Carne orgânica é debatida em Uberaba

Pesquisa feita por alunos de Gestão em Agronegócios da Uniube mostra a opinião dos uberabenses sobre o assunto



O boi é um boi ecologicamente correrto. A homeopatia é utilizada até para combater moscas e parasitas, como vermes e carrapatos.

Gisele Barcelos
3º período de Jornalismo

A feirarte, o mercado municipal e o shopping uberaba foram o palco da pesquisa realizada pelos alunos de Gestão em Agronegócios da Uniube sobre a carne orgânica. Orientados pelo professor Luiz Antônio Josahkian, os estudantes entrevistaram alguns frenquentadores dos locais citados para descobrir se o produto teria potencial no mercado uberabense e o perfil dos possíveis compradores.

Os alunos optaram por fazer a pesquisa em três locais para atingir pessoas de níveis de renda variados. O resultado das entrevistas apontou o possível consumidor como homens e mulheres de classe média na faixa dos 31 a 60 anos que querem uma alimentação mais saudável. "Esse não é um produto para massas e sim para um nicho de mercado", afirma Luiz Antônio Josahkian. Ele explica que a carne orgânica é cerca de 40% mais cara que a tradicional porque produz menos por unidade de área e por ainda ser pioneira no Brasil.

No entanto, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil, ACNB, pretende explorar o mercado crescente para os produtos orgânicos, muito valorizado a nível internacional. Um exemplo disso, são os países europeus que demonstram um interesse cada vez maior por consumir alimentos produzidos sem nenhum tipo de aditivo químico. Em Uberaba, ainda não está disponível devido aos altos custos de produção.

A maioria dos entrevistados (66%) admitiram não saber o que era a carne orgânica. "Quando a gente conversou com os açogueiros eles ficaram interessados, acharam que éramos revendedores. Não conheciam o produto e trabalham no ramo", comentam os alunos Rogério Lima Félix, Sílvio Dias de Sousa e Ueno Neto.

Vilmar Beltrão é açogueiro há sete anos e nunac ouviu falar em carne orgânica. Ele diz que nenhum de seus fregueses perguntou por esse produto até então (eu havia sido a primeira pessoa!). Segundo ele, a falta de divulgação da mídia justifica esse comportamento.

Depois de ter explicado ele o que era a carne orgânica, perguntei se era interessante para o açougue e ele respondeu: "só se não atrapalhasse às vendas da tradicional. Se eu comprar um boi orgânico, não vou conseguir vender ele num todo. O rico compraria a picanha, mas não a costela. E o comprador de costela não tá nem aí se é mais saudável ou não, ele quer o mais barato! Aí eu fico com a mercadoria empatada, tentando empurrar para alguém e sem poder comprar outra". Beltrão ainda explica que a rotatividade é que garante o lucro, portanto se ele não vende rápido o produto é prejuízo. Ele diz que mesmo com todas as vantagens da carne orgânica, o preço éum problema. "É mais fácil parar decomer carne!", riu.

Mesmo nos grandes supermercados, ainda não se cogita quando o produto poderá ser encontrado nas prateleiras. Alexandre Gabriel de Lima, subgerente do Supermercado Veneza, conta que o estabelecimento já tem disponível o leite orgânico, mas nada sabia sobre a carne. "Ainda não tem porque não tem consumo. Não é viável, é uma carne cara", completa.

Os consumidores também divergem em opiniões. O funcionário público Ronaldo Ferreira conhecia o produto mas não o compraria: "já tem muita carne boa, não precisa disso não". A professora Marluce Rodovalho pensou que se tratasse da carne de soja. Ao final, mesmo sendo vegetariana, disse que preferiria o orgânico nas refeições de sua família por ser mais saudável.

Que negócio é esse?

A carne também pode ser produzida de forma orgânica, assim como outros alimentos. O mel, o leite e as hortaliças são os mais populares. Não há diferença na aparência, cor, paladar ou maciez da carne orgânica em relação à convecional, mas esse novo produto tem algumas características pecualiares em sua forma de produção, que requer cuidados ambientais e sociais dos pecuaristas e frigoríficos.

O sistema de produção orgânica de carne bovina usa remédios homeopáticos para controle de doenças, sem pesticidas, e pastagens tratadas somente com compostos orgânicos ao invés de fertilizantes industriais e agrotóxicos, abolindo a utilização de hormônios e suplementos vitalícios. Mas segundo Luiz Antônio Josahkian, o rótulo "orgânico" vai além da forma de criação do animal e abrange a preocupação com aspectos ambientais e sociais, como: o tratamento dos resíduos produzidos no frigorífico, a utilização racional dos recursos hídricos e do solo, a preservação dos mananciais e a exploração do trabalho humano. Um exemplo de norma fora do estrito contexto da produção é a exigência de que todas as crianças da fazenda frequentem a escola.

Para receber o selo de qualidade, é preciso que os produtores e a indústria passem por uma inspeção para verificar na prática se as regras para a produção de um produto orgânico estão sendo cumpridas.

Dentre os diversos motivos para optar pelo "boi orgânico" estão a conservação ambiental, a independência de insumos de empresas capitalistas e a preocupação com o bem-estar dos animais. No entanto, a possibilidade de uma alimentação mais saudável encabeça a lista de vantagens. 59% dos entrevistados comprariam a carne orgânica para não correr o risco de consumir produtos químicos indiretamente. Por outro lado, o preço seria um problema para 62% dos entrevistados.

Parece mas não é!

Embora tanto o boi verde quanto o boi orgânico tenham o objetivo de divulgar o gado brasileiro nos mercado interno e externo como um boi ecológico, eles apresentam grandes diferenças nos métodos de manejo.

Apesar de também desfrutar da criação a pasto como nos sitemas agroecológicos, o "boi verde" é avesso ao orgânico. O uso de adubos sintéticos solúveis, de antibióticos e medicamentos alopáticos é permitido. E a suplementação alimentar feita no confinamento se vale de plantas (milho, cana-de-açucar, por exemplo) originadas em sistemas convencionais de produção, em que é feita a adubação química.

 

 

 

 

UNIUBE - Universidade de Uberaba/Curso de Comunicação Social - Jornalismo