A história escrita pelos ares

100 anos depois do vôo pioneiro de santos Dummont, grupo de pesquisadores de Caldas Novas constrói réplica do 14 bis para comemorar o centenário

Reprodução

O brasileiro Santos Dummont alcançou renome internacional com a invenção do avião em 1906.


Wander Montandon já participou da construção e apresentação aérea de outras réplicas em 1976.

Gisele Barcelos
3º período de Jornalismo

Em 23 de outubro de 1906, Paris presencia o momento mais importante da história da aviação. O brasileiro Santos Dummont faz o primeiro vôo de uma aeronave mais pesada que o ar: o 14-bis. Ele consegue sair do chão e voar 60 metros pelo campo de Bagatelle, em Paris, sem o uso de qualquer recurso externo. No ano de 2006, a façanha completa 100 anos.

Para não deixar a ocasião passar em branco, um grupo de Caldas Novas (GO), o CN 14 BIS, composto por cinco pessoas construiu no ano passado a réplica mais perfeita do primeiro avião da história feita até hoje. O projeto, chamado 14 Bis Cem Anos Depois, foi idealizado por Alan Calassa. Apaixonado por aviação desde criança, ele é piloto há 25 anos e decidiu, em 2002, aproveitar o centenário para reconstiuir o vôo pioneiro de 1906. Começou, então, uma extensa pesquisa de fotos e documentos da época para iniciar a construção do aparelho. Usando recursos próprios, o empresário construiu um hangar em Caldas e comprou uma moita de bambú da Índia em Corumbaíba (GO) para montar a estrutura da aeronave. Mas ainda faltavam algumas peças para concretizar o projeto.

Em agosto de 2004, Alan conheceu o piloto Hélder Bósi numa feira de aviação em Araguari (MG) e encontrou nele as habilidades que o tornaram o piloto ideal para a réplica. Formado em Ciências Aeronáuticas pela Uniube, Hélder foi aluno de Wander Montandon, engenheiro aeronáutico que construiu e voou em uma réplica do 14 bis em 1973, na comemoração do centenário do nascimento de Santos Dummont. O piloto falou do ex-professor e da sua participação no projeto de 73 e Alan Calassa o convidou para se juntar ao grupo. Para completar a equipe, o físico Henrique Lins de Barros, pesquisador do centro brasileiro de pesquisas físicas (CBPF) e autor de vários livros sobre Dummont e seu trabalho, e a jovem Aline Canassa, que pilota ultraleve desde os 12 anos e vai representar a importância da mulher na aviação, foram chamados para entrar no projeto. Aline e Hélder seriam os pilotos da réplica, mas o rapaz saiu da equipe.

A partir daí, eles iniciaram a construção da réplica em 29 de agosto. "Graças à pesquisa que Alan tinha iniciado há uns dois anos atrás pudemos juntar os conhecimentos de Henrique de Lins Barros e fazer a cópia fiél, nas mesmas medidas", diz Montandon. A reconstituição foi feita a partir de fotografias, filmes e relatos da época porque Santos Dummont não deixou nenhuma planta do 14 Bis. Calassa analisou as imagens com lupa e paquímetro, tomando como referência o tamanho do aviador para tirar as medidas reais. Duas outras réplicas já foram construídas anteriormente: uma em 1956, para comemorar os cinqüenta anos do avião pioneiro, e outra em 1976, pelo centenário de nascimento de Santos Dummont. No entanto, a falta de tempo para pesquisa impediu a reconstituição perfeita do 14 Bis em ambas as situações. Apesar de terem aparência semelhante ao avião original, o material utilizado na montagem era mais moderno para proporcionar maior segurança durante os vôos. Os motores também eram totalmente diferentes do modelo de Dummont.

Wander Montandon conta que na verdade houve uma grande coincidência. "Recebi o telefonema do Alan numa terça-feira me convidando para colaborar no projeto e, no dia seguinte, o brigadeiro Bhering, diretor do Museu Aeroespacial, me ligou falando do Ano da Cultura Brasileira na França. ", diz. Cada ano o governo francês homenageia um país com diversos eventos ao longo do ano. Em 2005, é a vez do Brasil. "Não tem como falar em cultura brasileira na França sem falar em Santos Dummont", explica o professor. Para isso, o governo brasileiro decidiu apresentar uma réplica do 14bis para exposição estática no show aéreo em Le Bourget, em junho de 2005. Durante as comemorações, o presidente Lula vai oficializar a doação da aeronave para o Museu do Ar e do Espaço, na França.

Bhering procurava quem pudesse fabricar uma réplica igual a original. De todos os projetos em andamento analisados pela Aeronáutica, o mais indicado foi o do CN 14 BIS. Isso porque o grupo buscou utilizar os mesmos materiais da primeira versão, exceto pelo motor. Assim, em novembro de 2004, o projeto tornou-se iniciativa oficial do governo brasileiro. Aceitando o desafio, a equipe de Alan Calassa adaptou-se à nova situação e acelerou a construção do avião.

Para o lançamento do centenário no Brasil, que se inicia em 23 de outubro de 2005, o CN 14 BIS constrói uma segunda réplica. A aeronave estará pronta para voar somente em sete de setembro de 2006 — dia da independência do Brasil. O vôo comemorativo provavelmente será realizado ao longo da Esplanada, em Brasília.

O governo brasileiro prepara uma série de eventos para valorizar a história nacional e divulgar entre os brasileiros a vida e obra de Santos Dummont. Segundo Montandon, essa é a oportunidade de reforçar entre os brasileiros a identidade de Dummont como pai da aviação. "muita gente não sabe quem foi Santos Dummont. Tem até algumas pessoas que acreditam que foram os americanos, os irmãos Wright, quem inventaram o avião!", ressalta. E continua: "dizem que ele era um filhinho de papai, um riquinho que queria brincar de voar. Na verdade, ele foi um gênio. Entre os contemporâneos dele, muitos tentavam voar e quando ele conseguiu, todos utilizaram o método dele. Por isso, quanto mais falarmos de Santos Dummont melhor!", finaliza o piloto.

A Embraer financiou cerca de R$ 375 mil para a construção da primeira réplica, através de recursos da Lei Rouanet — aprovada dentro do Ministério da Cultura que incentiva a doação de 4% do Imposto de Renda para investimento em cultura. A segunda aeronave ainda não tem patrocínio, mas Wander Montandon acredita que o governo federal arcará com as despesas. A construção, no entanto, já está em andamento. O empresário Alan Calassa providenciou um empréstimo bancário para não atrasar o projeto.

E os irmãos Wright?

O aviador e cientista Santos Dummont

 

UNIUBE - Universidade de Uberaba/Curso de Comunicação Social - Jornalismo