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A gazeta do sanitário
Portas de banheiros femininos viram central de notícias, fofocas e classificados amorosos...
Maria Gabriela Brito
3º período de Jornalismo
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| Renata Vendramini (esquerda), Livia Zanolini (direita). |
Para nós, mulheres, ir ao banheiro em lugares
públicos é um problemão, já que não
fomos abençoadas com o dom de fazer xixi em pé e, por
isso, temos que ficar nos equilibrando como atletas olímpicas
em cima do vaso sanitário. No entanto, uma visita ao toalete
também pode ser divertida, principalmente quando esse banheiro
é freqüentado por estudantes. Os jovens têm uma
irresistível mania de escrever na porta desses locais e,
talvez inspirados pelo momento tão especial, deixam
registradas diversas mensagens pessoais, reflexões filosóficas
ou mesmo fantasias eróticas...
Na verdade, há milhares de anos o hábito
de escrever em paredes já faz parte da natureza humana. Os
homens das cavernas já faziam isso, como forma de registrar
acontecimentos cotidianos e invocar os deuses da natureza. O jovem do
século 21 apenas atualizou o hábito e procurou uma
forma mais sigilosa de expressar seus sentimentos – já que
ali, naquela porta, ninguém nunca saberá quem escreveu
o quê...
Entrar em uma cabine de banheiro e se deparar com um
rascunho tosco de um órgão sexual masculino grafitado
na porta já faz parte da rotina de qualquer usuário de
banheiros públicos do planeta. E evidentemente, também
é muito comum avistar uma seta puxada do desenho com a palavra
“eca”. E é interessante observar que, dependendo do lugar,
os assuntos variam bastante. Nas cabines do banheiro feminino do
Bloco J da Uniube, por exemplo, os grafitos que mais aparecem são
com assuntos sobre homossexualidade. Certamente um sintoma da
presença de movimentos gays no pedaço. Nos banheiros do
bloco de Direito, certa vez alguém escreveu: “O despachante
é o advogado que deu errado. Deus é o que deu certo”.
Segundo um professor da Uniube, no banheiro da Faculdade de História
da Unesp tem uma mensagem assim: “Jesus é o Senhor...
feudal”.
Lívia Zanolini, estudante de jornalismo, diz que
grafitar no banheiro é uma maneira legal de se expressar. Mas
apesar disso, ela acredita que as pessoas que escrevem em portas de
sanitários têm vergonha de mostrar quem são.
“Elas escrevem lá, mas em um grupo maior de pessoas, se
escondem, têm vergonha de revelar sua verdadeira identidade,
são hipócritas.” Ao contrário dela, a colega
Renata Vendramini acha essa prática ë “constrangedora”
e ao mesmo tempo “ridícula”, pois, para ela, a maioria das
coisas que estão escritas lá são pornográficas.
“Você vai lá pra fazer seu xixi e é obrigada a
ler coisas inconvenientes”.
Uma estudante do curso de Agronegócios que
preferiu não se identificar acha que o grafite de banheiro é
uma forma de expressão totalmente inútil. Ela dá
como exemplo as meninas que perdem seu tempo escrevendo coisas do
tipo “Eu amo o Lucas”, ou algum outro sujeito qualquer. “O
Lucas nunca vai ler isso! Está escrito na porta do banheiro
feminino!”, ironiza a estudante. Ela conta outras coisas engraçadas
que já viu: “Uma vez eu li: ‘Eu vou voltar no dia
29/02/2008 às 21:30 para te matar’. Até olhei no
relógio pra saber que dia e que horas eram!” (risos).
Segundo um estudo desenvolvido na USP pelas
psicólogas Renata Plaza Teixeira e Emma Otta, as
inscrições feitas em lugares públicos não
podem ser consideradas simplesmente uma mensagem “sem sentido”
ou apenas um ato de vandalismo. A porta do banheiro é uma
oportunidade para que a pessoa tenha passe livre para se expressar da
forma que quiser. As pesquisadoras argumentam que existe diferença
de gênero e até de cultura na hora de grafitar no
banheiro. Outros pesquisadores já compararam inscrições
produzidas em banheiros masculinos dos Estados Unidos e das Filipinas
e constataram que a alta porcentagem de grafitos de conteúdo
homossexual nos Estados Unidos reflete o elevado grau de conflito
relacionado à homossexualidade naquele país.
E quem limpa essa bagunça?
Para falar de grafites de banheiros, não podemos
deixar de consultar a opinião de um grupo muito especial –
provavelmente, formado por pessoas que mais convivem com os escritos:
estamos falando das zeladoras. São elas que mantêm a
organização, a higiene dos sanitários e, é
claro, que tentam limpar os rabiscos das portas. As zeladoras que
cuidam dos 32 banheiros da Uniube confessam que não presta
mais atenção nas mensagens. “É tanto rabisco,
coisas pornográficas escritas, que já até
acostumei”. Dizem ainda que até entendem porque as
pessoas escrevem ali: “É uma forma de desabafar, talvez seja
carência, falta de amor, uma forma de colocar a raiva pra fora.
A gente até tenta apagar, mas não vence, é só
apagar que escrevem de novo”. Quando é perguntado a elas
quais banheiros são “piores”, não hesitam e
concordam que são os do Bloco N; entretanto, lembram que o
banheiro da biblioteca também não fica atrás,
por ser muito freqüentado.
Telefones
Além de desenhos, mensagens, recadinhos e tudo o
mais que é possível ser encontrado na porta de um
banheiro, também existem diversos números de telefones
convidando o leitor para mil e uma aventuras. Em geral, alguns fazem
propaganda de programas sexuais e outros só procuram safadezas
sem compromisso. E se você, leitor, sempre teve a
curiosidade de ligar para esses números, mas lhe faltou
coragem, a reportagem do Revelação fez o trabalho sujo
para você. Nós entramos em contato com vários
números grafitados nas portas de banheiros e conversamos com
as pessoas donas dos celulares. Os resultados foram incrivelmente
engraçados.
Primeiramente, todos os telefones que estavam rabiscados
no banheiro feminino pertenciam a homens. Mas o mais curioso é
que nenhum deles tinha a menor idéia de que os números
de seus celulares estavam escritos em portas de banheiro. Ao serem
informados que seus nomes estavam circulando anunciando programas
eróticos, todos ficaram surpresos. Alguns foram até
educados ao receberem a ligação com reações
do tipo “O queeeee?!?!?”. Outros não deram muito papo e
alguns ficaram chocados: “Do que você está falando?!”.
Um dos telefones estava desligado e o único número de
telefone fixo era de um orelhão. Uma pessoa que atendeu uma
das ligações disse que o número não era
dele, mas sim de um lavador de batatas, que não podia
atender porque estava lá, “lavando batatas”... Vai
entender...
A partir daí, chegamos a uma conclusão: os
usuários de banheiros não devem acreditar nas
propagandas escritas nas portas. Com certeza são
“brincadeiras” de amigos ou desafetos ou, talvez, uma pequena
vingança de ex-namorada frustrada. |