Forja de Anões
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Ilustração do livro do Doca, que satirizava todos os que ele tinha como alvo de suas criticas
Após o “sucesso” do segundo livro, o jornalista lança alguns outros: Capitalismo e comunismo (1932); Ilusões capitalistas (1932) e Forja de Anões (1940). Neste último ele faz o que chama de “protesto contra a decadência física da mocidade”, causada pela prática de esportes. A principal crítica do autor se dirige ao futebol, pois este seria responsável por produzir sujeitos incapazes de pensar, portanto, inúteis à sociedade. Na concepção de Doca, a fadiga causada pelo excesso de movimento prejudica a atividade intelectual, sendo necessário que as pessoas evitem o desgaste físico. A principal culpada por essa situação seria a classe médica que defende a prática de esportes, assim como a imprensa, que a divulga. O que, segundo ele é tão nocivo quanto a divulgação de suicídios e crimes, pois pode influenciar as pessoas.

Depois de citar inúmeras experiências de cientistas renomados para respaldar essa teoria, ele ainda dá uma receita: “O homem precisa andar, gesticular, falar, cantar e praticar esportes; o esporte, sim. Mas deve fazê-lo em prazo curto, pela manhã, durante 30 minutos no máximo, com arte e serenidade, com elegância e beleza”. Mas antes mesmo de expor suas idéias, no preâmbulo da obra, o autor prevê o descaso das pessoas em relação aos seus pensamentos: “Escrevo, porém, sob a mais dolorosa das impressões: a do desânimo. Ninguém, tenho certeza absoluta, se importará com as minhas palavras, que talvez poderão ter um mérito apenas: o de aumentar o número de meus rancorosos inimigos”.

O mau pressentimento se confirmou. O próximo livro, Pântano Sagrado (1940), faria com que Orlando Ferreira fosse perseguido por um dos homens mais po­derosos e influentes da cidade: Dom Alexandre.

Contexto Religioso
No início do século 20, a cidade era palco de um estri­dente conflito entre espíritas e católicos. João Teixeira Álva­res, presidente do “Circulo Católico”, publicou um livro chamado Seita Maldita – uma coletânea de artigos publicados no jornal Lavoura e Comércio que atacavam espíritas, considerados por ele como um bando de sectários, inimigos da religião e da moral, que deveriam ser dissuadidos pela polícia.

Imerso neste clima de intolerância religiosa, Orlando Ferreira escreveu o seu primeiro livro, Pela Verdade: Catolicismo x espiritismo (1919). Nesta obra, ele argumenta que o catolicismo anda na contramão do cristianismo, baseado em atitudes como a dos padres da época que, com a alta taxa de mortalidade infantil causada pela falta de esgoto e higienização da água, defendiam que não era necessário construir uma rede de esgoto ou tratar a água, mas rezar e fazer procissões.

O historiador Thiago Ricciopo, em sua monografia, Caminhando pelo Pântano Sagrado, deduz: “O que transparece claro na obra é sua preocupação em mostrar que existe uma dife­rença antagônica entre o catolicismo e o cristianismo. Em certa altura desta obra, ele também abre uma crítica à hipocrisia que é a política e também à sociedade ubera­bense, e que todos esses segmentos pertencem ao clã do catolicismo”.

Pântano Sagrado
O momento mais extremado da crítica de Doca contra a igreja foi realizado quando ele publicou o livro Pântano Sagrado (1948), uma obra especialmente dedicada a esmiuçar a vida “imoral” – segundo ele – do clero da cidade. Mesmo já tendo feito alguma coisa nesse sentido em suas obras anteriores, o jornalista decidiu dedicar todo um livro para atacar o catolicismo local. O principal alvo foi, é claro, o bispo Dom Alexandre Gonçalves do Amaral, tido por Doca como a reencarnação de Torquemada, inquisidor espanhol. O jornalista se referia ao bispo através de uma série de apelidos indecorosos: Hiena de Batina, Vaca Brava, Besta Eclesiástica, santarrão e abutre clerical. Doca chegou a fotografar o Bispo e o cônego Isaías, bêbados e com a batina suspensa durante a festa de Nossa Senhora da Abadia. O que para ele era uma prova da degradação moral da Igreja, ou Gestapo Romana, como gostava de dizer.

Pântano Sagrado foi dedicado ao amigo Inácio Ferreira, que também tinha divergências religiosas com Dom Alexandre. O amigo, responsável por revisar o livro, aconselhou que ele retirasse uma parte que falava sobre comunismo, pois, na época, havia uma perseguição ferrenha a comunistas. Mas Doca não deu ouvidos.

Uma passagem interessante descrita no livro foi quando o Correio Católico divulgou uma nota proibindo os fiéis de ler o jornal Lavoura e Comércio, porque este havia feito uma crítica ao padre alemão Carlo Bitner, recém-chegado à cidade. Quintiliano Jardim, dono do jornal, com medo de perder leitores, procurou Dom Alexandre para pedir-lhe perdão e explicar que o autor da nota era seu filho Georges.

Indignado com o episódio, Doca descreve como teria sido o encontro do Bispo com Quintiliano. Este, acompanhado pelo amigo Antônio Zeferino dos Santos, o mediador da situação, foi até a casa de Dom Alexandre e chegando lá: “A fera, ao defrontar-se com Quintiliano, esbravejou, urrou, berrou, arrotou, soltava guinchos terríveis, espalhava perdigotos a granel, agitava nervosamente a cauda, estalava as compridas orelhas, peidava constantemente, dava coices no chão, levantava a poeira, e os assistentes ficaram boquiabertos, estarrecidos”. Enquanto isso, o proprietário do jornal, estava “calado, cabisbaixo, humilhado, trêmulo.” E “a exemplo de Raimundo VI e João Sem Terra, ajoelhou-se aos pés de Dom Alexandre, beijou o seu anel, penitenciou-se, pediu-lhe perdão, prometeu nunca mais escrever contra padres, pediu a bênção episcopal, e, ainda de joelhos, dirige-se ao padre nazista e pede-lhe perdão também.” Concedido o perdão, saiu uma nota de retratação no Lavoura e Comércio, que não perdeu nenhum leitor. Para Doca o jornalista deveria dar o bom exemplo, “o exemplo de coragem e civismo, e não de agachamentos vergonhosos”.

Dom Alexandre, ofendido com o conteúdo do livro, denunciou o jornalista, que foi preso e forçado a publicar uma retratação no jornal Lavoura e Comércio e no Correio Católico, com o pedido de perdão, assegurando que nunca mais iria ofender ao Bispo e nem ninguém de sua família e autorizando que todos os exemplares de Pântano Sagrado fossem queimados. A queima de 900 cópias do livro aconteceu na delegacia por determinação do Juiz de Direito, Dr. Wenceslau.

Em entrevista à Maria Aparecida Manzan, no ano de 1986, Dom Alexandre afirma que Orlando Ferreira fora expulso por Dom Eduardo do seminário e, por isso, tomou raiva de padre, bispo e papa. Entretanto João Bento conta que o primo gostava muito de Dom Eduardo e que, quando questionou o parente sobre seu ódio por padres, ele respondeu: “Não tenho ódio de padre, eu não posso ver a batina. Porque sei que os padres são nossos irmãos. Não tenho nada contra eles. Mas eu não posso é ver batina”. Dom Alexandre admite, na mesma entrevista, que Doca era um exímio escritor, o que está regisrado em suas obras. O jornalista tinha um excelente vocabulário, um grande conhecimento, criatividade para elaborar frases de impacto e uma ironia desconcertante.

As polêmicas em torno desse personagem são inúmeras. No entanto, apesar de sua importância histórica, ele foi condenado ao limbo da história da cidade. O aniversário de 50 anos de sua morte em 2007 não foi lembrado. Seus livros são obras raras de difícil acesso, podendo ser encontradas no Arquivo Publico de Uberaba,na Biblioteca Inácio Ferreira e na Biblioteca Nacional. Morto por insuficiencia cardíaca em 20 de outubro de 1957, seu túmulo não foi encontrado no cemitério Jão Batista, onde foi enterrado. Nos registros velhos e rasgados consta somente o número do jazigo sem a indicação da quadra. Segundo os trabalhadores do local, as numerações foram trocadas algumas vezes e a localização foi perdida. Mas, em compensação, os seus seus inimigos são muito fáceis de achar. As famílias que Doca atacava estão lá, em suntuosas sepulturas que simbolizam o poder tão criticados por Doca.

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Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2008