Indústria cultural contra a memória

Como na fórmula secreta da Coca-cola, fabricantes de CDs não informam as propriedades químicas de seus produtos e inviabilizam estudos de conservação de documentos digitais




Cristiane Ferreira de Moura
Especial para o Revelação

A guarda e a conservação de documentos escritos é uma prática que remonta à antigüidade. Presume-se que foram os gregos os primeiros a ter essa consciência histórica. No século VI a.C. os atenienses já guardavam seus documentos de valor no templo de Metroon (a mãe dos deuses), que ficava junto à corte de justiça, na praça pública em Atenas. Naquela época, o suporte tradicionalmente utilizado era o papiro. Feito de fibras vegetais (como o linho), o papiro assegurou uma vida longa às informações, atravessando a antigüidade e chegando até à Idade Média — quando então foram duplicados pelos monges copistas.

Para muitos historiadores positivistas, os documentos oficiais ainda hoje são considerados fontes únicas e exclusivas na tentativa de se entender o passado. No entanto, no século XX, uma nova corrente historiografica chamada Escola dos Annales chamou a atenção para a complexidade humana e criticou a limitação de se utilizar apenas documentos escritos como fontes. As mudanças ocorridas no século passado, no âmbito político, econômico e social, haviam provocado novos questionamentos que os documentos escritos por si só não conseguiam mais responder. Assim, novas formas de registro passaram a ser consideradas documentos históricos, como por exemplo: fotografias, cartas, diários e, mais recentemente, graças ao avanço tecnológico, slides, discos, fitas, filmes, CD-Rom e DVD.

Do papiro ao mundo digital o homem continua registrando informação. No entanto, se nos séculos anteriores bastava a alfabetização para fazer a leitura de documentos escritos, com as maioria das mídias atuais precisamos também das máquinas de leitura. Para ouvir um CD, precisamos necessariamente do aparelho de reprodução desses discos. Para ver um filme, precisamos do vídeo-cassete para decodificá-lo e de um monitor de TV para exibi-lo.

As vantagens tecnológicas são anunciadas a todo momento; a produção de novos equipamentos, mais eficientes, ágeis e compactos fascinam e encantam. Evidentemente, a digitalização e transcrição de documentos históricos e sua disponibilização na Internet ou em CD-Rom está sendo um grande aliado na democratização da informação.

No entanto, essas inovações têm preocupado e tirado o sono dos guardiães da memória: os arquivistas. Sua missão é, dentre tantas outras, assegurar maior durabilidade ao documento histórico. Para isso, conhecer a estrutura fisíco-química do material é de extrema importância para se planejar uma política de conservação.

Cada suporte é fabricado através de matérias-primas diferentes, e por isso exigem procedimentos específicos para sua conservação. O papel, feito de celulose — um material orgânico — exige um tratamento próprio. Não combina com umidade, é alvo de insetos, degrada-se na presença de fungos, poeira, etc. Películas de filme, produzidas em acetato, pedem outro tipo de acondicionamento. Material altamente combustível, o acetato exige um cuidado muito especial no controle da temperatura ambiente. Enfim, de acordo com a composição química de cada material, planeja-se a estratégia de conservação.

Mas no caso dos CDs isso ainda não foi possível. Segundo o historiador Clóvis Molinari Jr., além de ser um material extremamente frágil, sua estrutura fisico-quimica é desconhecida. Como acontece com a misteriosa fórmula da Coca-cola, as multinacionais produtoras desses discos compactos não liberam a composição química de seus produtos, de forma que torna-se impossível planejar corretamente seu armanezamento a longo prazo. Como não conhecemos suas propriedades, não sabemos como protegê-los e nem mesmo por quanto tempo durarão.

Preservação de máquinas

Os arquivistas também nos chamam a atenção para a importância de se preservar as máquinas que fazem a leitura dos documentos audiovisuais.

Quando determinado aparelho deixa de ser produzido e é automaticamente substituído por outro "mais moderno", perde-se a oportunidade de ler um grande número de informações. Quantas e quantas pessoas não possuem em casa inúmeros discos de vinil, mas estão privadas de ouvi-los porque não se fabricam mais vitrolas? O mesmo vem acontecendo com as fitas cassetes e os VHS. Muitos têm optado em fazer a migração desses dados para a mídia digital, descartando assim o original, deixando suas máquinas de lado por terem se tornado obsoletas. É preciso que se tenha consciência de que esses equipamentos além de necessários para se fazer a leitura possuem uma importância museológica e histórica.

Não podemos deixar que a "memória" seja reduzida a uma lógica industrial e ultra-consumista de mercado. Precisamos discutir abertamente essas questões e começar (quem sabe?) a exigir dos fabricantes que garantam uma maior durabilidade ou uma automática conversibilidade de seus produtos, comprometendo-se também com a preservação da memória. Afinal, favorecer o registro e a leitura de nossa cultura também deve ser incluído nos programas de responsabilidade social das empresas.