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Chacotas que deixam marcas
Brincadeiras que ganham espaço
na escola podem se tornar em um mal
Mariane Manfredini |
Daniele superou seu trauma e é hoje foco de referência no combate ao bullying em seu estado ao lado de Ivete Schhwingel, coordenadora do projeto Antibullying. |
Mariane Manfredini
3º período de
jornalismo
Imagine a seguinte situação:
uma criança vive apanhando na escola, recebe apelidos maldosos
dos colegas, é excluído, enfim, a vida dele é
uma tortura. Os professores não tomam nenhuma atitude, e os
pais desconhecem seu sofrimento. Em determinado momento, ele passa a
sentir dificuldade para copiar as matérias. A mãe
implora para que ele estude. Sua dificuldade se transforma em baixo
rendimento em diversas matérias e, além do mais, passa
a ouvir piadas dos colegas por esse motivo.
Esta
pode parecer uma história fictícia, mas está
presente em muitas escolas. As crianças (ou adolescentes)
precisam de ajuda, porém têm medo de que ao admitir
isto, sua vida ganhe um transtorno extra.
O nome
deste mal: Bullying que em portugues quer dizer implicar, atormentar,
é um tema freqüente em filmes destinados ao público
jovem e que designa toda e qualquer espécie de humilhação,
atitudes agressivas repetitivas e intencionais contra alguma pessoa,
adotada por um indivíduo ou por um grupo. Um exemplo é
a violência escolar, que vai desde pressão psicológica
até agressão física.
Segundo o
Observatório da Criança, as pessoas que sofrem as
agressões geralmente são inseguras e não dispõem
de recursos ou coragem para reagir e fazer cessar os atos violentos
contra si. Começa quando alguns alunos simplesmente
implicam com outro o humilhando de maneira cruel devido ao seu peso,
cor do cabelo, sua família, notas, religião, cor ou
cultura diferente, se usa aparelho dentário ou de audição,
se usa óculos, ou pelo simples prazer de implicar.
A
baixa auto-estima é agravada pela indiferença dos
adultos diante do sofrimento da vítima. Algumas chegam até
a acreditar que merecem estar passando por esta situação.
Tornam-se passivos, quietos, passam a ter baixo rendimento escolar, a
resistir ou se recusar a ir à escola, chegando a simular
doenças. Alguns jovens, em extrema depressão, acabam
tentando ou cometendo suicídio.
Aconteceu
Por e-mail, a estudante de pedagogia
da Ulbra (Universidade Luterana do Brasil) em Canoas (RS), Daniele
Vuoto, 21 anos, contou como foi sua experiencia com o bullyng na
escola. Sua vida escolar começou razoavelmente bem, embora não
tenha tido o final feliz que ela esperava. Na pré-escola,
quando via alguma colega sendo motivo de piada, ela a defendia. Não
achava aquilo certo!
“Com o tempo, isso virou contra
mim: por virar amiga das vítimas, passei a ser uma”, conta
Daniele. Os motivos eram coisas mais banais: ela ser muito branca,
muito loira, as notas altas, qualquer detalhe virava motivo de
chacota. No começo, as agressões vinham mais de outras
turmas, e não muito da que eu estudava.
O clima passou a ficar pesado demais
e, com 14 anos, ela resolveu mudar de escola. “Achava que a mudança
seria um recomeço, e não sofreria mais. Isso foi um
grande engano. Aquela escola foi um pesadelo”. Lá, ela era
vista como “assombração”, as pessoas a tratavam
mal, berravam quando a viam, empurravam, davam muita risada, roubavam
coisas e, o pior: alguns professores apoiavam as atitudes dos alunos.
No ano seguinte, foi para outra
escola, a última em que estudou. “Lá fiz como sempre,
via quem estava sozinho e fazia amizade. Mais uma vez eu era tida
como a diferente. Afinal, ser uma adolescente e não usar
roupas de marca, não querer ir a festas e, ainda por cima,
tirar nota alta. Para eles, aquilo não podia ser normal”.
Com isso ela se desenvolveu uma depressão. “Ia caminhando
até a escola e parei de olhar ao atravessar a rua. Para mim,
morrer seria lucro”, afirma a vítima. Estaca novamente
sozinha em uma escola enorme, tentando se refugar na biblioteca e até
lá sendo perseguida.
Passou a comer menos, a se cortar e
ver tudo como uma possível arma para acabar com seu
sofrimento. Começou um tratamento com um psiquiatra e, em uma
das recaídas da depressão, foi internada. A família
não sabia o que se passava e ela também não
tinha como contar. Nos dois primeiros dias na clínica, ela não
ganhou comida, tomou em torno de 10 comprimidos quatro vezes ao dia.
Só saiu após 11 dias de internação,
depois de ter incomodado muito os médicos para conseguir isso.
Percebeu que se ela tentava se
matar, muitas vítimas também tentavam e, muitas vezes,
conseguiam. “Decidi que se pudesse evitar um suicídio que
fosse, daria tudo de mim pra isso”. Hoje, ela já não
toma mais remédios, nem faz tratamentos, e ajuda àqueles
de sua cidade que enfrentam o Bullying. “Na época em que fui
vítima, a cada humilhação pensava: devo ser
estranha mesmo”. Hoje ela percebe o erro que é pensar assim
e é o que tenta ensinar para as vítimas com as quais
tem contato: que nunca acreditem no que dizem de ruim, porque o
agressor é muito inseguro, quer chama a atenção.
Ela ainda aconselha: “não é
sua culpa, por mais que seja difícil, avise seus pais. Se não
conseguir, peça para alguém. Não é
vergonha ser vítima, e pedir ajuda é o diferencial
entre acabar com a vida mais cedo ou garantir um longo e belo futuro
Casos como este não são
isolados, eles ocorrem em todas as partes, pode até mesmo
estar acontecendo em uma escola próxima à sua casa.
Carol (nome alterado), estudante do ensino médio da rede
particular, foi vitima de bullying. Conta ter sido excluída
pela turma, devido a armações de sua até então
“melhor amiga”, além de ter sido obrigada a ouvir
piadinhas todos os dias em sala de aula e em fotologs feitos pelos
colegas. “Tentei falar com os professores, com a direção
da escola e com a mãe da minha ex melhor amiga. O que todos
disseram? É só uma fase, logo passa!”
Nova escola
Ivete Schwingel, 43 anos, professora
de Educação Física na Escola Estadual de Ensino
Fundamental Professora Leontina, em Venâncio Aires (RS) e
coordenadora do projeto Antibullying, descobriu o assunto após
ler uma reportagem publica na Revista Nova Escola. A partir daí
buscou informações a respeito, comprou livros e, com o
apoio da diretora da escola em que dá aulas, em 2006, iniciou
um projeto anti-bullying na mesma. “Procurei conscientizar
professores, pais e alunos sobre os conceitos, autores, vítimas
e conseqüências”, afirma Ivete. Aplicou um questionário
adaptado à realidade da escola e a partir dessa sondagem pôde
buscar subsídios como: dinâmicas de cooperação,
debates nas turmas, jogos cooperativos, teatro, palestras, enfim,
todo um envolvimento para que pudesse amenizar o fenômeno
bullying na instituição. Conta que desenvolveu alguns
jogos durante este ano, julgou ser mais necessário os alunos
aprenderem a cultura da cooperação. |