A beleza do "jeitinho brasileiro"

Num país onde a aposentadoria não é sinônimo de tranqüilidade, o povo mostra que não falta talento e criatividade



O artesão mostra orgulhoso sua último e quase terminada encomenda vinda de Rio Verde

Faeza Rezende Jacob
1º ano de Jornalismo

Segundo dados do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, no Brasil, 6.396.502 pessoas de 60 anos, ou mais, de idade são responsáveis pelos seus domicílios; sustento, que, na maioria das vezes, não pode ser retirado apenas da aposentadoria, um exemplo é o trabalhador rural, aposentado, Wenceslau Monteiro.

Wenceslau nascido em Quirinópolis - Goiás, sempre trabalhou e viveu na fazenda, mas aos 70 anos, seis anos atrás, resolveu mudar para a cidade, Ituiutaba - Minas Gerais, "a gente fica velho e não dá conta de enfrentar a fazenda", explica o aposentado, que encontrou no artesanato o complemento para sua aposentadoria, que é o sustento para a família de quatro pessoas. "S ó a aposentadoria não dá, então agente tem que trabalhar para poder ajudar. Para interar a renda".

A princípio, o artesanato foi uma maneira que Wenceslau utilizou para ocupar o tempo, "Eu ia ao mercado, pegava aqueles caixotinhos e fazia com aquelas madeirinhas mesmo. Aí o povo começou a comprar, comprar, então comecei a melhorar", diz o aposentado que, atualmente, usa mogno para construção da maioria de suas peças.

O artesão que começou fazendo apenas carrinhos de bois, hoje já fabrica monjolos, currais e descaroçadores também, e explica que o desafio proposto pelos amigos foi um incentivo para ampliar a produção: "Eu fazia só o carrinho, sem o boi. Aí todo mundo reclamava, comecei fazer os boizinhos de gesso, mas quebravam fácil. Inventei de fazer de madeira e o povo começou a falar "você não dá conta", eu fui tentando, e fiz."

O aposentado não pretende diversificar mais a produção, "Só com esses já toma o tempo todo. Não sobra tempo pra fazer outros. Graças a Deus, a gente trabalha sem cessar.", explica o artesão, que utiliza apenas uma grosa, um serrote e um encho para a fabricação das peças, que levam em média uma semana para serem feitas, como os carrinhos de bois, e, três dias, os descaroçadores de algodão.

Segundo Wenceslau o que mais vende são os carrinhos, os monjolos e os burrinhos. "Em uma semana depois que eu termino, tudo vende. É bom para vender. Sai muito."

As peças variam de R$ 20,00, como monjolos, a R$ 250,00, como a recente encomenda, ainda não terminada, que o artesão mostra com orgulho (vide foto): um veado-galheiro, encomendado por um fazendeiro de Rio Verde. " Ele tinha a cabeça, o chifre do galheiro, aí viu os boizinhos que eu faço, e pediu pra que eu fizesse o bicho.", explica Wenceslau.

O aposentado aprendeu sozinho a confeccionar essas peças e não tem esperança de essa cultura continuar nas futuras gerações, e se tornar uma tradição. " Ninguém tem vontade de aprender isso não.O povo não liga mais pra isso.", afirma Wenceslau, que não participa de nenhuma associação de artesãos, e nem recebe incentivo do poder público.

Wenceslau Monteiro que diz vender mais seus trabalhos na rua, também vende e recebe encomendas na própria residência em Ituiutaba, situada na rua 33c/ 16 e 12A nº 1081. "Curitiba, São Paulo, Brasília, Goiânia, Rio Verde...: Já tem carrinho meu pra todo canto", ressalta o artesão que conseguiu atrair o público da região e de grandes capitais do país por seu talento.