A porção de loucura de cada um
As pessoas têm medo do diferente. Ser louco está fora dos padrões da sociedade, mas até que ponto somos normais?

Maria Gabriela Brito
Fundação Gregório Baremblitt em Uberaba, a instituição trata de pacientes com disturbios mentais
Maria Gabriela Brito
Sarah Menezes
3º Período de jornalismo

O ser humano sempre teve dificuldade em aceitar o diferente. Na sociedade, algumas variações de personalidade são banidas da vida em comunidade. É o caso dos considerados loucos. A vida dos “normais” é baseada em idéias cheias de ilusão: valoriza a estabilidade, se apega a uma rotina e não é capaz de deixá-la, de tentar novas alternativas e, aqueles que tentam, são considerados fora dos padrões, loucos.

Desde criança, o ser humano é condicionado a ter medo do diferente. A loucura é algo que não cabe na sociedade. Então, as pessoas têm medo de tornarem-se loucas e serem excluídas, mas, na verdade, esse medo é gerado porque “no fundo ninguém é realmente normal”, diz o psiquiatra Jorge Bichuetti, médico na Fundação Gregório Baremblitt, que trata de pessoas com algum transtorno mental.

Ele explica que o ser humano vive em um mundo onde o considerado normal é ser “pouco criativo, submisso e descolorido”. O psiquiatra taxa o homem normal como “cinzento” e “sem graça”, já que esse não tem coragem de ousar. “Cada um é cada um. Existe, dentro de nós, uma singularidade reprimida. Temos medo da explosão dessa singularidade, preferimos viver acomodados. Algumas pessoas sofrem muito por adotar uma estética padrão. Essa pessoa torna-se uma cópia, torna-se submissa e sofre quando não se adapta”, explica.

Entretanto, não existe apenas o medo da loucura, existe também o medo dos loucos, talvez uma outra razão que leva o ser a ter medo de se tornar um deles. Quando criança, o homem é obrigado a ouvir coisas dos pais como “se você fizer bagunça, o doido vai te pegar”. Aquela situação fica gravada na memória da criança e ter medo do “doido que vai vir pegá-la” é conseqüentemente ter medo de se tornar um louco, viver no abandono e na exclusão.

Na opinião do psiquiatra Jorge Bichuetti, a loucura está mais próxima da poesia e da mágica da vida. “O comportamento do louco está perto do ócio, da produção a partir do prazer.” Muitos “loucos” dizem coisas que não fazem sentido, mas que se ditas por algum poeta famoso, tornar-se-iam obra de literatura. Ele cita uma frase dita por uma “louca” que, com certeza, poderia ser confundida com uma obra de Fernando Pessoa ou Clarice Lispector: “A loucura é o vazio da solidão de quem ama”.

Ele conta ainda que uma psicóloga observava sempre um louco sentado olhando para o horizonte. Um dia, ela resolveu perguntar: “Mas o que tanto olha?”, e ele respondeu para ela: “Ora, ora, navio entre estrelas”.

Gregório Baremblitt, que dá seu nome à fundação que trata das pessoas marginalizadas pela sociedade devido a algum tipo de transtorno mental, defende a idéia de que “o louco é alguém que renunciou ao mundo dos vencedores e vendedores”.

Jorge Bichuetti cita a frase de Baremblitt e diz ainda que na fundação eles não procuram encontrar uma cura, mas sim emancipar aqueles considerados loucos. A loucura não é mais considerada uma doença, do ponto de vista psiquiátrico, como era considerada há décadas. “Procuramos enriquecer a vida com as expressões da loucura”, filosofa o psiquiatra, acrescentando que o modo correto para entender a loucura é perceber que não somos iguais, que cada um carrega dentro de si algo único: “Louco, não, diferente, sim”.

“Aqui na fundação eles vivenciam um processo de organização do caos interno. Possibilitamos a reinvenção da vida. Cada loucura provoca um desejo de reinventar. Eu enxergo hoje o medo da loucura como uma pedra no caminho. Esse medo é o medo de amar e criar. A vida impede a utopia.”

O psiquiatra completa ainda dizendo que, particularmente, nunca perdeu o medo de ficar normal, embora confesse: “Tenho medo do que chamamos de loucura da antiprodução, que é a de destruição”. E difere as duas loucuras como “a loucura de merda, que é a da destruição. Homens contra homens. E a loucura linda, que é o de sonhar com espontaneidade, viver integrado com flores, bichos e homens”.

A loucura e o medo dela são fundamentadas na cultura capitalista. O medo não fica apenas em cima da loucura, mas também em torno da ousadia, do espontâneo. Bichuetti, se opondo à idéia do medo da loucura, completa dizendo: “Qualquer situação que nos aproxime do limite da capacidade de sobreviver na mediocridade do cotidiano pode abrir portas para o novo”.

“É possível fazer um louco tornar-se normal? Não, mas é possível aceitar o diferente”, finaliza.

Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2008