Consumo e sou consumido
A liberdade de escolha no século 21 virou mais um produto descartável

Michelle Parron

Arranjos de vitrines em shoppings centers são iscas irresistíveis para consumidores compulsivos

Michelle Parron
3º período de Jornalismo

A indústria da moda arrecada bilhões por todo mundo. Ela impera na televisão e influencia milhares de consumidores vulneráveis e sedentos pelas últimas tendências ditadas por ela. Algumas pessoas conseguem administrar bem a moda em suas vidas; já outras não enxergam o quanto isso pode ser uma armadilha para o consumismo descontrolado.
A ex-empresária do ramo de cereais, Evair Campos, tem loucura por vestidos. Ela afirma que basta passar por uma vitrine e ver um modelo bonito para querer adquiri-lo imediatamente. “Quando eu vejo um vestido e, na hora, estou sem dinheiro para comprá-lo, fico com aquilo na minha cabeça, martelando o tempo todo, até que eu consiga o dinheiro e compre. Enquanto não compro, fico rezando pra que ninguém compre na minha frente.” A ex-empresária garante que a sua reza sempre dá certo. Evair é uma consumidora que gasta além do que pode. Mas ela reconhece ser uma consumista e que precisa curar o vício.
Evair não é a única. São vários casos de pessoas que se encontram imersas em uma cultura consumista, estimulada na atual fase do capitalismo. O consumismo, também chamado de “onemania”, é uma doença que se caracteriza pelo ato de comprar indiscriminadamente bens supérfluos pelo simples fato de sentir a necessidade de tê-los, sem que posteriormente se faça uso dessas aquisições.
O consumista é um sujeito que, sustentado pelo ato de comprar, tenta suprir a carência de algum sentimento. Muitos consumistas não se vêem como pessoas doentes que necessitam de acompanhamento psicológico. Para eles, assim como para grande parte da sociedade, consumir desen­frea­damente é algo tão natural que chega a ser visto como uma virtude positiva.
O diretor de criação Diogo Paiva já é um caso diferente de consumo. Ele acredita que tem verdadeira necessidade de adqui­rir roupas de grifes famosas. “O pre­ço da roupa agrega algum valor simbólico, que faz com que nos sintamos melhor ao possuir determinados produtos”. Ele confessa que está sempre no limite no banco por gastar mais do que o necessário, adquirindo roupas de marcas. “Sou infeliz por não ter tudo que quero da moda. Se eu ganhasse mais gastaria mais.” A explicação para isso, diz Diogo, é que ele freqüenta lugares que exigem que esteja vestido com muitos cifrões. A roupa, na sua visão, funciona como passaporte de entrada em determinados círculos sociais. “Quando era mais novo, eu ganhava um salário e cheguei a comprar um tênis de dois salários. Dois meses por um tênis!”
Indústria cultural
Esse tipo de comportamento é comum numa sociedade guiada pela ditadura da indústria cultural. Através de insistentes mensagens publicitárias, a mídia praticamente ordena o que você come, veste e assiste. Ela cria nas pessoas, através da publicidade, um sentimento de vergonha e inferioridade caso elas não possuam o último celular da moda ou os sapatos da grife da qual a atriz da novela é garota propaganda. E como ninguém quer se sentir inferior em relação aos outros, as pessoas imedia­tamente correm até a loja mais próxima para abafar essa sen­sação de vergonha.
Segundo a Associação Ame­ricana de Psiquiatria o consu­mismo afeta 1% da população mundial. O que a indústria do consumo faz é criar uma aura nos objetos ao ponto de sas pessoas se sentirem melhores ao possuí-los. E quando as pessoas são privadas de tê-los, sentem-se excluídas, frustradas, depressivas e infelizes. Enquanto pensamos que estamos consumindo, na verdade somos consumidos pela Indústria Cultural que, de acordo com filósofo Theodor Adorno, impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente. O homem, na Indústria Cultural, não passa de mero instrumento de trabalho e de consumo, ou seja, um objeto, afirma Adorno. Logo, cria-se uma falsa necessidade, através dos comercias de televisão, que impulsionam as pessoas a gastaram sem precisarem. E com isso a propaganda atinge seu objetivo primordial: vender.
Maria Elvira é professora e apaixonada por sapatos. O motivo dessa paixão vem da infância. “Quando eu era criança e morava na fazenda não tinha condições de comprar sapatos”. Assim, quando ficou adulta começou a comprar muitos calçados. Maria Elvira não tinha controle nos gastos que fazia. Assim como Evair e Diogo, ela também já gastou mais do que podia fazendo compras. Mas chegou certo momento que ela, através de ajuda espiritual, viu que há coisas mais importantes e de maior prioridade na vida. Hoje ela afirma ter melhorado 90% e que não é mais uma pessoa consumista.
Na verdade, o ato de consumir não é, por si só, condenável. Basta que se tenha equilíbrio e consciência na hora de abrir a carteira. Em alguns países, como nos Estados Unidos – a nação mais consumista do planeta – existem grupos de auto-ajuda para pessoas que sofrem com o consumismo. Esses grupos surgiram em 1968 e são chamados de Devedores Anônimos, tendo a mesma função dos Alcoólicos Anônimos, por exemplo. Atualmente, somam mais de 500 grupos espalhados pelo mundo todo. No Brasil, o primeiro grupo foi criado há 9 anos; porém, não existem estatísticas oficiais a respeito do número total de consumistas no Brasil.
Campanhas não faltam para conscientizar as pessoas do risco do consumismo. Os Adbusters, um grupo que pratica ativismo a favor de uma mídia mais inteligente e de uma sociedade menos consumista, criou o Buy Nothing Day (adbusters.org/metas/eco/bnd), ou seja, o Dia de Não Comprar Nada. Nesse dia, comemorado todo ano no final do mês de novembro, os cidadãos são desafiados a desligarem-se do consumismo e fazer uma reflexão sobre suas reais necessiddaes de adquirir produtos.
O primeiro passo para que a pessoa consiga amenizar o seu impulso consumista é se aceitando como tal. Se ela percebe que está passando dos limites, como por exemplo, deixando o saldo no banco negativo todo mês, gastando mais do que seu orçamento permite, já é a primeira etapa do tratamento.

Curso de Comunicação Social/Universidade de Uberaba - 2008