da Universidade de Uberaba (UNIUBE) se mobilizaram para lançar dia 17 de maio, durante a Uniube Aberta, a “Identidade Agência Experimental de Relações Públicas”. A agência desenvolve atividades ligada à profissão, como: assessoria de imprensa, house organ, gerenciamento de crise, e comunicação institucional, sempre colocando como prioridade cuidar da imagem da organização, que é o essencial na profissão.

Com essa agência, esperamos chamar a atenção e tirar dúvidas principalmente do jovem pré-vestibulando que ainda não conhece a profissão e mostrar a toda comunidade o quanto é importante o trabalho exercido pelo profissional de RP.


Educação (ch)

Chacotas que deixam marcas (ti)

Brincadeiras que ganham espaço na escola podem se tornar em um mal (lf)


Mariane Manfredini

3º período de jornalismo


Imagine a seguinte situação: uma criança vive apanhando na escola, recebe apelidos maldosos dos colegas, é excluído, enfim, a vida dele é uma tortura. Os professores não tomam nenhuma atitude, e os pais desconhecem seu sofrimento. Em determinado momento, ele passa a sentir dificuldade para copiar as matérias. A mãe implora para que ele estude. Sua dificuldade se transforma em baixo rendimento em diversas matérias e, além do mais, passa a ouvir piadas dos colegas por esse motivo.

     Esta pode parecer uma história fictícia, mas está presente em muitas escolas. As crianças (ou adolescentes) precisam de ajuda, porém têm medo de que ao admitir isto, sua vida ganhe um transtorno extra.

     O nome deste mal: Bullying que em portugues quer dizer implicar, atormentar, é um tema freqüente em filmes destinados ao público jovem e que designa toda e qualquer espécie de humilhação, atitudes agressivas repetitivas e intencionais contra alguma pessoa, adotada por um indivíduo ou por um grupo. Um exemplo é a violência escolar, que vai desde pressão psicológica até agressão física.

   Segundo o Observatório da Criança, as pessoas que sofrem as agressões geralmente são inseguras e não dispõem de recursos ou coragem para reagir e fazer cessar os atos violentos contra si.  Começa quando alguns alunos simplesmente implicam com outro o humilhando de maneira cruel devido ao seu peso, cor do cabelo, sua família, notas, religião, cor ou cultura diferente, se usa aparelho dentário ou de audição, se usa óculos, ou pelo simples prazer de implicar.

     A baixa auto-estima é agravada pela indiferença dos adultos diante do sofrimento da vítima. Algumas chegam até a acreditar que merecem estar passando por esta situação. Tornam-se passivos, quietos, passam a ter baixo rendimento escolar, a resistir ou se recusar a ir à escola, chegando a simular doenças. Alguns jovens, em extrema depressão, acabam tentando ou cometendo suicídio.  


Aconteceu

Por e-mail, a estudante de pedagogia da Ulbra (Universidade Luterana do Brasil) em Canoas (RS), Daniele Vuoto, 21 anos, contou como foi sua experiencia com o bullyng na escola. Sua vida escolar começou razoavelmente bem, embora não tenha tido o final feliz que ela esperava. Na pré-escola, quando via alguma colega sendo motivo de piada, ela a defendia. Não achava aquilo certo!

“Com o tempo, isso virou contra mim: por virar amiga das vítimas, passei a ser uma”, conta Daniele. Os motivos eram coisas mais banais: ela ser muito branca, muito loira, as notas altas, qualquer detalhe virava motivo de chacota. No começo, as agressões vinham mais de outras turmas, e não muito da que eu estudava.

O clima passou a ficar pesado demais e, com 14 anos, ela resolveu mudar de escola. “Achava que a mudança seria um recomeço, e não sofreria mais. Isso foi um grande engano. Aquela escola foi um pesadelo”. Lá, ela era vista como “assombração”, as pessoas a tratavam mal, berravam quando a viam, empurravam, davam muita risada, roubavam coisas e, o pior: alguns professores apoiavam as atitudes dos alunos.

No ano seguinte, foi para outra escola, a última em que estudou. “Lá fiz como sempre, via quem estava sozinho e fazia amizade. Mais uma vez eu era tida como a diferente. Afinal, ser uma adolescente e não usar roupas de marca, não querer ir a festas e, ainda por cima, tirar nota alta. Para eles, aquilo não podia ser normal”. Com isso ela se desenvolveu uma depressão. “Ia caminhando até a escola e parei de olhar ao atravessar a rua. Para mim, morrer seria lucro”, afirma a vítima. Estaca novamente sozinha em uma escola enorme, tentando se refugar na biblioteca e até lá sendo perseguida.

Passou a comer menos, a se cortar e ver tudo como uma possível arma para acabar com seu sofrimento. Começou um tratamento com um psiquiatra e, em uma das recaídas da depressão, foi internada. A família não sabia o que se passava e ela também não tinha como contar. Nos dois primeiros dias na clínica, ela não ganhou comida, tomou em torno de 10 comprimidos quatro vezes ao dia. Só saiu após 11 dias de internação, depois de ter incomodado muito os médicos para conseguir isso.

Percebeu que se ela tentava se matar, muitas vítimas também tentavam e, muitas vezes, conseguiam. “Decidi que se pudesse evitar um suicídio que fosse, daria tudo de mim pra isso”. Hoje, ela já não toma mais remédios, nem faz tratamentos, e ajuda àqueles de sua cidade que enfrentam o Bullying. “Na época em que fui vítima, a cada humilhação pensava: devo ser estranha mesmo”. Hoje ela percebe o erro que é pensar assim e é o que tenta ensinar para as vítimas com as quais tem contato: que nunca acreditem no que dizem de ruim, porque o agressor é muito inseguro, quer chama a atenção.

Ela ainda aconselha: “não é sua culpa, por mais que seja difícil, avise seus pais. Se não conseguir, peça para alguém. Não é vergonha ser vítima, e pedir ajuda é o diferencial entre acabar com a vida mais cedo ou garantir um longo e belo futuro

Casos como este não são isolados, eles ocorrem em todas as partes, pode até mesmo estar acontecendo em uma escola próxima à sua casa. Carol (nome alterado), estudante do ensino médio da rede particular, foi vitima de bullying. Conta ter sido excluída pela turma, devido a armações de sua até então “melhor amiga”, além de ter sido obrigada a ouvir piadinhas todos os dias em sala de aula e em fotologs feitos pelos colegas. “Tentei falar com os professores, com a direção da escola e com a mãe da minha ex melhor amiga. O que todos disseram? É só uma fase, logo passa!”


Nova escola

Ivete Schwingel, 43 anos, professora de Educação Física na Escola Estadual de Ensino Fundamental Professora Leontina, em Venâncio Aires (RS) e coordenadora do projeto Antibullying, descobriu o assunto após ler uma reportagem publica na Revista Nova Escola. A partir daí buscou informações a respeito, comprou livros e, com o apoio da diretora da escola em que dá aulas, em 2006, iniciou um projeto anti-bullying na mesma. “Procurei conscientizar professores, pais e alunos sobre os conceitos, autores, vítimas e conseqüências”, afirma Ivete. Aplicou um questionário adaptado à realidade da escola e a partir dessa sondagem pôde buscar subsídios como: dinâmicas de cooperação, debates nas turmas, jogos cooperativos, teatro, palestras, enfim, todo um envolvimento para que pudesse amenizar o fenômeno bullying na instituição. Conta que desenvolveu alguns jogos durante este ano, julgou ser mais necessário os alunos aprenderem a cultura da cooperação.


Solidão (ch)

Aposentada sofre de depressão (ti)

Uma das conseqüências da doença é a solidão, na qual dona Anésia se confinou (lf)


Mariany Aquino Silvério

3º período de jornalismo


Dona Anésia Terezinha Batista tem 60 anos de idade e sofre de depressão profunda. Numa casa espaçosa, de classe média, no bairro Abadia, ela passa os dias e noites sozinha, vendo por entre a fumaça de seu cigarro a vida passar lentamente.

Separada, ela é mãe de duas filhas casadas, avó de cinco netos e uma bisneta. Mas nem os pimpolhos conseguem animá-la, já que sua paciência com crianças findou-se junto com o seu último trabalho, quando era servente da escola Quintiliano Jardim.

Entregue aos remédios (calmantes e depressivos) ela não vê ânimo para sair do quarto nem mesmo para conversar com as filhas, que a visitam rotineiramente. Entre lágrimas e uma profunda expressao de tristeza, ela falou sobre a solidão.


Revelação: Solidão. O que essa palavra representa na sua vida?

D. Anésia: Solidão... solidão...é o jeito que eu vivo. Acordar sozinha, comer sozinha, conversar sozinha, dormir sozinha, viver sozinha. É a minha vida.

Revelação: Desde quando a senhora vive sozinha?

D. Anésia: Há quase vinte anos. Desde que a minha filha caçula se casou e saiu de casa.

Revelação: A senhora não quis se casar de novo?

D. Anésia: De jeito nenhum! Quando minha filha mais nova tinha um aninho de idade, o pai dela me traiu com a minha própria irmã, e ainda tiveram uma filha. Criei as minhas duas filhas sozinha e nunca mais consegui acreditar em nenhum homem.

Revelação: A senhora não tem vontade de sair pra se distrair?

D. Anésia: Sair? Pra quê? Prefiro ficar quietinha em casa dormindo.

Revelação: Como é a sua vida, Dona Anésia?

D. Anéisa: Sou aposentada, vivo com um salário por mês, e a metade dele é para pagar a farmácia, que além dos cinco calmantes que eu tomo por dia, tenho que tomar os remédios para a depressão.

Revelação: Mas como é a sua rotina?

D. Anésia: Eu acordo todos os dias às 6h da manhã, fumo o meu cigarro e tomo café. Depois, tomo um calmante para conseguir dormir de novo. Geralmente, quando é 10h eu já estou acordada novamente. Vejo um pouco de televisão. Como alguma coisa, e durmo a tarde toda. Às 18h eu tenho que ver “minha novela das seis”. E fico na varanda com a minha cachorrinha até por volta das 21h, tomo meu remédio e vou dormir. Nos fins de semana, minhas filhas e meus netos vêm me ver, mas sempre reclamam que eu estou sempre dormindo.

Revelação: Você acredita em Deus?

D. Anésia: Sim, sim.

Revelação: A senhora tem vontade de mudar de vida?

D. Anésia: Não adianta. Há dois anos atrás, nem a morte me quis.

Fiquei ruim no hospital mais de uma semana, tendo que respirar através de aparelhos, por ter tomado cinco cartelas de remédios, e nem assim morri!

Eu já me acostumei com essa vida, Para mim, viver ou não viver, é a mesma coisa!

Revelação: A senhora não tem medo da morte?
D. Anésia: Não, ela não me assusta.

Uma hora, eu sei que ela vai chegar.

Revelação: Qual é a sua maior vontade?

D. Anésia: Que os meus cinco netos e minha bisnetinha sejam felizes. Que eles tenham uma vida sossegada, coisa que eu não tive!


Patologia (ch)

Do que você tem medo? (ti)

O medo é mais que um mecanismo de defesa, ele pode se tornar uma doença (lf)


Maria Gabriela Brito

Felipe De Negri

3º período de jornalismo


Existe uma emoção que pode salvar uma vida ou acabar com ela: o medo. Ele é gerado por impulsos que acontecem no cérebro e qualquer ser dotado desse órgão é capaz de sentí-lo. O cérebro trabalha para cuidar de todas as funções do corpo. Sendo assim, atua também em prol da segurança, em nossa defesa e favor, comandando as emoções e sentimentos.

O medo pode defender um ser em uma situação de perigo, por exemplo. Se um animal qualquer, dotado de cérebro, estiver em situação de risco, como próximo a um predador, esse órgão vai tomar providências para explicar ao resto do corpo do animal a situação na qual ele se encontra, fazendo com que rapidamente ele tome uma atitude e se afaste do predador, ou se defenda de alguma outra maneira. O que impulsiona essa atitude é o medo.

Além desse medo mecânico, existe um outro, sentido apenas pelo ser humano. É um medo infundado, uma emoção não saudável, conhecida como fobia e o medo condicionado, que acaba se tornando uma doença. Segundo a psicologia freudiana, um objeto que não traz ameaça, por exemplo, pode causar medo.

Maria Inês Loes, 65, é uma senhora que, além dos medos normais que todo mundo sente, tem também duas fobias: o medo da água do mar que, segundo ela, deve-se ao respeito que ela possui pelo mesmo, e um outro, um tanto quanto curioso e difícil de explicar, o medo do espaço. “Na verdade, o meu medo não é de altura, porque ando de avião como se estivesse em casa. O medo se concentra em lugares altos e aber­tos, é o medo do espaço, um medo que eu tenho do es­paço me atrair e me sugar”, ex­plica ela.

Maria Inês ainda conta que não sabe exatamente quando esse medo começou. “Acho que foi desde sempre”, diz ela, explicando que nunca fez terapia para curar a fobia, justamente por evitar lugares que ela sabe que a deixarão em pânico, como chegar em sacadas ou em janelas de andares altos.

Inês também relata um outro caso de fobia: “Conheço medos muito piores que esses meus. Já vi na televisão uma mulher que tinha medo de botões”. Da mesma forma que ela, diversas pessoas pelo mundo sentem medo das coisas mais bizarras. Entretanto, existem medos que são compartilhados por toda a humanidade, como o medo da loucura, da solidão, da velhice e da morte.

Enerson Cleiton, fotógrafo, conta que, dentre esses medos, o que mais o apavora é a loucura, e explica: “A loucura é algo sem solução. Ficando louco você é banido da sociedade e provavelmente jogado em um manicômio. É um fim triste”.

Fernando da Silva Melo, aluno do 7º período de publicidade e pro­paganda, afirma que, de todos os medos da hu­ma­­nidade, o pior é ficar sozi­nho. “Existem coi­sas ine­vi­táveis, como a mor­­te e a ve­lhice. Vo­cê só não vai ficar velho se morrer antes. Da loucura não tenho medo, dela já tenho um pouco. Então, o que mais me assusta é a solidão.”

Alci Cabral, psicóloga transpessoal, afirma, se­gundo sua linha teórica de estudo, que o medo pode ser causado por algum acontecimento na vida intra-uterina. “A psico­logia transpessoal estuda os medos mais a fundo, podendo ir até antes da fecundação. Algum trauma acontecido nesse período pode levar a fobias futuras”.

No processo de criação do medo existem dois “caminhos” o baixo e o alto. O baixo é do tipo “atire antes, pergunte depois”. Por exemplo, você ouve um barulho estranho em casa e já pensa logo em um ladrão, em vez de pensar em algum animal que passeia ou o vento que deslocou algum objeto. O alto é mais longo, porém, ponderado. Se você ouve o mesmo barulho, antes de associá-lo ao ladrão, espalha um leque de possibilidades para o barulho. Pode ser um animal, o vento ou o próprio ladrão.

O processo de formação do medo tem início com um estímulo de estresse e acaba liberando compostos químicos que fazem com que o coração e a respiração acelerem e energizem os músculos. As partes do cérebro envolvidas nessa reação são córtex sensorial, tálamo, hipotálamo, amígdala e o hipocampo. Essa emoção causa também reações físicas visíveis como tremor, descarga de adrenalina, aceleração cardíaca, atenção exagerada, depressão e pânico.

O ser humano tem uma maneira de sentir o medo diferente de animais irracionais. Em uma situação de perigo, ele leva em consideração primeiramente sua própria vida e segurança, claro, além de sentir todas aquelas reações citadas acima. Mas, depois, ele teme não só por ele, mas também pelos outros e pelo que vão sentir com sua perda. Isso pode ir muito além de uma emoção como mecanismo de defesa.



Lição de vida (ch)

Empresário volta a montar (ti)

Produtor rural supera as dificuldades da paraplegia e desafia o seu algoz (lf)


Marcelo Lara

3º Período de jornalismo


O empresário rural Cláudio Alvarez Garcia é paraplégico e voltou a montar, desta vez no lombo de uma mula. A proeza foi possível graças ao encontro entre dois amigos - Cláudio e Nô, este último um adestrador de muares de Brasília. A lição de vida de Cláudio Garcia,um paranaense apaixonado por Minas Gerais, aficionado por cavalos e por produção de café daria roteiro para filme e sobraria assunto para livros de auto-ajuda. Ele reconstruiu sua vida e construiu vários empreendimentos em cima de uma cadeira de rodas.

Cláudio vive na cidade de Patrocínio,na região do Triângulo Mineiro. Filho de uma família humilde,migrantes espanhóis que se estabeleceram no Estado do Paraná. Trabalhou muito desde menino. Aos 8 anos já estava na ativa. Foi engraxate,vendedor ambulante,catador de mamona,mecânico e corretor. Quando o pai saiu da roça,em 1967, foi trabalhar na pequena loja agropecuária da família. Aos 21 anos casou, teve uma filha com Leonilde Garcia. Aos 26 anos sua vida mudou radicalmente. Cláudio caiu do cavalo quando trabalhava numa propriedade rural da família e ficou paraplégico. De acordo com o depoimento da mãe dele, Agostina Garcia,a decisão de se adaptar à nova condição de vida, começou imediatamente após o diagnóstico. “Ele disse que continuaria a vida e a viver feliz e que a partir daquele momento iria se adaptar à falta de movimento das pernas.” Depois de tantos anos numa cadeira de ro­das, o empresário tes­te­munha que tem uma vi­da nor­­­mal, conseguindo man­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­ter unida a família, sustentar os negócios e a vida. Recen­temente reali­zou um so­nho: voltar a mon­tar, mes­mo paraplé­gico.

A mudança da família Alvarez Garcia para Mi­nas Gerais ocorreu em 1986, quando Cláudio e os pais ficaram fas­cinados pelo potencial do município de Pa­trocínio. Cláudio conta que para fechar a compra da fazenda veio quatorze vezes para Minas Gerais dirigindo um veículo adaptado, percorrendo mil e 200 quilômetros por viagem. Vieram todos, os pais, irmãos, cunhados e sobrinhos. Trabalham juntos em fazendas de café e gado e empresas ligadas à agricultura. Também plantam milho e soja e movimentam perto de 20 mil sacas de café por ano.

O empresário,hoje com 48 anos, não considera o acidente uma infelicidade . “Se é assim que eu tenho que estar, com certeza é assim que estou feliz, porque ser cadeirante, ser paraplégico mudou meus movimentos, mas não mudou minha forma de ver a vida”,afirma. Ele considera que todo ser humano tem em si a capacidade dada por Deus de vencer e cita exemplos como do comunicador Silvio Santos, um ex-camelô, e do presidente Lula, que foi torneiro mecânico e retirante do Nordeste. Seu dia inicia às 05h e o expediente só se encerra às 22h, após um dia de muito trabalho.


Mulas usadas para equoterapia

Na insistência de continuar montando mesmo paraplégico, Cláudio Garcia acabou sofrendo um segundo acidente quando capotou uma charrete. Nada sofreu e não desistiu. Ano passado ano enquanto assistia televisão, conheceu o trabalho de Josenildo de Souza, conhecido como Nô, adestrador de Brasília que tem um trabalho diferenciado com muares. Marcaram um encontro e Cláudio foi a Brasília conhecer o Rancho das Mulas. Uma das mulas adestrada por Nô, ideal para este tipo de terapia, foi trazida de Brasília para Patrocínio. E o dia nove de setembro foi especial na Fazenda da família Alvarez Garcia. Da varanda da casa,os pais, irmãos, esposa ... toda família viu Cláudio sair da cadeira e montar uma mula depois de 25 anos do acidente. Ajudado por Nô, ele iniciou mais uma etapa da adaptação.

Segundo o adestrador Josenildo da Costa, “os muares, embora a maioria das pessoas entendam diferente,são ani­mais que se tornam dóceis após um do­ma bem fei­ta, com técnicas ade­qua­das.”­ A mula é um a­ni­­mal que pre­ci­sa ser con­quistado,exige mais técnica do do­ma­dor e au­tomaticamente educa também o ser hu­mano. “O ades­­­tra­men­to de mua­­res exige o método da per­­­­­­­­sis­tência e não da panca­da”, afir­ma. Josenildo diz que o encontro com Cláudio Garcia inaugurou um novo momento do seu trabalho, com o desafio de usar mulas em terapias para pessoas com necessidades especiais. Ele estima que em seis meses Cláudio estará montando com segurança como fazia antes do acidente, ganhando independência. “ É a primeira vez que uso mulas em uma finalidade tão nobre: ajudar na reabilitação de pessoas como o Cláudio. Mas o mérito não é meu, é dele, por causa da sua grande coragem”, ressalta.


Um haras para equoterapia no Triân­gulo

Patrocínio deverá ser o primeiro município do Brasil a ter um haras com muares para reabi­li­tação de pessoas com deficiência. O projeto está nascendo na Fazenda Chapadão da Boa, há 40 quilômetros de Patrocínio, fruto de uma parceria entre o empresário Cláudio Garcia e o adestrador Josenildo Costa. A fazenda já mantém quatro mulas adestradas, entre elas, a mula Brasília. Segundo Josenildo, o animal tem características especiais para equoterapia pela sua docilidade e reflexos apurados, possibilitando a interação e bons resultados em pessoas com necessidades especiais. “Pela experiência realizada com Cláudio, que está montando todo final de semana, a mula já vem provando que tem vantagens em relação à terapia com cavalos. Por causa da sua docilidade o animal dá segurança ao homem, ao mesmo tempo em que ajuda a fortalecer a musculação, fragilizada pela falta de movimentos”, garante Nô. Ele explica também que um dos segredos dos muares está no passo da marcha, que não pune tanto o cavaleiro como no galope do cavalo.

A expectativa é implantar o haras com muares em 2009, começando por um projeto de infra-estrutura voltado às pessoas com necessidades especiais. O custo está sendo levantado informa Cláudio Garcia, mas este será, garante, o mais novo empreendimento de sua vida. “Já sabemos por causa da minha experiência que a qualidade de vida de muitas pessoas pode melhorar com esse tipo de tratamento” conclui.


Medo e Patologia (ch)

A fobia sob a ótica behaviorista (ti)


Marília Cândido Lopes

3º Período de jornalismo


Quando o medo passa dos limites e prejudica gravemente a vida das pessoas, ele pode ser considerado uma fobia. Para a psicologia behaviorista, que estuda as interações entre o ambiente e o indivíduo, é preciso enfrentar os estímulos que desecadeiam essa reação e trabalhá-los para superar o quadro.

A psicóloga Simone Santos, especialista em terapia comportamental, é mestra em Psicologia Aplicada e explica o que é fobia, suas principais caracterícas, como são feitos o diagnóstico e o tratamento.


Revelação: Dentro do Behaviorismo, como vocês lidam com a fobia?

Simone: O behaviorismo é uma teoria extensa. Especificamente, eu trabalho com a terapia comportamental. Dentro dessa abordagem, o primeiro passo do terapeuta é avaliar a fobia. Eu preciso avaliar de onde ela veio e quais os sintomas relacionados. Ali tem sintomas fisiológicos? De ansiedade? Quais são esses sintomas? Quais são os estímulos que levam essa pessoa a ter a fobia? Desde quando? Essa pessoa evita esses estímulos? Evita as situações nas quais ela sente medo? É realmente uma fobia, ou é um medo que não causa prejuízo à vida da pessoa? Porque existem essas diferenças. Dentro dessa avaliação inicial de um quadro fóbico, o psicólogo vai avaliar esses fatores utilizando os instrumentos que ele tem. Ele pode usar o DSM IV , um manual diagnóstico que nós temos que apresenta alguns padrões e, através da entrevista, vou verificar se o medo se encaixa naqueles padrões para que eu possa chamá-lo de fobia.


Revelação: Qual seria a definição de fobia?

Simone: A fobia é um medo irracional e, vamos dizer assim, exagerado, que a pessoa tem frente a uma determinada situação. Dentro desse aspecto, eu vou ter dois tipos de fobia: a fobia específica e a fobia social. A fobia específica é quando a pessoa tem medo de alguma situação ou de algum objeto específico. Por exemplo: a pessoa que tem fobia de cachorro, ou de elevador. E a fobia social é aquela em que a pessoa teme situações sociais nas quais acredita que possa ser avaliada pelo outro. Ela pode ter essa fobia social dentro de uma interação com superiores, por exemplo, com o professor, com o chefe. Geralmente, é um medo que vem acompanhado de uma resposta fisiológica muito intensa. A pessoa sente o coração palpitando muito forte , a mão transpirando, e outros sintomas relacionados à ansiedade. E tem outro fator importante dentro da fobia: é um medo irracional, e o indivíduo sabe disso.


Revelação: Existe algum tipo de fobia mais comum?

Simone: Isso depende muito de fatores culturais e da história de vida da pessoa.


Revelação: Como o fator cultural pode influenciar?

Simone: Por exemplo. Aqui, o medo de cobra é muito comum, mas se você for à India, provavelmente não vai ser. Porque é normal aqueles encantadores de serpente, e até crianças manuseando cobras. Já na nossa cultura a cobra é um animal muito temido.


Revelação: Como surge uma fobia?

Simone: Durante algum período na vida daquela pessoa (pode ser que se consiga identificar esse período ou não­), aquele objeto, o qual ela teme, foi associado a uma situação de perigo. Por exemplo: uma criança que passou por uma situação em que se sentiu vulnerável frente a um cachorro e, a partir dali, desenvolveu o medo de cachorro. O que pode vir a ser uma fobia depois. Mas a fobia só é considerada uma patologia quando provoca algum prejuízo na vida da pessoa.Quando ela se sente prejudicada em suas relações sociais, quando a pessoa que tem fobia de cachorro passa a não sair mais de casa com medo de encontrá-lo.Ela começa a se restringir porque passa a evitar muitos ambientes onde poderia encontrar o objeto fóbico.


Revelação: Muitas pessoas não entendem a gravidade da fobia e a julgam como sendo “frescura”. Simone:Porque o indivíduo não consegue se controlar. Ele vê o objeto e automaticamente já vem aquela ansiedade incontrolável. O coração palpitando, a mão transpirando, essa sensação é amedrontadora pro indivíduo. Então, talvez ele se sinta mais desconfortável com a resposta gerada pelo objeto fóbico do que pelo próprio objeto. E é com essa emoção forte que ele não tem habilidade para lidar.


Revelação: Quais são os tratamentos mais comuns?

Simone: Uma fobia nunca vem sozinha. Muitas vezes, a pessoa tem uma fobia e outro transtorno associado. É preciso avaliar tudo isso, identificar os sintomas, a freqüência e onde ocorrem. E aí vão ser tratamentos diferenciados. É preciso tratar o que está de base também. Essa base pode ser uma autoconfiança muito baixa, um indivíduo que não acredita nele mesmo, que tem medo da barata, mas teme o mundo também. Eu posso tratar o medo da barata, mas se eu não tratar o medo que ele tem do mundo, da vida, eu não resolvo o problema.


Revelação: Como que uma pessoa pode parar de ter medo?

Simone: Com relação ao objeto fóbico, mais especificamente dentro da terapia comportamental cognitiva, não existe outra maneira de o indivíduo parar de ter medo que, senão, enfrentá-lo. E enfrentar o medo significa se aproximar do objeto temido. O que é feito gradativamente. Se o indivíduo tem medo de elevador, eu não vou conseguir tratar o medo se eu não conseguir com que ele, se aproxime do elevador. Isso pode ser feito via imaginação porque o indivíduo tem dificuldades até para se imaginar nessa situação. O psicólogo, intevém nessa imaginação. A gente se baseia nisso porque a resposta de ansiedade, fisiologicamente, tem um certo padrão, é como se ela seguisse uma curva em que as respostas de ansiedade vão aumentando e chegam num ponto máximo. O próprio organismo ativa o sistema parassimpático para que aquela ansiedade diminua gradativamente. Só que um indivíduo fóbico, antes que o próprio organismo desencadeie essa resposta automática, já correu há muito tempo. Então, não dá tempo do próprio organismo se acostumar com aquela situação, porque ele foge dela. Assim, o terapeuta, além de dar habilidades pro indivíduo via relaxamento, ele prepara o organismo para que este consiga restaurar a resposta fisiológica.


Revelação: Quais são os outros profissionais que tratam a fobia. É preciso ajuda psiquiatra?

Simone:Depende do grau da fobia. Como eu estou lidando com respostas do organismo, parto do pressuposto de que esse organismo está desequilibrado com relação à liberação de neurotransmissores. Então, é preciso entrar com medicações. Aí, é o psiquiatra que vai elaborar a medicações adequada.


Loucura (ch)
A porção de loucura de cada um (ti)

As pessoas têm medo do diferente. Ser louco está fora dos padrões da sociedade, mas até que ponto somos normais? (lf)


Maria Gabriela Brito

Sarah Menezes

3º Período de jornalismo


O ser humano sempre teve dificuldade em aceitar o diferente. Na sociedade, algumas variações de personalidade são banidas da vida em comunidade. É o caso dos considerados loucos. A vida dos “normais” é baseada em idéias cheias de ilusão: valoriza a estabilidade, se apega a uma rotina e não é capaz de deixá-la, de tentar novas alternativas e, aqueles que tentam, são considerados fora dos padrões, loucos.

Desde criança, o ser humano é condicionado a ter medo do diferente. A loucura é algo que não cabe na sociedade. Então, as pessoas têm medo de tornarem-se loucas e serem excluídas, mas, na verdade, esse medo é gerado porque “no fundo ninguém é realmente normal”, diz o psiquiatra Jorge Bichuetti, médico na Fundação Gregório Baremblitt, que trata de pessoas com algum transtorno mental.

Ele explica que o ser humano vive em um mundo onde o considerado normal é ser “pouco criativo, submisso e descolorido”. O psiquiatra taxa o homem normal como “cinzento” e “sem graça”, já que esse não tem coragem de ousar. “Cada um é cada um. Existe, dentro de nós, uma singularidade reprimida. Temos medo da explosão dessa singularidade, preferimos viver acomodados. Algumas pessoas sofrem muito por adotar uma estética padrão. Essa pessoa torna-se uma cópia, torna-se submissa e sofre quando não se adapta”, explica.

Entretanto, não existe apenas o medo da loucura, existe também o medo dos loucos, talvez uma outra razão que leva o ser a ter medo de se tornar um deles. Quando criança, o homem é obrigado a ouvir coisas dos pais como “se você fizer bagunça, o doido vai te pegar”. Aquela situação fica gravada na memória da criança e ter medo do “doido que vai vir pegá-la” é conseqüentemente ter medo de se tornar um louco, viver no abandono e na exclusão.

Na opinião do psiquiatra Jorge Bichuetti, a loucura está mais próxima da poesia e da mágica da vida. “O comportamento do louco está perto do ócio, da produção a partir do prazer.” Muitos “loucos” dizem coisas que não fazem sentido, mas que se ditas por algum poeta famoso, tornar-se-iam obra de literatura. Ele cita uma frase dita por uma “louca” que, com certeza, poderia ser confundida com uma obra de Fernando Pessoa ou Clarice Lispector: “A loucura é o vazio da solidão de quem ama”.

Ele conta ainda que uma psicóloga observava sempre um louco sentado olhando para o horizonte. Um dia, ela resolveu perguntar: “Mas o que tanto olha?”, e ele respondeu para ela: “Ora, ora, navio entre estrelas”.

Gregório Baremblitt, que dá seu nome à fundação que trata das pessoas marginalizadas pela sociedade devido a algum tipo de transtorno mental, defende a idéia de que “o louco é alguém que renunciou ao mundo dos vencedores e vendedores”.

Jorge Bichuetti cita a frase de Baremblitt e diz ainda que na fundação eles não procuram encontrar uma cura, mas sim emancipar aqueles considerados loucos. A loucura não é mais considerada uma doença, do ponto de vista psiquiátrico, como era considerada há décadas. “Procuramos enriquecer a vida com as expressões da loucura”, filosofa o psiquiatra, acrescentando que o modo correto para entender a loucura é perceber que não somos iguais, que cada um carrega dentro de si algo único: “Louco, não, diferente, sim”.

Aqui na fundação eles vivenciam um processo de organização do caos interno. Possibilitamos a reinvenção da vida. Cada loucura provoca um desejo de reinventar. Eu enxergo hoje o medo da loucura como uma pedra no caminho. Esse medo é o medo de amar e criar. A vida impede a utopia.”

O psiquiatra completa ainda dizendo que, particularmente, nunca perdeu o medo de ficar normal, embora confesse: “Tenho medo do que chamamos de loucura da antiprodução, que é a de destruição”. E difere as duas loucuras como “a loucura de merda, que é a da destruição. Homens contra homens. E a loucura linda, que é o de sonhar com espontaneidade, viver integrado com flores, bichos e homens”.

A loucura e o medo dela são fundamentadas na cultura capitalista. O medo não fica apenas em cima da loucura, mas também em torno da ousadia, do espontâneo. Bichuetti, se opondo à idéia do medo da loucura, completa dizendo: “Qualquer situação que nos aproxime do limite da capacidade de sobreviver na mediocridade do cotidiano pode abrir portas para o novo”.

É possível fazer um louco tornar-se normal? Não, mas é possível aceitar o diferente”, finaliza.