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Jornalista denunciou “estupidez apavorante” das
elites uberabenses
Através de livros extremamente provocativos, Orlando Ferreira atacou a Igreja, os governantes e as famílias que comandavam a cidade à bala
3º período de Jornalismo Orlando Ferreira (1886-1957), o Doca, foi um livre-pensador que conquistou o ódio das elites de Uberaba devido ao seus violentos protestos contra a decadência da cidade no início do século XX. Nascido em 26 de julho de 1886, Doca foi negociante de gado Zebu, funcionário dos correios e inspetor da 23ª circunscrição literária – composta na época por Araguari, Estrela do Sul, Monte Carmelo, Patrocínio e Uberabinha (atual Uberlândia). Mas este uberabense foi amaldiçoado pela cidade devido a sua atuação como jornalista e escritor. Doca era uma pessoa discreta, quase não falava de sua vida pessoal, não foi casado e não se tem notícia de seu envolvimento em relacionamentos amorosos. Gostava de freqüentar a casa de amigos, como a do médico espírita, doutor Inácio Ferreira, para discutir literatura e trocar livros raros que encontrava nos sebos de São Paulo, Rio de Janeiro ou mandava buscar de Portugal. Ele também gostava muito de conversar sobre comunismo na casa do alfaiate Calixto Rosa, na companhia do professor Alexandre Barbosa. Certa vez, Barbosa recebeu, de um amigo na França, exemplares do jornal do Partido Comunista Francês, “L’Humanité”, com textos que influenciaram decisivamente o movimento comunista em Uberaba, com o qual o Orlando Ferreira mantinha íntima relação. Lucília Rosa, 95 anos, filha de Calixto, se lembra que Ferreira ia à sua casa todos os dias, por volta das 19 horas, para tomar chá e conversar sobre a política e a situação de abandono de Uberaba. Naquela época, faltavam calçadas e as ruas eram sujas, cheias de mato e de animais mortos. Além disso, os amigos comunistas lamentavam profundamente o fato de que a cidade vivia sob a influência política da Igreja e de famílias retrógradas. O espírito inquieto do jornalista não se acomodou e, para expressar suas fortes opiniões políticas, escreveu diversos livros – entre eles, “Terra Madrasta”, lançado em 1928. O jornalista começa a obra dedicando-a à terra natal: “A ti, Uberaba, terra infeliz, desgraçada, prostituída, ofereço este meu modesto trabalho”, e não deixa de declarar seu amor à cidade, que para ele se encontrava naquela situação por culpa de “hediondos carrascos”. Em seguida, expõe todas as mazelas da cidade, como as que foram descritas por Dona Lucília. Ela recorda que na porta de sua casa havia cachorros e galinhas mortas, e que para andar na calçada ela e as irmãs tinham que segurar a barra dos vestidos para não sujá-la. “Eu vivi a Terra Madrasta. Ninguém passava para o passeio de lá, era só barro e sujeira”, afirma. Mas as críticas de Doca não se resumem a isso. Suas palavras se tornavam extremamente agressivas quando partiam para o campo político. “Agora, leitor, tenha paciência: muna-se de uma quantidade boa de ácido fênico ou, na falta desse poderoso desinfetante, leve o lenço ao nariz porque, com perdão da palavra, vou tratar da celebérrima política de Uberaba.” A advertência, já no início do capítulo, dá uma idéia do teor das críticas do jornalista, que não poupa nenhum detalhe do cenário político da cidade. Ele até mostra uma relação de 11 provas das maiores irregularidades administrativas de 1915 a 1925. Tudo baseado em planilhas, testemunhos e jornais que atestam escândalos, roubos, abusos de poder, acordos ilícitos de funcionários executivos que continuavam em cargos públicos, mesmo depois de serem processados e presos por desfalques. Doca também faz uma lista do que ele considera como “forças oponentes ao progresso do município”, seriam elas: A administração; a política; o clero; a empresa Força e Luz; a família Borges; a família Prata; a família Rodrigues da Cunha. Ao mencionar expressamente a Igreja e as famílias mais poderosas da cidade na época, Doca comprou uma briga tremenda. Para embasar as críticas à empresa “Força e Luz”, inaugurada em 1906 e de propriedade privada, o jornalista chega ao extremo de fazer um recenseamento pela cidade. Ele anotou nome e endereço dos residentes, e perguntou a cada um o quanto havia gasto no mês, já que a companhia havia lhe recusado estes dados. Depois de percorrer casas, centros comerciais e indústrias, somou aos dados obtidos os gastos da iluminação pública. Tudo isso para divulgar os lucros da empresa, que ele julga que deveriam ser investidos em melhorias públicas no setor elétrico da própria cidade, e não ir para o bolso dos acionistas. Um deles, inclusive, era o prefeito Geraldino Rodrigues da Cunha. Em “Terra Madrasta”, também há desenhos e fotografias da cidade tiradas pelo próprio autor. João Bento Ferreira, primo de Doca, em entrevista concedida a historiadora Maria Aparecida Manzan no ano de 1986, revelou que o primo chegou a montar o cenário de uma de suas fotografias. Na casa do açougueiro Bruno da Silva, cunhado de Bento, conseguiu pedaços de carne podre e levou para o pasto que havia em frente à casa do coronel Manoel Borges, pertencente a uma das famílias criticadas no livro. E quando os urubus começaram a sobrevoar o pasto ele tirou as fotografias. Segundo João Bento, Doca apontava para a casa do coronel e dizia: ”Aqui está a casa do coronel Manoel Borges, o mandão de Uberaba.” Outra
gravura do livro mostra um mapa do Triângulo mineiro anexado ao
estado de São Paulo. Um dos ressentimentos de Doca era ver as
cidades localizadas no estado vizinho progredindo velozmente,
enquanto Uberaba ficava cada vez pior. Ele pensava que a culpa era da
resignação e ignorância do povo mineiro, o que
seria conseqüência da péssima direção
de vários e sucessivos governos de Minas Gerais. Era de se
prever que Doca iria arrumar muitos problemas com este livro, tanto
que, após o lançamento, ele desapareceu por alguns
anos. |
Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2008 |