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Tempo: aliado ou
inimigo?
A velhice é inevitável,
mas nem sempre lidar com ela é algo simples. Muitos buscam
ajuda
Moema Rabelo |
Dona Heleninha moradora do Asílo Santo Antônio se sente feliz com a idade e com a condição de vida |
Moema Rabelo
Sthefânia Gianvechio
3º Período de jornalismo
Tic-tac, tic-tac. O tempo não
pára. E esta passagem contínua do tempo é o que
faz com que as pessoas cheguem à outra etapa de sua vida, a
velhice. Biologicamente, envelhecer faz parte de um processo
natural, que acompanha o desenvolvimento vital do ser humano. De
acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS),
uma pessoa é considerada idosa a partir de seus 60 anos de
idade. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística, o IBGE, 10% da população brasileira
é idosa, representando cerca de 18 milhões de pessoas,
com estimativa que, em 2025, essa porcentagem alcançará
14%.
Muitos associam a velhice e a
inatividade a dificuldades e ao fim da vida. Com isso, envelhecer
pode não ser natural para várias pessoas, o que pode
desencadear o medo da velhice. Este medo engloba alguns fatores: como
lidar com restrições fisiológicas? Como se
portar dentro dos estereótipos aceitos pelo senso comum,em
que, na maioria das vezes, a palavra velho é empregada como
adjetivo pejorativo? O idoso não é visto somente como
uma pessoa que envelheceu biologicamente, mas como um ser totalmente
limitado e inativo.
Maria Regina Basillho é
cantora, professora e psicóloga há 20 anos. Em
entrevista ela relata que o envelhecimento é um processo
natural que todos nós iremos passar, assim como a infância
e a adolescência, e que no Brasil a maioria dos idosos são
abandonados. “Processos depressivos, de isolamento, de melancolia,
podem estar relacionados em função do envelhecimento.
Por trás dessas queixas existe o luto pelo corpo jovem, pelos
papéis que ocupavam antes.” ressalta Maria Regina.
Recentemente, Maria Regina
participou da II Conferência Municipal de Uberaba, cujo tema
era “Avaliação da Rede Nacional de Defesa de Direitos
de Proteção da Pessoa Idosa: Avanços e
Desafios”, na qual foi discutido várias questões
sobre os direitos dos idosos. Vários órgãos
levaram sua colaboração, na área da saúde,
social, esporte e todas as entidades ligadas ao idoso.
Em Uberaba acontecerão
algumas mudanças em relação aos idosos,
como: solicitação para que o direito do
transporte seja a partir dos 60 anos, (já que esse
direito pertence somente aos idosos com idade acima de 65 anos) e,
também devido aos maus tratados, abusos e preconceitos, a
elaboração de uma cartilha, na qual eles possam buscar
e recorrer aos seus direitos. “Os idosos precisam conhecer os seus
direitos para que eles possam cobrar. Então, o propósito
é esse: estabelecer trabalhos de divulgação
desses direitos, de suas possibilidades e também de seus
deveres, para que ele possa, enquanto cidadão, cumprir seus
deveres.”, completa a psicóloga.
Maria Helena Cruvinel, conhecida
como Dona Heleninha, tem 70 anos de idade, é natural de Caldas
Novas, Goiás, e compõe o grupo de idosos moradores do
asilo Santo Antonio, em Uberaba. Em uma breve retrospectiva de sua
vida, Dona Heleninha nos conta dos bailes, das danças e dos
namorados. As recordações levam um sorriso aberto ao
rosto de Heleninha que, aos poucos, se fecha ao lembrar-se do
falecimento de sua mãe, de quem cuidou até os 83 anos
de idade. Dona Heleninha, apesar de confessar uma juventude
namoradeira, não se casou e, conforme foi envelhecendo,
percebeu que não poderia mais morar sozinha. Assim que
completou 70 anos resolveu ir morar no asilo Santo Antonio.
Segundo ela, envelhecer não lhe causava medo.
“Envelhecer é outra parte, é outra etapa, de
tranqüilidade, de amor ao próximo.”, diz Heleninha. O
estudo citado acima constata que os depoimentos dos asilados foram
acompanhados de silêncio, postura cabisbaixa, olhar vago e
distante, diferente de Dona Heleninha, que se mostrava alegre e
satisfeita. De acordo com ela, a família é fundamental
para sua felicidade e ela acredita que se todos os outros moradores
do asilo tivessem uma família como a sua, eles também
seriam felizes. Mas ela relata que muitos se mostram insatisfeitos e
têm vontade de ir embora ou de morrer.
Já Maria Helena da Silva, de
54 anos, tem pavor da velhice. Maria Helena é doméstica
há 15 anos, divorciada e mãe de três filhas. O
seu maior motivo pelo qual teme a velhice é a solidão.
“Tenho medo de ficar doente, e não ter ninguém para
cuidar de mim. O meu maior medo é de viver sozinha,”
completa. Maria Helena percebe os maus tratos e descasos da maioria
dos jovens para com os idosos “Quando eu ando de ônibus, eu
vejo muitas pessoas mais novas sentadas nos lugares dos idosos,
fingindo que estão dormindo para não ceder o lugar.
Acho muita falta de respeito,” ressalta.
Vivemos em uma sociedade que busca
incessantemente o novo, que tenta driblar o corpo para retardar o
envelhecimento biológico, que curiosamente cobra
experiência dos jovens e descarta o acúmulo dela nos
idosos. Neste contexto social se insere o medo da velhice, que tráz
consigo outros medos. No entanto, discutir temas que envolvem a
velhice e o envelhecimento, definitivamente, não é
perda de tempo. |