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O banheiro virou atelier!
Portas de sanitários de escolas se transformam em painéis de expressões artísticas
Marília Cândido |
Paulo Fernando Borges
3º período de Jornalismo
Quando eu tinha 11 anos de idade, toda hora pedia licença à professora para que eu pudesse sair da sala. Naquela época eu não conseguia me controlar e, com muita freqüência, precisava correr ao banheiro. Eu visitava o banheiro pelo menos quatro ou cinco vezes durante o período de aula, que durava das 7h30 as 11h.
Por conta de tantas visitas, o banheiro da escola tornou-se, para mim, um lugar muito familiar; muito mais do que um simples local onde se pode realizar as necessidades fisiológicas. Porém, apesar de o banheiro daquela saudosa escola ser extremamente asseado, faltava algo; faltava cor; faltava vida...
Foi então que resolvi que eu tinha que fazer algo para que aquele espaço ficasse mais alegre. Mas, o quê? Pensei, pensei, pensei... e de repente uma voz muito familiar veio ao meu encontro: ‘Alexandre, por que está demorando? Está fazendo arte aí dentro, não é?’. Pronto! É isso! Faltava arte naquele banheiro! Ah! A voz era da minha professora.
Pois bem, resolvi que a partir de então eu iria escrever e desenhar dentro do banheiro. O resultado foi fascinante. Afinal, a arte contagia as pessoas, sejam elas crianças ou adultos. Após algum tempo, outros alunos começaram a escrever perto dos meus escritos ou desenhos. Lembro-me de uma ocasião em que comecei a escrever algo e não terminei, pois não queria que a professora viesse atrás de mim; então quando eu voltei, pude ver que alguém havia colocado um final muito interessante no verso que eu ainda não tinha terminado. Outra vez, um aluno desenhou o Batman ao lado do Super-Homem que eu havia desenhado nos azulejos branquinhos. Percebi que o banheiro virou atelier!
Essa história nos foi contada pelo Auxiliar de Produção, Alexandre Oliveira, 23, mas poderia ser a de qualquer um que já tenha experimentado desenhar, escrever ou rabiscar qualquer coisa interessante nos banheiros. Mas você deve estar pensando: banheiro não é lugar para essas coisas! Mas saiba que, para muitas pessoas, o aspecto mágico da arte e da comunicação é que elas não têm lugar pré-definido para acontecer. E saiba também que, para muitos pesquisadores sérios, a comunicação feita através dos banheiros é, sim, um movimento artístico que, quando feito sem vulgaridade, deve ser apreciado e valorizado.
Para verificar o estado da arte dessa forma de expressão, decidimos fazer uma pesquisa de campo nos banheiros masculinos da Uniube. Imediatamente verificamos que, mesmo com o incessante trabalho do pessoal da limpeza, foi possível encontrar mensagens artísticas, desenhos, e todo tipo de comunicação feita através nas portas e paredes dos banheiros dos homens. Evidentemente, encontramos também recadinhos de pessoas cheias de amor pra dar – e vender. Basta ver a declaração que encontramos em um desses toaletes: “Gosto de você! Homem ou mulher!”. Logo abaixo da declaração, vinha o e-mail do apaixonado. Porém, apesar de enviarmos várias mensagens, não recebemos, ainda, nenhuma resposta.
Por outro lado, no banheiro do bloco N, verificamos que haviam desenhado por toda parte a suástica do Nazismo. Sendo que, em um desses símbolos, mais precisamente no que estava desenhado em frente a pia, outra pessoa chegou e escreveu bem grande e vermelho para que todo mundo pudesse ler: “Idiotas!”. Ora, houve, então, uma troca de idéias, uma comunicação entre aquele que colocou o símbolo e aquele que o criticou.
Wilton Barbosa, 24, estudante de Biomedicina, conta que também existem muitas mensagens vulgares nos banheiros da cidade. “O que mais se vê são mensagens pornográficas”, declara Barbosa. “Mas, também tem muita piada e coisa engraçada.” Já Leandro Alves, estudante de Publicidade, diz que vê muitos telefones para ligar, mas nunca teve a curiosidade de fazer. Ele observa que a maioria das mensagens é perda de tempo. “Tipo aquela que você vai lendo, lendo, lendo e no final diz assim: quem está lendo isso é um babaca”.
Apesar de uns acharem interessante, engraçado e outros considerarem tudo isso como arte, há quem discorde. Odete Cristina, estudante de Jornalismo diz que o ato de escrever ou desenhar em banheiros é uma forma de vandalismo, geralmente praticado por pessoas fúteis. Mesmo assim ela acredita que é uma forma desses “vândalos” exporem suas idéias e opiniões mais íntimas, as quais não teriam coragem de expressar abertamente, já que no banheiro não existe a necessidade da assinatura daquilo que se fez.
Gustavo Barbosa, em seu livro Grafitos de Banheiro: a literatura proibida (Editora Anima, 1986), diz que a produção de grafitos nos banheiros serve à comunicação humana como um canal de expressão escrita disponível a todos, ou um meio alternativo ao monopólio dos superveículos massificadores. Sem limite de censura externa e acessível a todos, torna-se um palco discreto de confidências.
Contudo, foi possível notar algo muito interessante nos banheiros masculinos: são bem menos rabiscados do que imaginávamos e bem menos do que os banheiros do sexo oposto. E quando encontramos algo, ficou evidente que os “meninos” preferem muito mais escrever nos banheiros para se divertir e expressar idéias do que para atacar e ofender uns aos outros. Mesmo assim, as mensagens de cunho sexual são predominantes.
Mas é importante ressaltar que escrever ou desenhar nos banheiros não é uma prática autorizada pela direção das escolas. Dependendo do regulamento, o aluno pode até mesmo receber alguma punição pelo ato de vandalismo. Para aqueles que gostam de escrever suas idéias, um blog é sempre mais recomendável. Até porque os recados de banheiro não duram muito e, além disso, sua mensagem será sempre associada a um ambiente pouco propício para a contemplação estética...
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