Uma vida pautada em leis

"Podem me chamar de polêmico. Dentro desse contexto de que, polêmica, no Brasil, é cumprir as leis. Então, eu vou ser polêmico sempre, porque minha profissão é fazer cumprir a lei"



Momento em que Siro recebeu, das mãos do prefeito Anderson Adauto, a Comenda da paz Chico Xavier 2005


Siro Darlan, em visita ao Museu Chico Xavier, acompanhado pela esposa, Heloísa Couto, e Eurípedes Rei


Siro Darlan diz que receber a comenda é um estímulo para dar continuidade ao trabalho que vem desenvolvendo
Faeza Rezende Jacob
3º período de Jornalismo

Siro Darlan de Oliveira teve seu trabalho reconhecido em Uberaba, no ultimo dia 3 de março, com o recebimento da Comenda da Paz Chico Xavier 2005. Atual desembargador do Supremo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, ele é conhecido pelos 14 anos de luta pelo respeito às crianças e aos adolescentes, tempo em que foi juiz da 2ª ( 4 anos) e da 1ª (10 anos) Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro. Em visita ao Museu Chico Xavier, Siro deu uma entrevista exclusiva ao Jornal Revelação.

O Sr esteve à frente da 1ª Vara da Infância e da Juventude por 14 anos, e, em dezembro, se tornou desembargador do Supremo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Quais as diferenças entre as atribuições de cada caso?

Siro: Na verdade, eu fiquei quatro anos como juiz da 2ª Vara da Infância e da Juventude, que, no Rio de Janeiro, corresponde àquele juiz que conhece e aplica medidas sócio-educativas a adolescentes envolvidos em ato infracional, àqueles adolescentes que praticam atos semelhantes ao crime. E dez anos como juiz da 1ª Vara da Infância e da Juventude, que corresponde à área cível, à prevenção, à proteção à Infância e à Juventude. Essa função de juiz de 1ª instância significa que todos os casos envolvendo crianças no Rio de Janeiro eram decididos por mim num primeiro momento. Agora, as pessoas que não se conformaram com a decisão do juiz, tem direito a recorrer ao Tribunal de Justiça, que é composto por desembargadores, que julgam em colegiados. No primeiro grau, o juiz é monocrático, ou seja, ele julga sozinho, ele decide as causas que lhe são trazidas com base na lei, com base na sua formação, com base na sua consciência, na sua própria interpretação da lei. Já no Tribunal, onde hoje eu sou desembargador, nós trabalhamos em colegiado para reapreciarmos as causas que o juiz decidiu em primeiro grau e que as partes não se conformaram. No Brasil, para dar toda a segurança à pessoa que vai à Justiça, tem a possibilidade de não se conformando com a decisão daquele juiz, recorrer para que três outros juízes, mais experientes, decidam aquela causa, reapreciem aquela causa, para dar mais segurança aos jurisdicionados. Essa é a diferença, em primeiro grau, entre o juiz e o desembargador.Porque, na verdade, a nomenclatura é de menor importância. Há até aquelas pessoas que acham que todos somos juizes, seja no primeiro grau, seja no segundo grau. A nomenclatura desembargador é mais pomposa, que a tradição levou à utilização, que hoje até já se pensa em falar, não em desembargador, mas, em juiz de segundo grau, em juiz do tribunal.

Qual efeito surtiu da proibição, por parte do juizado, da escolha da cor e da idade das crianças na hora da adoção?

Siro: Essa proibição foi uma medida temporária. Por que? Porque o sistema de adoção de crianças, no Brasil como um todo, mas no Rio de Janeiro em particular, ele consiste em dois momentos. Num momento em que as pessoas interessadas em adotar crianças, se habilitam para esse processo. Habilitar significa que a pessoa que deseja adotar uma criança tem que passar por um período de provas, que consiste em entrevistas com assistente social e com psicóloga, para que ela seja esclarecida da importância e do significado do que é ser pai, do que é ser mãe. A gente sabe que biologicamente há muitas crianças que são geradas sem que os pais desejem que isso aconteça. E há muitas crianças que são geradas e colocadas no mundo de uma forma irresponsável, e a conseqüência disso é que são crianças que não são amadas, que são abandonadas, que são vítimas de violência, porque não houve aquela programação, aquela projeção de um encontro de amor entre um homem e uma mulher para que aquele ser gerado fosse efetivamente amado.Então, infelizmente, por uma mera relação sexual, às vezes irresponsável, ou às vezesindesejada, nascem crianças. A gente não quer que isso se repita na outra modalidade de paternidade que é a adoção. Então, nós queremos que as pessoas que adotam crianças, estejam conscientes da importância dessa responsabilidade. Porque algumas pessoas às vezes desejam adotar de uma forma equivocada. Por exemplo, há pessoas que querem adotar crianças para terem uma companhia na sua velhice. Issonão é motivo para a adoção. Há pessoas que têm muito dinheiro, têm um grande patrimônio e, como não têm herdeiros, querem adotar uma criança, para que essa criança passe a ser o seu herdeiro. Isso você pode fazer através de um testamento, não precisa adotar. Há pessoas que querem adotar criança, pensando em fazer uma caridade. Então, existem várias modalidades, desejos de adotar criança que não levam a um fim, que é aquele fim a que a adoção se destina,que é dar uma família para uma criança, é ser uma família para uma criança.Então, para evitar que as pessoas adotem de uma maneira equivocada, a gente promove um cursinho, chamado de habilitação, em que as pessoas são esclarecidas, são orientadas, são avaliadas por uma equipe técnica de psicólogo e assistente social.

Chegou um momento no Rio de Janeiro, em que nós tivemos 260 pessoas numa fila querendo adotar crianças, 80 % delas queriam adotar crianças brancas, recém-nascidas, do sexo feminino.Enquanto isso, nós tínhamos um número aproximado de 60 a 70 crianças negras, maiores de 4 anos, algumas com problemas de saúde, que estavam sendo rejeitadas por essas pessoas, abandonadas nas instituições. Então, como nós tínhamos um problema (vamos usar um termo inadequado) "de mercado", nós tínhamos uma demanda muito grande para crianças que não existiam: brancas, recém-nascidas, do sexo feminino. Então, o que que eu fiz? Baixei uma portaria suspendendo, por um ano, a adoção de crianças brancas, do sexo feminino e até 4 anos de idade.Pra que? Primeiro para levar essa questão de discriminação, de preconceito a um debate, como realmente ocorreu.Isso polemizou, algumas pessoas criticaram a medida, outras aplaudiram, outras fizeram restrições.E , ao mesmo tempo, levarmos aquelas pessoas que estavam numa fila de adoção a repensarem sobre o seu critério de adoção. E isso deu certo, porque começaram a serem adotadas crianças com 4, com 5 anos… Tivemos adoção de adolescentes com 13 anos, uma coisa raríssima, mas graças a essa medida nós passamos a ter até adoção de irmãos.Porque, às vezes, você tem uma criança com 2 anos, e um irmão de 6 anos. Se você adota aquela de 2 anos, e abandona aquela de 6 anos, você não está dando uma família àquela criança, na verdade você está cindindo, você está afastando uma criança da sua família remanescente, que é aquele irmão de 6 anos. Então essa medida deu o resultado esperado. Eu agora não estou mais lá, mas agora, em março, acaba esse período de suspensão. Eu não sei como a juíza, que está lá no meu lugar, vai avaliar isso.Se ela vai estender essa medida por mais um ano, ou se ela vai extinguir a medida. Mas esse ano que nós fizemos, essa experiência deu um excelente resultado. Porque aumentou muito o numero de adoção de crianças não recém nascidas, negras, grupos de irmãos, e casos de crianças com problemas sérios, portadoras de HIV, umas com problemas neurológicos, que também foram adotadas nesse período.Valeu a pena essa experiência.

E a criança tem voz no processo de adoção?

Siro: Depende da maneira da criança se expressar. Evidentemente, que no processo de adoção, o que nós temos que avaliar é o interesse maior de uma criança. O que é melhor para uma criança? É estar em uma família que a maltrate,que viva com ela situações de drogadição, de alcoolismo, de violência, ou dar a ela uma segunda oportunidade? Uma família que a respeite, que ame, que trate com carinho.Essa avaliação é feita por nós, pela equipe técnica. A criança nem sempre, tem a oportunidade de fazer essa escolha. Mas quando nós entendemos, por exemplo, que a criança tem condição de se manifestar, ela é ouvida e sua manifestação considerada. Nós já tivemos casos, de experiências de crianças, que nós indicamos uma família e a criança não se adaptou àquela família. E aí foi respeitada a vontade da criança, porque a relação pai — mãe é muito mais forte, muito mais definitiva que marido-mulher, tanto que você pode se separar de seu marido, mas não pode se separar de seu filho, nem da sua mãe, porque esse é um vinculo definitivo. E o vinculo é definitivo seja ele biológico, seja ele por via da adoção. Por isso nós temos que ter muito cuidado na hora de deferir uma adoção. Para um vínculo matrimonial, você tem aí o divórcio, a separação,mas a adoção é irrevogável. Não tem nenhum ato jurídico que revogue a adoção, assim como não tem nenhum ato que te possa mandar de volta para o ventre materno, uma criança que foi gerada por ele Você pode, sim, desconstituir essa maternidade, se essa mãe se mostrar indigna, maltratar aquela criança, e aí você dá essa criança de adoção a uma outra família.

Quais são os critérios para estar apto à adoção?

Siro: Os critérios são muito subjetivos, mas o critério, já que nós estamos aqui na casa da Paz e do Amor , o critério é o amor. Criança tem que ir para uma família que a ame. Que dê a ela aquilo que ela precisa para se desenvolver de uma forma sadia, e não é o alimento, não é o dinheiro. Muitas vezes, as pessoas falam ‘Eu quero adotar mas eu não tenho dinheiro’, isso não é critério. Tanto não é critério, que 30% das adoções do Rio de janeiro são de pessoas que ganham menos que 3 salários mínimos. E nós também constatamos que a solidariedade está muito mais patente naquelas pessoas de famílias mais humildes, do que nas mais abastadas. O número de adoções é muito maior na classe média e na classe pobre do que na classe alta. Então, o critério econômico não é um critério definitivo.Nós tivemos casos de adoção de família que tinha renda de um salário mínimo, isso não é importante. O importante é que aquela família demonstre condições de amar e tratar a criança com respeito. E o critério legal é que atenda ao interesse superior da criança. Que a criança tenha reais vantagens quando for adotada, e reais vantagens não são predominantemente vantagens econômicas.

Em 1997 o Sr. foi o primeiro, no Rio de Janeiro, a deferir uma adoção a um homossexual. Aguinaldo Silva está tratando da relação entre Homossexualidade e Adoção, na atual novela das 9. O que o Sr. pensa a respeito da retratação desse tema na telenovela?

Siro: Eu acho importante. Eu acho que as novelas temáticas trazem a reflexão para a população de uma forma bastante séria. Temas importantes, como a Glória Peres sempre faz novelas temáticas sobre a questão da drogadição. Agora, essa novela também tratou, de forma muito superficialmente, do Alzhaimer e está tratando dessa questão do homossexualismo. Na verdade, eu deferi a adoção para uma pessoa, porque não se pode deferir para casal homossexual porque a lei ainda não autoriza a união matrimonial de pessoas do mesmo sexo. Porque o juiz quando aprecia uma causa, ele tem que apreciar essa causa, primeiro, moldada pela legalidade. Vocênão pode apreciar uma causa, com base em preconceitos. ‘Ah, eu não vou dar a adoção porque fulano é negro…ou judeu…ou nazista’. Todos esses critérios são critérios que a lei proíbe expressamente. Preconceito e discriminação são expressamente proibidos pela nossa constituição. Então nenhum juiz pode fundamentar ‘eu não vou dar a adoção porque essa pessoa é homossexual’, isso é uma ilegalidade. O que você tem que avaliar é se essa pessoa tem condição de ser pai, de ser mãe e de suprir a necessidades afetivas, emocionais, e também econômicas daquela criança. Se aquela pessoa atinge esses critérios objetivos, e a equipe técnica - porque o juiz não decide uma causa dessa sozinho - existe um laudo, de um assistente social e de um psicólogo, que vai dizer ao juiz se ela é idônea ou não. Você pode ter uma pessoa heterossexual, que seja um mau caráter, e que só vai fazer mal àquela criança. E você pode ter uma pessoa que é homossexual, e que é uma pessoa totalmente benéfica na convivência com aquela criança.

Então, quando eu deferi, eu deferi porque a equipe técnica falou: ‘Esse senhor, ele tem essas características: ele é professor de inglês, ele trabalha em tal lugar, ele é solteiro, mas a preferência sexual dele é por um companheiro, que vive com ele. Mas ele é uma pessoa idônea, do bem, da paz, uma pessoa capaz de criar e educar essa criança com amor.’ Ponto final, e é isso que me interessa. Então eu deferi, dizem que foi a primeira adoção, pelo menos conhecida, por homossexual. Eu por acaso tenho acompanhado essa adoção. Mais, porque a pessoa se prestou a escrever um livro sobre a experiência. Se você tiver interesse, o livro se chama o "Retrato em Branco e Preto", de Ângelo Pereira. É um livro em que ele narra essa experiência que ele adotou um menino, negro, que tinha um ano de idade, que estava abandonado em uma instituição e com problemas de saúde. Hoje, esse menino deve estar com uns 8 anos, estuda em um belo colégio, tem um acompanhamento psicológico, tem um desenvolvimento saudável e vive com esse pai, que cria, que educa. Feliz da vida! O que seria dessa criança se a gente tivesse impedido essa adoção? Viveria eternamente em uma instituição, até os 18 anos. Quando completasse 18 anos, a instituição falaria ‘Vai embora!’, e que família? Que referência? Foi uma criança salva por esse senhor que adotou, e que, por acaso, é homossexual.

Por outro lado, nós temos também quantos pais biológicos que são homossexuais.Seria o caso da gente tirar essa criança desse pai só porque ele é homossexual? Ele é pai biológico, ele gerou aquela pessoa. Nós sabemos, às vezes, até essa homossexualidade se manifesta depois de um casamento, já na idade madura, e aí ninguém fala em retirar aquela criança daquele pai, porque seria uma violência, tal qual é violência você negar a adoção só porque a pessoa é homossexual. Então a novela está trazendo a reflexão, um casal, de duas mulheres, que resolve dar uma família a uma criança. Esse o tema. Isso é que tem que ser refletido. ‘O homossexual vai influenciar nas tendências da educação do menino?’ Vai. E quantos homossexuais são filhos de heterossexuais? Não tenho argumentos que não sejam esses ao combate à discriminação, ao preconceito.

O Sr.,como especialista no assunto, considera válido o fato do Eurípides ser filho do Chico Xavier?

Siro: Com certeza, existem várias modalidades de adoção, de filiação, de paternidade. A mais tradicional é a biológica, mas existe também a adoção do coração. As pessoas às vezes criam uma criança durante a vida toda, e não só a adoção legitimada através de um procedimento judicial é válida, como também o fato de famílias que muitas vezes pegam crianças e educam aquela criança, dá a ela carinho e amor, dá um lar, dá uma família, e passa, também, a assumir a condição de pai e de filho. No caso do Eurípides, eu tenho a impressão que pela relação que o Chico Xavier tinha com ele, o Chico deve ter desejado adotá-lo, em algumas ocasiões, mas na época, a lei não permitia que uma pessoa solteira adotasse outra pessoa.Uma das exigências que impedia que o Chico tivesse adotado o Eurípides, sob o aspecto jurídico, é que a lei exigia que fosse casal, de casamento estável, com mais de 30 anos, e o Chico, como todos nós sabemos, era solteiro. Então, era absolutamente impossível que ele promovesse uma adoção pela lei antiga. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente, que é de 1990, quando o Chico tinha então 82 anos, permitiria que ele adotasse, como solteiro, porque qualquer pessoa, com mais de 18 anos, pode adotar, enquanto solteiro, não precisa ter um casamento, não precisa ter o pai e a mãe. Então há muitas adoções singles, de pessoas solteiras, mas isso só de 90 para cá. Então, eu tenho a impressão que pelo carinho, pela relação paterna que o Chico tinha com o seu filho, Eurípides, ele pode ter desejado adotar sobre o prisma judicial, sobre a regis da lei, só que a lei, naquela época, não permitia, pelo contrário, expressamente vedava a adoção, se não fosse por pessoas casadas. Mas, eu não tenho nenhuma dúvida, pela relação filial, pela relação de carinho,pelos cuidados que o Eurípides sempre dedicou ao Chico, que ele é de fato e de direito filho do Chico Xavier. Até porque Chico deixou isso escrito em um testamento, destinando a condição de filho e de continuador de suas obras de caridade, de assistencialismo ao Eurípides. Então, para mim, Eurípides é o filho querido e desejado do Chico Xavier.

O Sr. se incomoda com o fato da imprensa o considerar polêmico?

Siro: Eu acho até engraçado isso. Porque no Brasil agente tem uma série de leis, que são feitas para não serem cumpridas, e o estatuto da criança e do adolescente é uma que as pessoas não querem cumprir. Está fazendo 15 anos, e as pessoas continuam rejeitando. Você imagina uma lei num país em desigualdade como o nosso, que diz que toda criança tem direito de ter uma família, escola, saúde, educação, alimentação, profissionalização. Isso pra elite é o fim do mundo.

As crianças indígena estão sendo assassinadas, estão morrendo, por falta de direito à educação.Todo dia está morrendo uma criança Indígena.E o índio é o dono dessa terra.Então você imagina em um país, em que todas as crianças tiverem seus direitos respeitados.Aqueles super milionários, aqueles latifundiários estão apavorados com isso.Aí chega um juiz e diz: A lei é para ser cumprida. O juiz vira polêmico.Aonde é que está a polêmica? A polêmica está no desejo de cumprir a lei.Isso é um absurdo tão grande, porque esse é um país em que as leis não são cumpridas.Quando a pessoa diz ‘Vamos cumprir’, ele é polêmico. Aí a mídia que é a voz das elites que comandam o país, começa a fazer uma campanha de desmoralização do juiz.Aí você vê lá, quando você me indica, as pessoas falam: Ah, não, ele é muito polêmico.Mas aonde é que está a polêmica?O que eu fiz de polêmico? Eu saí nu nas ruas? Eu botei uma melancia na cabeça para aparecer? Aonde é que eu apareço? Apareço dizendo: Criança tem que ser respeitada!Criança tem que ir para a Escola! Quando é que eu apareço?

Você sabe que as mulheres, sobretudo as mulheres bonitas são muito exploradas na sua imagem. Então nós temos a questão dos manequins que vivem da sua imagem, da sua beleza, do seu corpo. Mas é uma exploração que, às vezes, as pessoas não se dão conta disso. Enquanto ela é bonita, enquanto ela não tem nenhuma celulite, ela é um manequim. No dia em que aparecer a primeira celulite, ela não sai em mais nenhuma capa de revista. Então o que eu exigi? Se você é adolescente e quer ser manequim, você tem que estudar. Isso é uma medida de proteção. Porque se você consegui conciliar as duas coisas, você é manequim, mas você estuda. No dia em que aparecer a primeira celulite, você, com seu estudo, vai poder escolher uma outra opção, uma outra carreira. Mas aí como é que as pessoas retratam esse fato? ‘Ele quer aparecer’, ‘Ele está se metendo onde não é para se meter’. Não analisam como uma medida de proteção. Eu não tenho nada contra manequins. Eu não proibi ninguém de ser manequim. Eu só disse que se você quer ser manequim, tem que estudar.

Então, as pessoas chamam de polêmico, e querem desconstituir, desmoralizar a imagem de uma pessoa que apenas quer que seja respeitada uma lei, que é uma lei de proteção à Infância e à Juventude. Então é mais fácil para as pessoas falarem ‘ele é polêmico’ ou ‘ele quer aparecer’, ‘ele é intrometido ou ‘ele não deve se meter com isso’. Aí a imagem daquela pessoa vai se deteriorando e ele vira uma pessoa polêmica, que vira sinônimo de um palhaço, de uma pessoa irresponsável, uma hora fala uma coisa, outra hora fala outra coisa. Aí não me incomoda não, porque eu dou uma interpretação para polêmica, que é a seguinte: Eu sou polêmico, porque eu quero que a lei seja respeitada!Então podem me chamar de polêmico. Dentro desse contexto de que, polêmica, no Brasil, é cumprir a leis. Então eu vou ser polêmico sempre, porque minha profissão é fazer cumprir a lei.

O que o Sr. acha do reprise da novela "Laços de Família", de Manoel Carlos, nas tardes da Rede Globo?

Siro: A minha parte naquele episódio foi no período de gravação.Porque com relação ao tema da novela, o juiz da Infância e da Juventude não tem nada que se intervir. Porque nós não temos censura, temos direito de livre expressão, se há ou não há exagero nesse ou naquele tema, nessa ou naquela cena, isso não é responsabilidade do juiz da infância. A responsabilidade do juiz da infância se resume na participação de crianças e adolescentes na novela, e, naquela ocasião, aqueles atores mirins estavam sendo explorados,estavam sendo vitimados porque participavam de cenas de violência, participavam de cenas repetidas vezes. O caso especial da proibição foi porque uma atriz mirim, de um ano e oito meses, foi obrigada a repetir uma cena de violência, onde os pais brigavam na presença dela, dezenove vezes.Para um adulto, repetir uma cena já é uma coisa cansativa, já é uma violência psicológica, imagine para uma criança, vendo os pais dando tapas um no outro.Uma criança de um ano e oito meses não vai saber discernir o que é real do que é ficção.Tanto que essa criança ficou com trauma dos atores. Então o que motivou a proibição das crianças na novela, a retirada das crianças da novela, foi o desrespeito da produção daquela novela, para com aquelas crianças. Mas eles corrigiram aquilo, colocaram um psicólogo acompanhando a criança, impediram que as cenas fossem repetitivas, passaram a editar as cenas, ou seja, as crianças não participam das cenas, eles fazem a cena lá do tapa, e depois fazem a cena da criança, e no stúdio eles montam.Então corrigiram o processo. Então, podem repetir Laços de Família onde quiser, quando quiser, isso não é da minha responsabilidade, da minha alçada. Mas claro que Laços de Família é uma novela que foi programada para às 21 horas, ela se reprisando às 14 horas, vai implicar em cortes de algumas cenas, que não podem ser vistas pelo um público de duas horas da tarde. E parece que essa foi a condição imposta pelo Ministério da Justiça, que é quem autoriza ou não a classificação etária das novelas, de toda a programação.Então, não me incomoda nada Laços de Família, se bem que seria "Desenlaços de Família", porque a novela, ela é tão....(risos)....Deveria mudar o nome! (mais risos)

O Sr. se arrepende de alguma sentença, alguma decisão...?

Siro: Não, eu não tenho nada para me arrepender.Daquelas que eu tomei não, porque tem umas que me atribuem e que eu não tomei.(risos) Tem algumas coisas que falam que eu fiz e que eu não fiz. Mas , também, deixa pra lá...porque se a gente ficar se preocupando em desmentir tudo.E, tem um lado positivo dessa polêmica toda, é colocar em discussão uma questão séria, que é a questão da adoção, que é uma questão que as pessoas não levam a sério. Nós vivemos em uma sociedade em permanente renovação.Todo dia nascem milhares de crianças. No dia em que nossa sociedade, atendendo até as lições do Chico Xavier, se conscientizar que é preciso respeitar o ser humano desde o seu nascimento, a gente vai criar uma nova sociedade.Por que qual é a marca registrada da nossa sociedade? É justamente o desrespeito que temos de uns para com outros. Porque tem aquelas pessoas que são milionárias, e não querem nem se sensibilizar com aqueles que estão morrendo de fome.Agora mesmo, a gente está num debate, que o IBGE está dizendo que o nosso grande problema é a obesidade.Como a gente pode, num país de miseráveis, que passam fome, ter problema de obesidade? E temos. Porque essa é nossa grande contradição. O Brasil é um país riquíssimo, de pessoas pobres.Então, no momento em que nós investimos na infância, toda criança tem que ser respeitada, tem que ter uma família, tem que ter acesso à educação, tem que ter direito a saúde, estamos plantando sementes para uma nova sociedade.

Qual a importância do recebimento da Comenda da Paz Chico Xavier?

Siro: Essa comenda é uma honraria que traz para o meu currículo, uma responsabilidade muito grande, porque primeiro ela leva o nome de Paz, Comenda da Paz, e segundo de um homem que viveu pregando a paz, plantando a paz, não só aqui em Uberaba, mas em todo o Brasil, e indo além das fronteiras do Brasil. Pregando a paz, pregando a solidariedade. Então, é uma honra muito grande estar aqui, e fazendo por onde merecer o trabalho que eu fiz durante os 14 anos em benefício da cidadania de crianças e adolescentes e ter como reconhecimento o recebimento dessa comenda, aumenta muito a minha responsabilidade. Chico Xavier é um sinônimo de paz, é um símbolo de uma pessoa que passou a sua vida toda se doando, se entregando, se dando sem esperar nada em troca, é o próprio símbolo da paz. De forma que, eu me sinto muito feliz e muito orgulhoso de estar, nesse momento, recebendo essa comenda.

Quem é Siro Darlan?

Siro: Siro Darlan é um homem que está procurando se aperfeiçoar a cada dia. E esse aperfeiçoamento passa pelo reconhecimento de suas imperfeições, que é uma dificuldade que eu tenho. E ao mesmo tempo, também, um estímulo cada vez maior quando recebo uma Comenda como essa, para dar continuidade ao trabalho que eu venho desenvolvendo.Eu venho de uma família humilde, de uma mãe que é o símbolo da luta, da vitória, e, ao mesmo tempo, o símbolo de que nós podemos construir a partir da humildade, a partir da falta de condições, construir-se, desenvolver-se enquanto ser humano, desde que nós tenhamos como filosofia de vida o respeito ao nosso próximo e que promovamos esse desenvolvimento, seja profissionalmente, seja através de uma vida familiar, respeitando cada vez mais o nosso próximo. Siro Darlan é tido como polêmico em razão justamente de suas convicções, no sentido de andar, construindo o seu caminho, construindo o seu trabalho, através do respeito à cidadania de crianças e adolescentes. No nosso país, nós não temos muito esse perfil, nós não temos esse costume de respeitar a infância. Até bem pouco tempo, criança e adolescente no nosso país não era sujeito de direitos, e como a mulher, no passado, não foi cidadã na sua plenitude, assim como aos negros também foi negada essa cidadania. Então, construir a cidadania de crianças e adolescentes traz pro currículo da gente uma responsabilidade muito grande. E o embate que faz com que nossos posicionamentos sejam polêmicos. Siro Darlan é essa pessoa que quer desenvolver-se familiarmente, socialmente, através do serviço ao outro, através do serviço ao próximo, através da construção de cidadania de todas as crianças, adolescentes, idosos, adultos, buscando uma igualdade de condições, que eu acho que a democracia impõe e que enquanto não forem respeitadas, nós não viveremos em uma sociedade integralmente feliz.

Agradecimento: Lília Lúcia Oliveira

 

 

 

 

UNIUBE - Universidade de Uberaba/Curso de Comunicação Social - Jornalismo