O outro lado da vida fácil
A falta de oportunidade ameaça
o futuro de muitas garotas
Maria Gabriela |
| Vida fácil? Não é o que parece. Aliás, vida bem rude, traiçoeirae perigosa essa |
Sarah Menezes
3º período de jornalismo
Minissaia, meia arrastão,
salto agulha, blusa decotada, perfume marcante e, para finalizar, um
batom vermelho na boca. Este modelo pode ser facilmente encontrado
nas ruas dos centros urbanos. Meninas que ainda na adolescência
se atiram para o mundo em busca do sustento, fazendo do sexo a sua
ferramenta para ganhar a vida. Isto acontece também com
mulheres na idade adulta. Elas não poupam charme para atrair a
clientela.
Este é um retrato do Brasil
que só não vê quem fecha os olhos para a
realidade. Em Uberaba a situação não é
diferente. Garotas em situação de risco expõem
esta problemática social pelas calçadas da Marcus
Cherém e postos das rodovias que cortam a cidade.
- Hei, me leva com você! Cobro
baratinho!
A tentadora oferta é feita a
caminhoneiros e demais motoristas que param para ouvi-las . Alguns
recusam secamente. Outros arriscam ao programa. Há ainda
aqueles que hostilizam e tornam a vida dessas garotas um verdadeiro
pesadelo.
Em março deste ano ouvi o
relato de um profissional da saúde que contou os casos que ele
testemunha no dia-a-dia em São Paulo. O trabalho dele consiste
em retirar das ruas da capital paulista pessoas em situação
de risco e dar a elas a assistência necessária. As
histórias me deixaram aterrorizada. Dentre elas, uma me chocou
mais, então a relatarei,usando nome fictício para a
personagem principal.
Chega a hora de Samanta sair de
casa, são 10h da noite e ela caminha em direção
à av. Paulista. Já no local, escolhe a esquina mais
movimentada e, achando-a, permanece por lá.
- Aoooo gostosa! Quanto cê tá
cobranu pra fazer serviço completo com três?
- 120...precinho especial pra vocês!
- Quê isso! 30 reais...e tá
passando de bom.
Esses são tipos de agressões
pelas quais a garota passa diariamente.
Não é fácil a
vida de profissional do sexo. Samanta saiu de
casa aos quinze anos e foi parar em São Paulo, almejando
melhores condições de vida e buscando também
ajudar sua família. Porém, chegando
à “cidade grande”, a vida não lhe ofereceu
nenhuma facilidade, e sem encontrar outro modo de
sobrevivência, decidiu prostituir-se.
Em sua rotina profissional ela se
submete, ou é obrigada a se submeter, a todos os tipos de
desejos de seus clientes, indo contra seus princípios e
vontades.
Em certa ocasião, Samanta
estava à espera de um cliente. Pára uma Pajero preta,
último modelo, os vidros insufilmados descem, e por detrás
deles está um homem com seus 35 anos, moreno, cabelos bem
penteados, uma camisa azul marinho, e um cheiro que aguçou
Samanta. Ele, discreta e educadamente perguntou quanto era o programa
completo, e ela, que já estava interessada pelo “cavalheiro”
tendo esperança de conquistá-lo, respondeu:
- 150 reais, com todo prazer, pra
você.
-Te pago 600 para passar a noite
comigo! Mas terá que me satisfazer por completo.
Samanta não pensou duas
vezes, proposta irrecusável, 600 reais
não se encontra em qualquer programa.
Chegando à casa do rapaz,
eles foram direto para o quarto, sem muita cerimônia. Ele já
foi mandando ela tirar a roupa, e enquanto se despia, observou a
movimentação de seu cliente, que também estava
se preparando para começar a noite. Quando estava
completamente nua ele pediu para que ela dançasse para ele, se
insinuasse, e fizesse gestos eróticos. Samanta seguiu as
ordens dadas, e no auge de sua performance ele a interrompe. Samanta
ouve o pedido mais bizarro, assustador e nojento que já
escutou em toda sua carreira. O cavalheiro trouxe o seu doberman e
exigiu que Samanta transasse com o cão enquanto ele se
satisfazia sozinho, olhando a patética cena.
Ao ouvir tal história percebi
como é difícil a vida dessas mulheres que,
ironicamente, são rotuladas de “mulheres de vida fácil”.
Senti um medo que veio do inconsciente. Medo de a vida ser traiçoeira
comigo, pois quantas destas meninas tinham vontade de freqüentarem
uma universidade, ter uma profissão diferente, mas e não
tiveram oportunidade, ou, se tiveram, não puderam agarrála.
Apesar de fazer jornalismo e ter uma
vida estável, o medo do fracasso me acompanha e, junto com
ele, vem o medo de ao menos pensar em me submeter às coisas
que as prostitutas passam. Vem à minha cabeça: como
jornalista eu poderei ajudar essas pessoas a terem um destino melhor?
Será que isto é possível? São indagações
que me preocupam e ao mesmo tempo me incentivam a ser uma boa
profissional de imprensa. |