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Um
espírito inquieto
Mário Palmério transitou por diversas áreas e foi, acima de tudo, um "sonhador prático"
2º ano de Jornalismo No dia 1º de março de 1916, em Monte Carmelo (MG), nasceu Mário Palmério, filho do italiano Francisco Palmério e de D. Maria da Glória Palmério. O pai era engenheiro civil, advogado e em seus últimos anos de vida foi Juiz de Direito. Como engenheiro, Francisco construiu, entre outros, o palacete de Antônio Pedro Naves, na Rua Manoel Borges patrimônio histórico de Uberaba, demolido em 2002. Mário
Palmério estudou no Colégio Diocesano, em Uberaba, e no
Colégio Regina Pacis, em Araguari. Aos 19 anos matriculou-se
na Escola Militar de Realengo, no Rio de Janeiro, mas desligou-se no
ano seguinte por motivos de saúde. Em 1936 foi trabalhar no Banco
Hipotecário e Agrícola de MG, na sucursal de São
Paulo. Ao voltar para Uberaba, fundou o Liceu do Triângulo Mineiro, na Rua Manoel Borges. O colégio fez fama na cidade. No município, havia naquela época o colégio Diocesano só para homens e o colégio Nossa Senhora das Dores só para mulheres. Para o entusiasmo dos jovens uberabenses dos anos 40, o Liceu foi um colégio de turmas mistas em uma cidade ultra-conservadora. Em 1945, construiu na Av. Guilherme Ferreira um conjunto de edifícios para sede do Colégio do Triângulo Mineiro e da Escola Técnica de Comércio, já com vistas à criação da primeira escola superior que viria a instalar na região. Em 1947, o Governo autorizou o funcionamento da Faculdade de Odontologia o primeiro passo efetivo para a transformação de Uberaba em cidade universitária. Em 1951 Palmério fundou ainda a Faculdade de Direito. Mas a vontade de criar faculdades não parava. Em 1954, foi um dos grandes responsáveis pela implantação da Faculdade de Medicina do Triangulo Mineiro (FMTM). Em 1956 fundaria ainda a Escola de Engenharia. O criador de faculdades tinha outra paixão: a política. Depois de fundar o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) de Uberaba e semear dezenas de diretórios do partido Getulista na região, o jovem de 34 anos elegeu-se Deputado Federal. Na Câmara foi vice-presidente da Comissão de Educação e Cultura durante todo o seu primeiro mandato (1950-1954). Reeleito em 1954, passou a integrar a Comissão de Orçamento e a Mesa da Câmara. Em 1955 matriculou-se na Escola Superior de Guerra, onde concluiu o Curso Superior. Literatura No período de sua reeleição, a Câmara discutia intensamente o problema das fraudes nas eleições e debatia modificações na lei eleitoral. Político precocemente experiente, para contribuir nas discussões, Palmério escreveu uma série de relatórios expondo as artimanhas para se fraudar eleições, sobretudo em cidades de interior. Era o embrião de seu primeiro livro: Vila dos Confins. De relatório, esses registros tornaram-se crônicas e depois constituíram-se em romance. Foi Rachel de Queiroz quem levou os originais para a editora José Olympio. Vila dos Confins fez enorme sucesso já no ano de publicação, em 1956. E isso, no mesmo ano em que Guimarães Rosa lançara sua obra-prima: Grande Sertões: Veredas. Em 1958 o deputado reelegeu-se pela terceira vez e agora com sua mais expressiva votação. Em setembro de 1962 foi nomeado pelo presidente João Goulart para o cargo de Embaixador do Brasil no Paraguai. Assumiu em outubro daquele ano e só deixou o posto no golpe de 1964. Sua passagem pelo Paraguai foi marcada, além da reforma do edifício da embaixada, pela conclusão das obras do Colégio Experimental, pela Ponte Internacional de Foz do Iguaçu e pelas negociações sobre a futura instalação da usina hidrelétrica binacional de Itaipu. Mário Palmério integrou-se intensamente na vida cultural paraguaia e, pianista "de ouvido", foi compositor de várias guarânias de sucesso. Entre elas, a inesquecível "Saudade". Ao regressar ao país em 1964, foi para a fazenda São José do Cangalha, no Mato Grosso, e escreveu Chapadão do Bugre, romance inspirado em uma chacina política ocorrida no começo do século 20, na cidade mineira de Passos. A exuberante descrição lingüística e o relato dos costumes regionais foram muito bem recebidos pela crítica. Em 1968, Palmério acabou eleito para a vaga de Guimarães Rosa na Academia Brasileira de Letras (ABL). Amazônia De fevereiro de 1969 a fevereiro de 1970, Mário Palmério viajou pelo rio Amazonas, conhecendo a vida e os costumes dos ribeirinhos. Ao voltar, foi candidato à prefeitura de Uberaba, mas perdeu as eleições. No ano seguinte viajou pela Europa e África proferindo palestras sobre seus livros e sobre a Amazônia. Logo depois, voltou ao Triângulo e criou as Faculdades Integradas de Uberaba (Fiube) em 1972. Já no ano seguinte, criou os cursos de Educação Física, Psicologia, Pedagogia, Estudos Sociais e Comunicação Social. Em 1976, seria inaugurado o complexo de edifícios que formaria o Campus II da Fiube. Mário voltou à Amazônia em 1978 e permaneceu lá por 9 anos. Ele construiu um barco chamado Frey Gaspar de Carvajal, onde reuniu uma biblioteca de milhares de livros sobre aquela região. Nesse tempo fez anotações, tirou centenas de fotos, recebeu políticos e cientistas, mas por problemas de saúde, em 1987 deixou de vez a Amazônia, voltou a Uberaba e assumiu novamente a Fiube. Em 1988, conseguiu a autorização do Ministério da Educação para transformar a Fiube em Universidade de Uberaba. A partir daí, foi o reitor da Uniube. Participou intensamente da vida pública da cidade, concedendo entrevistas na TV e recebendo dirigentes políticos. Mário Palmério morreu em 24 de setembro de 1996. |