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As diversas faces da morte
Profissionais mostram como lidam com o assunto que é o maior medo da humanidade
Tobias Ferraz |
| O cemitério São João Bastista, o mais antigo de Uberaba |
Tobias Ferraz
5º periodo de jornalismo
O sentimento de dor pela perda de uma
pessoa próxima não faz parte dos relatórios dos
órgãos oficiais. Neles, a morte é encarada com
frieza técnica ou como mera estatística.
Segundo o escritório regional
do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –,
o município de Uberaba registrou 2.382 óbitos e 4.862
nascimentos em 2006. No ano passado, foram registrados 1.064 óbitos
hospitalares, sendo 564 homens e 500 mulheres. As mortes que
ocorreram fora dos hospitais ainda não estão no
relatório. As estatísticas apontam para um percentual
de óbitos anuais de aproximadamente 1% da população
uberabense. Este contingente de mortos leva alguns profissionais a
fazer do contato com a morte, justamente, os seus meios de vida.
Policial militar aposentado, o
ex-bombeiro Wilton Clarismundo de Menezes deu baixa como cabo da
corporação. Ele diz que perdeu a conta de quantas vidas
salvou enquanto esteve na ativa e que, no decorrer do trabalho como
bombeiro em Uberaba, também não contabilizou o número
de corpos sem vida que encontrou em acidentes. Mas seguramente viu,
por duas vezes, pessoas perderem a vida em suas mãos durante o
procedimento de socorro. “Nós recebemos treinamento intenso
para lidar com essas situações, para não
ficarmos abalados e comprometer o procedimento”, explica.
Mas quis o destino que o ex-militar
sentisse o gosto da ironia. O próprio cabo Wilton chegou bem
próximo da morte em um acidente de carro, em dia de folga,
quando foi lançado para fora do veículo. Era o dia 28
de junho de 2000. O resultado: traumatismo craniano. Wilton ficou 26
dias em coma. “Depois que saí do estado de coma e me
recuperei do acidente, fui ler o relatório médico e lá
estava escrito que, no quarto dia do coma, eu estava com febre muito
alta. Eu me lembro de sentir muito frio, me sentia numa calota polar
e ninguém me tirava de lá”, descreve. Essa
experiência provocou mudanças radicais no
comportamento de Wilton. “Eu era muito festeiro e só
ligava para coisas supérfluas. Depois desse episódio eu
me tornei mais humano. A morte para mim é uma passagem,
eu me desprendi da morte porque valorizo a vida.”
Qualidade de morte
Sob o ponto de vista médico, o
radiologista Gabriel Prata Resende, 50 anos e 33 de profissão,
garante que no mundo de hoje existe uma grande preocupação
em oferecer maior tranqüilidade aos pacientes terminais. “Com
a evolução dos analgésicos, podemos proporcionar
uma morte sem dor, e cada vez fica mais claro para o corpo médico
a importância de o paciente em fase terminal passar essa fase
na casa dele, no aconchego do lar e próximo da família
e das pessoas queridas, sempre que isso for possível.Gabriel
ressalta a presença da religiosidade como fator determinante
para os últimos momentos de uma pessoa. “No decorrer desses
33 anos de exercício da Medicina, pude constatar que
pessoas que têm crença, que demonstram
bastante fé, têm uma morte mais tranqüila”,
pondera. Perguntado sobre o fato de pensar na própria
morte, o médico mostra um certo desconforto na poltrona do
consultório e capricha na evasiva: “Vou começar a
pensar nisso daqui uns 30 anos. Começar a pensar, certo?”
Pertencente a uma nova geração,
o estudante do quinto ano de Medicina da UFTM – Universidade
Federal do Triângulo Mineiro – Paulo Guilherme de Faria
Canassa, 23 anos, é filho de médico. O estudante vê
a compreensão da morte como um processo. “Tive uma fase na
infância de muito medo da morte. Depois, fui aprendendo a lidar
com isso. Perdi meus avós, já adulto acompanhei o
sofrimento de meu pai com câncer e testemunhei seu último
suspiro. Para mim, foi uma sensação de susto muito
grande, com uma enorme descarga de adrenalina, mas, ao mesmo tempo
que fiquei assustado, senti que era um alívio para o
sofrimento dele.” Paulo conta que agora, no quinto ano do curso, em
um dos plantões apareceu um jovem com aproximadamente 18 anos,
baleado no tórax . “A equipe de plantão fez de tudo
para salvar o rapaz, mas em poucos minutos ele morreu. O chefe da
equipe fez tanto esforço físico que transpirava e lutou
até a última gota de suor para salvar o rapaz. Neste
dia, senti a grande impotência do médico diante da
morte.” O estudante acredita que a sociedade deveria discutir mais
a questão da morte para, a partir dessas reflexões,
aprender como aproveitar mais a vida e valorizar cada segundo da
existência.
O corpo sem vida
Eduardo dos Reis Moura Escoura tem 27
anos. Há sete trabalha como agente funerário, aquele
profissional que prepara o velório, tem o contato com a
família do morto e trabalha do início ao final dos
rituais fúnebres. Ele conta que já trabalhou em
supermercado, em empresa de telefonia e que, quando começou na
empresa funerária, sentia um certo medo. Uma das tarefas de
Eduardo era recolher os corpos em acidentes e levá-los para o
Instituto Médico Legal. Com alguns meses de profissão,
ele descobriu o quanto de dignidade existe na atividade. “Um
profissional bem preparado consegue diminuir a dor da família
do morto. Fazemos um bom trabalho e levamos conforto aos familiares.
Esse é o lado gratificante da profissão. Em um momento
de muita dor, a gente tenta amenizar essa dor das pessoas da
família”, explica.
Colega de Eduardo, Magali Alves, 40,
há quinze anos trabalha na funerária, sendo a última
década na função de necromaquiadora. Magali
explica o que é a profissão: “Usando produtos de
maquiagem encontrados no mercado, minha tarefa é deixar o
corpo com a melhor aparência possível, tirando a
palidez. Considero um bom trabalho quando o corpo fica com a
aparência de quem está dormindo”. A convivência
com a morte no trabalho de necromaquiagem produziu em Magali um forte
senso de respeito aos corpos. “Sempre que vou começar uma
maquiagem peço mentalmente a Deus que dê um bom lugar
para aquela alma.” Sobre a própria morte, porém, a
maquiadora não gosta de pensar. Diz que um dia vai acontecer,
mas “vamos deixar isso pra bem longe”, gesticulando com as mãos
em sinal de distanciamento.
O custo é proporcional à
importância
Morrer em Uberaba pode custar de R$
500 a R$ 50 mil. Uma cova no cemitério varia de R$ 500 a R$
3,5 mil. “Depende da pessoa, depende das exigências do
funeral”, diz Adalberto Pagliaro Júnior, 50, representante
da terceira geração de uma família que está
no ramo de serviço funerário há 121 anos.
Formado em Filosofia, Teologia e adepto da doutrina espírita,
Adalberto reflete muito sobre o despreparo das pessoas para lidar com
a morte. “Já nascemos com data de validade, só não
sabemos o dia do vencimento. Eu sofro é com o despreparo das
pessoas. Ainda vivemos em uma sociedade onde é forte a
presença do chefe de família, do mantenedor da casa e,
quando essa pessoa morre, ela leva junto a luz de toda uma família.
Isso acontece porque existe uma relação egoísta
com a família, o pai quer ter posse, um sentido de propriedade
dos filhos e da família.” O empresário diz que é
mais sensato “se preparar para a morte”: “Planejamos o
vestibular, a formatura, o casamento. Muitas vezes o casamento não
acontece, a formatura planejada é interrompida. Esse ‘filme
interrompido’ da vida é interpretado por muita gente como
antinatural. É preciso discutir também se você
está preparado para a morte. Aí entram os fatores
emocional, psicológico e financeiro”, analisa. Adalberto
fala sobre a morte de um jovem, de uma criança, a interrupção
da vida em fases onde ela existe com maior vigor. Ele acredita que um
desapego maior à família pode facilitar a compreensão
e diminuir as dores pela morte de alguém muito querido. “Criei
minhas duas filhas para o mundo. O dia que eu faltar elas saberão
como conduzir a vida delas”, reflete o empresário.
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