Pesadelo Americano
Estudante uberabense atravessa fronteira dos EUA ilegalmente e fica um mês na cadeia

Marília Cândido
3º período de Jornalismo

Marília Cândido
Bruno Eduardo do Nascimento queria ir a New Jersey para reencontrar a mãe e a irmã que moram nos EUA desde 2004.

Não havia nada planejado. Ele até tentara entrar nos Estados Unidos uma vez, com a desculpa de ir à Disney, mas seu visto foi cancelado na hora do embarque, sem maiores explicações. Depois da tentativa frustrada, Bruno Eduardo Leite do Nascimento voltou pra casa e começou a estudar Publicidade e Propaganda na Uniube, com o dinheiro que a mãe mandava de New Jersey todo mês. O sonho de começar uma vida nova, reencontrar a mãe e a irmã, que foram para os EUA em 2004 com visto de turista e por lá ficaram, parecia distante depois disso. Mas ele não iria desistir tão fácil.

Dia 19 de junho de 2006, segunda-feira, a mãe de Bruno ligou: ”Vai sair um grupo na quarta-feira, você quer vir?” Como já havia percebido que pelas vias legais não iria conseguir, o rapaz não pensou duas vezes: aceitou o convite para atravessar a fronteira. Em pouco tempo arrumou as malas e se despediu dos amigos e parentes. E quarta feira, às 7h30, já estava na rodoviária esperando o ônibus para Patos de Minas, onde se uniria a mais quatro pessoas.

Em Patos, ele seguiu para a agência de turismo que negociava viagens ilegais para os Estados Unidos via México. De lá, foi levado pelo dono da agência, que aqui chamaremos de Washington, para o Center Patos Hotel, onde conheceu Zé Geraldo; o Tico, de 21 anos; Edson, o Teco, de 43; Alessandra, de 25; e Fabiana de 17. Bruno tinha 19 anos. À noite o grupo comemorou a união e passaram pela primeira dificuldade juntos: A ressaca provocada pela garrafa de Montilla que Bruno havia levado escondido para o Hotel. Por causa da dor de cabeça a turma nem conseguiu saborear a imensa mesa de café da manhã do Hotel.

No caminho para São Paulo, Washington passou o roteiro da viagem. ”Ele te conta tudo que vai acontecer… teoricamente. Porque na prática ele não sabe p*# nenhuma”, afirma Bruno, relembrando as instruções sobre os cuidados sugeridos e as senhas para identificar os coiotes que faziam parte do bando. O coiote brasileiro ainda repassou U$ 3.800 para cada um. “Esse aqui é o dinheiro que vocês vão entregar pro cara que vai bater na porta do seu apartamento lá na Guatemala.. Você vai chegar no aeroporto da Guatemala, vai passar pela imigração. A polícia vai tentar roubar seu dinheiro. Fica ligado com isso!” Além do dinheiro entregue por Washington, ele não havia levado mais nenhum centavo. O pagamento pela viagem só seria feito nos Estados Unidos, depois que ele fosse entregue para a mãe, que deveria pagar 11 mil dólares à vista e mais 3 mil depois. Se o pagamento não fosse feito os coiotes o denunciariam.

No dia 23, às 3h30, partiram de SP para Guatemala. Nove horas depois, chegaram a capital, Cidade da Guatemala. No aeroporto, Bruno foi o único barrado pelos agentes da imigração. Levaram-no pra uma sala de onde ele podia assistir os colegas passarem tranqüilos pela alfândega, enquanto o oficial fazia ligações. “É do Pancho?” Perguntava o oficial pelo telefone. Depois da confirmação ele foi liberado. “Pancho era o ‘ban ban ban’ do México, que era o dono da máfia”, explica Bruno.

Na saída do aeroporto, aconteceu o que Whashington disse. Um policial parou o grupo e perguntou se havia alguém esperando por eles. Bruno fingiu que não entendia espanhol, mas não adiantou: todos foram levados a uma sala onde tiveram as malas revistadas. Depois, Bruno foi levado sozinho para outra sala. Lá o policial passava a mão na barriga dele e fazia sinal de dinheiro (os imigrantes que passavam por ali costumavam levar dinheiro em pochetes), mas ele havia levado os dólares de Washigton na meia.

Depois de ser perguntado insistentemente por “la plata”, Bruno achou que a saída era falar mais alto que o policial, e gritou: “Que, que é meu irmão? Você tá doido?” e como xingamento se entende em qualquer língua, o policial liberou ele e os outros homens em seguida. Mas as mulheres só foram liberadas 20 minutos mais tarde.

Passada a confusão, encontraram o homem que deveria estar esperando por eles na saída do aeroporto com uma placa escrita “TIKAL”, ponto turístico da Guatemala, como fora combinado. Ele os levara para o Hotel Del viajante.

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Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2008