Nova história cultural e micro-história: uma breve reflexão de suas origens

Mozart Lacerda Filho
Psicólogo, Historiador e Especialista em História da Filosofia

Não é preciso ser um historiador muito atento (aliás, nem é preciso ser historiador) para observar que a produção historiográfica produzida no Brasil, principalmente nos últimos dez anos, passou por mudanças mui significativas. O surgimento de revistas especializadas (no mínimo 3 títulos rivalizam-se nas bancas mensalmente), a constante adaptação de textos de história para a televisão, o lançamento de livros com temas nunca antes imaginados (como é o caso da obra de Jean-Luc Hennig, Breve História das Nádegas, publicado pela portuguesa Terramar), exemplificam essas mudanças.

Aqui, neste artigo, discutiremos uma nova forma de se abordar os eventos históricos chamada Nova História Cultural. A escolha se justifica, uma vez que, dos novos modelos historiográficos, é, justamente, a Nova História Cultural, que mais consegue trazer novos ares ao trabalho do historiador.

Para justificar essa afirmação, basta observamos o esgotamento das explicações oferecidas por modelos teóricos globalizantes, com tendências à totalidade, nos quais o historiador era refém da busca da verdade. Essas explicações globais, por sua incapacidade de interpretar novos agentes históricos, passaram, portanto, a ser questionados. Outro dado que justifica nossa investigação, nos é dado por Sandra Jatahy Pesavento (2002, p. 7/8), Segundo ela, a Nova História Cultural

corresponde hoje, a cerca de 80% da produção historiográfica nacional, expressa não só nas publicações especializadas, sob forma de livros e artigos, como nas apresentações de trabalhos, em congressos e simpósios ou ainda nas dissertações e teses, defendidas e em andamento, nas universidades brasileiras.

Entremente, não ficaremos apenas na Nova História Cultural. Abordaremos também, alguns aspectos da Micro-história, uma vez que esta é um desdobramento teórico intimamente ligado ao surgimento da Nova História Cultural.

O arcabouço intelectual que vai dar origem à Nova História Cultural está intimamente ligado ao surgimento, no final da década de 1920, na França, de uma nova forma de se pensar as questões historiográficas, identificada como História das Mentalidades.

Essa nova forma de se interpretar os fatos históricos, buscava fugir da história historicizante: uma história que se furtava ao diálogo com as demais Ciências Humanas, a antropologia, a psicologia, a lingüística, a geografia, a economia, e, sobretudo, a sociologia.

No lugar desse tipo de manejo dos fatos históricos, era preciso adotar, segundo Vainfas (2002, p. 17):

uma história problematizadora do social, preocupada com as massas anônimas, seus modos de viver, sentir e pensar. Uma história com estruturas em movimento, com grande ênfase no mundo das condições de vida material, embora sem qualquer reconhecimento da determinância do econômico na totalidade social, à diferença da concepção marxista da história. Uma história não preocupada com a apologia de príncipes ou generais em feitos singulares, senão com a sociedade global, e com a reconstrução dos fatos em série passíveis de compreensão e explicação.

Entretanto, muitas críticas vão se insurgir contra os defensores da História das Mentalidades. A mais comum e corrosiva dessas críticas é de que a História das Mentalidades torna multi-fragmentado o seu objeto de estudo. Isto é, "a chamada História das Mentalidades abriu-se de tal modo a outros saberes e questionamentos que, no limite, pôs em risco a própria legitimidade da disciplina", conforme assegura Vainfas (Idem, p. 55/56).

Acuada por críticas de diversas formas, a História das Mentalidades refugia-se na chamada Nova História Cultural. Se utilizamos a expressão Nova História Cultural é para separá-la daquilo que convencionou-se chamar de Velha História Cultural. Segundo Pesavento (2004, p. 14/15), na Nova História Cultural

Foram deixadas de lado concepções de viés marxista, que entendiam a cultura como integrante da superestrutura, como mero refluxo da infraestrutura, ou mesmo da cultura como manifestação superior do espírito humano e, portanto, como domínio das elites. Também foram deixadas para trás concepções que opunham a cultura erudita à cultura popular, esta ingenuamente concebida como reduto do autêntico. Longe vão também as assertivas herdeiras de uma concepção da belle époque, que entendia a literatura e, por extensão, a cultura, como o sorriso da sociedade, como produção para o deleite e a pura fruição do espírito.

A Nova História Cultural, portanto, está trazendo uma nova forma da história tratar a cultura. Ainda segundo Pesavento (Idem, p. 15):

Não mais como uma mera história do pensamento, onde estudava-se os grandes nomes de uma dada corrente ou escola. Mas, enxergar a cultura como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo.

A Nova História Cultural, por tudo que foi acima mencionado, vai fazer ressalvas (sem no entanto negá-lo) ao conceito de mentalidades por classificá-lo ambíguo e excessivamente vago. No entanto, a Nova História Cultural não nega a aproximação com as outras Ciências Humanas, admite o conceito de longa duração e aceita os temas do cotidiano. Conforme assegura Vainfas (2002, p. 56):

Os historiadores da cultura (...), não chegam propriamente a negar a relevância dos estudos sobre o mental. Não recusam, pelo contrário, a aproximação com a antropologia e demais ciências humanas, admitem a longa duração e não rejeitam os temas das mentalidades e do cotidiano.

Além disso, a Nova História Cultural quer também se aproximar das massas anônimas. Podemos, portanto, afirmar que a Nova História Cultural revela uma especial afeição pelo informal, por análises historiográficas que apresentem caminhos alternativos para a investigação histórica, indo onde as abordagens tradicionais não foram.

E foi neste mar de possibilidades novas que vários historiadores passaram a navegar. Um dos mais importantes e que, primeiramente, merece destaque é o italiano Carlo Ginzburg, que em 1976 lança uma obra ímpar da Nova História Cultural (e por que não dizer, da Micro-História também), intitulada "O queijo e os vermes". Nela, o autor discorre sobre um moleiro condenado como herege pela Inquisição Papal no século XVI. Podemos considerar essa obra uma obra-síntese, uma vez que foi nela que Ginzburg abandonou o conceito de mentalidades (as razões, já discutimos acima) e adotou o de cultura, definindo-a como "o conjunto de atitudes, crenças, códigos de comportamento próprios das classes subalternas em um certo período histórico" (GINZBURG, 1986, p. 16).

Decorre desta definição ser possível, agora, recuperar o conflito de classes em uma dimensão sociocultural, deixando-se entrever no campo das discussões teóricas aquilo que o historiador italiano chamou de circularidade cultural, conceito que se opõe ao velho paradigma cultura popular X cultura erudita.

Outro pensador da Nova História Cultural que nos chama atenção é Roger Chartier. Este, pertencente a uma geração contemporânea do declínio das mentalidades na França. Chartier concorda com as discussões lançadas por Ginsburg por também rejeitar a visão dicotômica cultura popular X cultura erudita em favor de uma visão, digamos, mais abrangente, que, no limite, valoriza o dimensionamento da cultura em termos de classes sociais. Para tanto, ele propõe um conceito de cultura como prática, e sugere para seu estudo as categorias de representação e apropriação.

Representação analisada como algo que permite ver uma coisa ausente e que, segundo Chartier seria mais abrangente que o conceito de mentalidades, uma vez que o ausente em-si não pode mais ser visitado. Segundo Pesavento (2004, p. 40):

Representar é, pois, fundamentalmente, estar no lugar de, é presentificação de um ausente; é um apresentar de novo, que dá a ver uma ausência. A idéia central é, pois, a da substituição, que recoloca uma ausência e torna sensível uma presença.

Se o objetivo central do conceito de representação é trazer para o presente o ausente vivido e, dessa forma, poder interpretá-lo, o de apropriação, segundo Chartier (1990, p. 26), é "construir uma história social das interpretações, remetidas para suas determinações fundamentais" que são o social, o institucional e, sobretudo, o cultural.

Como o objetivo desse artigo não é, claro, o de fechar questão em torno de nada, gostaríamos de salientar que, tanto na sua vertente italiana quanto na sua vertente francesa, a proposta da Nova História Cultural seria o de decodificar a realidade do já vivido por meio das suas representações, desejando chegar àquelas formas pelas quais a humanidade expressou-se a si mesmo e o mundo.

Para o historiador da cultura, isso é muito importante ressaltar, o passado só chega aos dias atuais por meio das representações. Afirmando com Pesavento (2004, p. 42):

"a rigor, o historiador [da cultura] lida com uma temporalidade escoada, com o não-visto, o não-vivido, que só se torna possível acessar através de registros e sinais do passado que chegam até ele".

Neste ponto de nossa discussão, uma nova possibilidade de investigação histórica surge como fazendo parte do elenco de mudanças epistemológicas que acompanharam a emergência da Nova História Cultural. Estamos nos referindo ao aparecimento da Micro-História. É nela, pois, que muitos historiadores da Nova História Cultural, sentiram-se bastante a vontade para realizar suas pesquisas (como é o caso do próprio Ginzburg, anteriormente citado).

Vejamos alguns aspectos de seu nascedouro. Segundo Vainfas (2002, p. 68):

o surgimento da Micro-História tem a ver com o debate intelectual e historiográfico das décadas de 1970 e 1980. Tem a ver, também, com a questão da crise do paradigma marxista e de outros modelos de história totalizante e com a solução das mentalidades, que cedo se mostrou inconsistente no plano estritamente teórico-metodológico.

Dessa forma, as finalidades da Micro-História movem-se no campo das críticas à história das mentalidades (vejam a coincidência com a Nova História Cultural), não deixando-se confundir com elas. Mas a pergunta mais importante que devemos fazer é: onde a Micro-História contribui com a Nova História Cultural?

Do ponto de vista metodológico, a Micro-História avança nas pesquisas historiográficas por romper com a prática calcada na retórica e na estética. O trabalho da micro-história tem se centralizado na busca de uma descrição mais realista do comportamento humano, empregando um modelo de ação que possa dar voz a personagens que, de outra maneira, ficariam no esquecimento. Segundo Levi (1992, p. 136), a micro-história possui, portanto, um papel muito específico dentro da chamada Nova História Cultural: "refutar o relativismo, o irracionalismo e a redução do trabalho do historiador a uma atividade puramente retórica que interprete os textos e não os próprios acontecimentos."

Outro historiador que nos alerta para a importância da Micro-História é Luís Reznick (2002, p. 3), para quem:

O espaço local, alçado em categoria central de análise, constitui uma nova possibilidade de estudo no quadro das interdependências entre agentes e fatores determinantes de experiências históricas eleitas pela lupa do historiador. Nessa nova concepção, cada aparente detalhe, insignificante para um olhar apressado ou na busca exclusiva dos grandes contornos, adquire valor e significado na rede de relações plurais de seus múltiplos elementos constitutivos.

Dessa forma, o historiador de orientação micro-histórica, amparado pelos conceitos da Nova História Cultural discutidos anteriormente, pode "enxergar" acontecimentos, fatos que a historiografia tradicional não "enxerga" e trazer à tona dados que estavam adormecidos. Portanto, sua análise é mais criteriosa, justa e democrática. Ainda segundo o pensamento de Reznick (2002, p. 3):

Ao eleger o local como circunscrição de análise, como escala própria de observação, não abandonamos as margens (...), as normas, que, regra geral, ultrapassam o espaço local ou circunscrições reduzidas. A escrita da história local costura ambientes intelectuais, ações políticas, processos econômicos que envolvem comunidades regionais, nacionais e globais. Sendo assim, o exercício historiográfico incide na descrição dos mecanismos de apropriação — adaptação, resposta e criação — às normas que ultrapassam as comunidades locais.

Dessa forma, é possível afirmar, conforme Levi (1992, p. 139), que "o princípio unificador de toda pesquisa micro-histórica é a crença em que a observação microscópica revelará fatores previamente não observados", o que não aconteceria numa abordagem tradicional. A descrição micro-histórica serve para registrar uma série de acontecimentos ou fatos significativos que, de outra forma, seriam imperceptíveis e que, no entanto, podem ser interpretados por sua inserção num contexto mais amplo, ou seja, na trama do discurso cultural.

Referências bibliográficas

CHARTIER, Roger. Introdução. In: A história cultural. Lisboa, Difel, 1990.

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes. São Paulo, SP: Cia. das Letras, 1986.

LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história. In BURKE, Peter. A escrita da história. São Paulo, SP. Unesp, 1992.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e história cultural. Belo Horizonte, MG: Autêntica, 2004.

REZNIK, Luís. Qual o lugar da história local?. Artigo publicado em www.historialocal.com.br, acessado em 25.08.2004.

VAINFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da história. São Paulo, SP: Campus, 2002.

E-mail: mozart.lacerda@uol.com.br

 

 

 

 

UNIUBE - Universidade de Uberaba/Curso de Comunicação Social - Jornalismo