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Turma
da Uai mostra alegria e vontade de viver
Denise Nakamura 6º período de Jornalismo "Eu as vejo como um vaso que estava seco e a gente começa a regar e vai crescendo." Essas são palavras de Eronilda de Cássia Freitas, professora de pintura na Unidade de Atenção aos Idosos. Nilda, como é chamada carinhosamente, sintetiza o que o acolhimento e a atenção podem fazer pelas pessoas de terceira idade. A Unidade de Atenção aos Idosos, UAI, localizada na Travessa Raul Terra, 45, Uberaba, não se parece em nada com uma casa de repouso. Lá dentro, centenas de vovôs e vovós, dividem suas experiências, cantam, dançam, nadam, recebem muito carinho e todos os cuidados necessários. De iniciativa da Prefeitura Municipal de Uberaba, a Unidade já existe há quase oito anos, tendo sido fundada em Setembro de 1996. O ambiente é de pura alegria, com muitas gargalhadas misturadas ao forró das aulas de dança. Em cada cômodo há uma novidade e muitas surpresas a serem descobertas. O horário de funcionamento é das sete às dezoito horas, de segunda a sexta-feira. Na entrada, as recepcionistas, recebem todos que tiverem interesse em conhecer a casa. Para participar das várias atividades da UAI, basta ter idade igual ou superior a 55 anos de idade, levar documento de identidade e uma foto recente. Algumas das atividades como a hidroginástica, aulas de música e oficina de trabalhos manuais, por exemplo, têm número limitado de vagas. Mas se a atividade desejada não possui vagas no momento, o nome do interessado vai para a lista de espera. Para participar dos jogos de carta, dançar forró e conversar, não é preciso vagas. Transpondo a recepção, há um salão, com sofás confortáveis. De lá é possível ver a piscina aquecida no quintal, onde são realizadas as aulas de hidroginástica e natação.O lugar é bem arejado e iluminado, perfeito para sentar e jogar conversa fora com os amigos. Segundo Edna Aparecida Alves de Abreu, coordenadora da UAI, são mais de 5.000 inscritos, sendo que a casa recebe, em média, 800 pessoas por dia, sem contar os profissionais envolvidos nas atividades de lazer e no atendimento médico e psicológico. A Unidade oferece hidroginástica, ginástica, alongamento, natação, relaxamento, massagem, música (coral, teclado, flauta), alfabetização, oficina de trabalhos manuais, dança (forró), dança terapêutica, jogos recreativos, e atendimento médico e psicológico. Além disso há comemoração de datas festivas, concurso de miss e mister da terceira idade e viagens turísticas. São estas atividades que transformaram a vida de centenas de idosos. Conheça um pouco mais sobre a UAI. No primeiro andar... Hidroginástica e natação No pátio da UAI está a piscina aquecida onde é realizada a hidroginástica e natação. Os movimentos são suaves e podem ser acompanhados por todos. Algumas pessoas fazem hidroginástica por recomendação médica, pois é um exercício livre de impacto, que ajuda no tratamento de doenças como a osteoporose, reumatismo e artrites. O frio não é um obstáculo para a turma que gosta da piscina. Bem cedinho, logo às sete horas da manhã, lá estão eles com seus maiôs ou sungas azuis, toucas nas cabeças, prontos para cair na água. Alunas como Dona Anesina Maria de Freitas e Hilka Souza Melo Bichuetti, se beneficiam da hidro. Dona Hilka se recuperou de uma lesão na coluna e abandonou o colete que usou por mais de dois anos. Dona Anesina, conta que sentia muitas dores pelo corpo, mas depois que iniciou na atividade, as dores desapareceram. Dança Ainda no pátio da casa, são realizadas as aulas de dança. O clima é de pura descontração. Ao som de forró e bolero mais antigos, e o pessoal não deixa de acompanhar as letras. O número de mulheres supera o número de homens, mas nem por isso alguém fica sem par. Mulher dança com mulher, sem problema nenhum. Corações apaixonados aproveitam a dança e fazem do momento, uma declaração especial de amor. Telma Marilene, formada em dança clássica, é quem orienta o grupo. Desde criança ela trabalha com esta arte, mas há quase oito anos, quando foi chamada para trabalhar na UAI, teve que aprender como dar aulas para a terceira idade. Era um novo desafio, que estava prestes a se revelar a maior vocação da professora. Ela diz não querer sair nunca da casa. A paixão foi tamanha, que pretende se especializar em geriontologia e já criou uma metodologia específica para a terceira idade, como dança circular e auto-massagem O segredo, segundo Telma, é trabalhar com a emoção, tirar qualquer bloqueio que possa interferir no aprendizado, como a vergonha e a própria educação, já que antigamente, a dança não era vista com bons olhos por todos. A experiência deu certo. Algumas alunas a acompanham desde a fundação da Unidade. Alfabetização para adultos Um dos cômodos do primeiro andar foi, literalmente, transformado em uma sala de aula: As cadeiras com apoio para os livros, o quadro negro, o mural de recados, o professor e os alunos. O trabalho de alfabetização feito na Unidade, em parceria com o supletivo da Escola Frei Eugênio, é um dos mais bonitos da casa. Além de se preocupar em ensinar a ler e escrever, o projeto também visa a socialização dos participantes. Muitos deles aprenderam a ler e escrever depois que ingressaram na casa.O processo é um pouco mais lento, quanto à aprendizagem, e voltado para o dia-a-dia da terceira idade. O objetivo é promover o retorno deles à sociedade. As aulas duram quatro aulas, com intervalos. São quatro turmas com 20 alunos cada. Os conteúdos e disciplinas são os mesmos dados na escola. Os alunos podem tirar o diploma de 1ª a 4ª série, em um ano, pois as provas são realizadas juntamente com o supletivo. Para os que têm mais dificuldade, o projeto abre espaço para que estes possam fazer até dois anos de aulas. Segundo a professora de alfabetização, Maria Augusta, a satisfação dos alunos está em aprenderem coisas novas, e principalmente, de se sentirem capazes de realizar uma vontade própria. Ela afirma que alguns querem, inclusive, fazer faculdade. Aprender a ler transforma a vida das pessoas. É o caso de Dona Hilka Souza Melo Bichuetti, 72 anos. Ela tinha apenas o primeiro ano. Fez a prova para testar os conhecimentos, e hoje está estudando para tirar o diploma de quarta série. Segundo ela, depois que começou, a vida abriu um leque maravilhoso de coisas novas. Adorou conhecer a história do Brasil, coisa que nem imaginava que existia. No dia-a-dia, a alfabetização também tem ajudado muito. Dona Hilka vai aprender a preencher cheques. Sempre que fazia compras no supermercado, seu marido tinha que estar junto para pagar a conta. Daqui a alguns dias, isto não vai mais ser necessário, pois ela vai poder preenche-lo sozinha.
No segundo andar... Trabalhos manuais Pintura Depois de subir os dois lances de escadas, nos deparamos, à direita, com a oficina de trabalhos manuais. Na porta há uma bonita oração entitulada "Oração Para Purificar o Ambiente". O primeiro cômodo exibe em suas paredes azuis, lindas telas eitas pelos próprios alunos, entre elas, um menino índio que chama a atenção pela beleza. No centro há uma grande mesa de madeira, na qual os alunos experimentam as cores e pincéis. A professora que dirige o trabalho de pintura é Eronilda de Cássia Freitas, artista plástica que trabalha com a arte há cerca de 25 anos. Nilda diz que aprende mais do que ensina Há cinco anos ingressou na UAI, para enfrentar uma turma de terceira idade. Para ela, esta é uma experiência gratificante, porque, pessoas que antes eram ignoradas pela família, descobrem seu talento e passam a ser mais valorizadas. Um exemplo disso é o fato de que, tanto filhos quanto netos, apreciam de tal maneira o trabalho, que chegam a encomendar telas e pinturas em tecido, além de visitar a UAI para acompanhar de perto o trabalho. Segundo Nilda, algumas alunas viúvas relatam que quando eram casadas, seus maridos não permitiam que elas saíssem de casa, e agora elas se sentem surpreendidas por fazer coisas que nunca se imaginavam fazendo um dia. Ela, além de professora, também é amiga, pois escuta com atenção e paciência todos os problemas pessoais de seus alunos, e conforme o caso, os encaminha para o atendimento psicológico. Os trabalhos são colocados em molduras e expostos pela Unidade. Assim, as pessoas que passam pela casa e vêem quadros tão bonitos, se sentem incentivadas a aprender a arte da pintura em tela. São mais de 260 alunos, entre 55 e 80 anos. As aulas de segunda e terça são dedicadas à pintura em tecido, as de quarta e quinta, pintura em tela, e as de sexta em aperfeiçoamento de ambas. O material deve ser comprado pelos próprios participantes. Bordados e confecções Em uma outra sala menor, do mesmo cômodo, cuja porta fica à direita de quem entra, são concentradas as aulas de bordado, crochê, confecção de bolsas, embalagens. A professora desta parte é Maria Bárbara Ribeiro, que já está há 7 anos no UAI. Com seus cabelos pintados de vermelho, blusa preta, brincos bonitos e usando batom vermelho, Bárbara transmite simpatia pelo olhar e pela forma calma de falar. Ela confirma o que disse Nilda a respeito da relação professor-aluno na casa. Bárbara conversa muito com as alunas, ouve as mágoas, os problemas em geral. Diz que as incentiva a se amarem, se cuidarem. E explica: "essa geração delas foi acostumada a obedecer, a fazer as coisas para os outros, fizeram pelos pais, filhos, maridos, e assim, é difícil aceitar o fato de que precisam cuidar delas mesmas, porque são conceitos arraigados". Cada pessoa tem o seu ritmo. A maioria delas não teve tempo de aprender trabalhos manuais anteriormente. E, assim como nas aulas de pintura, nas de bordado também o material é trazido pelas próprias alunas. Segundo Nilda, o número chega a 210 atendimentos por mês. Bárbara diz que as pessoas mais velhas costumam ser mais sensíveis, e para elas, toda demonstração de afeto é importante. Elas precisam de carinho, como todo ser humano. Ela mesma fala com carinho de seus netos e da relação que tem com eles. A professora de bordado faz um alerta: "As mulheres vivem mais porque têm mais vontade de viver. Os homens não se dispõem, da mesma maneira que as mulheres, a fazer exercícios físicos e todas as atividades que beneficiam tanto a saúde física quanto a mental. Na UAI a proporção de mulheres é muito maior em comparação aos homens."São umas 20 viúvas para 2 viúvos", diz Bárbara. Ela acrescenta que todas as pessoas precisam ter um objetivo na vida. As pessoas de Terceira Idade, por exemplo, geralmente não se julgam mais úteis. É claro que a idade limita, como explica a professora. "Você não pode correr, mas pode andar, não pode nadar, mas pode fazer hidroginástica. Mas isso tá ótimo! É preciso valorizar!" A simpática professora dos cabelos vermelhos finaliza com uma frase que resume o que é importante: " O Amor que você passa para as pessoas é o que fica."
Massoterapia Há um ano, a massoterapeuta Neiri Eliane Carneiro Martins, começou o trabalho de massagem na Unidade. "Lili", como é chamada por seus pacientes, que ela diz serem seus bebês, é deficiente visual e descobriu no trabalho com a terceira idade, a satisfação de melhorar a qualidade de vida de quem a procura. Segundo ela, este é o melhor trabalho do mundo, pois ela encontra carinho e atenção dos pacientes e os trata da mesma forma, com muito amor e dedicação. Ela recebe pacientes com depressão grave, com dores musculares e graves problemas de saúde, muitas vezes causados pelo psicológico abalado. Depois de três meses de tratamento, a maioria se sente recuperado e revigorado. Lili sempre tem uma palavra amiga, mas o principal ensinamento é fazer com que eles enxerguem a vida de outra maneira. São atendidos, em média, sete pessoas por dia. Cada sessão dura 50 minutos, duas vezes por semana. A sala de massagem, não poderia ser mais tranqüila, nem mais relaxante. Lá dentro, as paredes de tom azul claro, transmitem paz e proporcionam conforto. A música, estrategicamente escolhida, isola qualquer outro barulho que possa vir do lado de fora. As mãos de Neiri desfazem nós e aliviam as dores. Aulas de música No segundo andar, está a sala de música. Dividido em duas partes, a primeira se destina á aula de coral e a posterior às aulas individuais de teclado e flauta. A professora de música, Lídia Puccia de Assis, está na Unidade há quase um ano. Ela ensina música há quase vinte anos, mas foi na casa que ela recebeu o retorno desejado, o carinho de seus alunos e a experiência única de trabalhar com a terceira idade. Segundo Lídia, a música é muito procurada porque relaxa a pessoa que a pratica, é uma terapia. Além disso, os músicos podem relembrar as canções de sua época. O repertório é composto de acordo com o gosto de quem esta aprendendo. A maioria de seus alunos é iniciante, nunca tinham lidado com algum instrumento. Lídia ensina desde o básico e não existe tempo determinado para interromper as aulas. Disto depende apenas o interesse do aprendiz, que tem a oportunidade de se apresentar nos eventos da casa e em alguns projetos da prefeitura. Para trabalhar o nervosismo de se apresentar, eles treinam muito, tanto em grupos quanto sozinhos. A UAI é um dos poucos lugares em Uberaba a oferecer música voltada para a terceira idade, o que torna o trabalho ainda mais importante. Seja na hidroginástica, na aula de dança, de pintura, ou na massoterapia, a UAI está mostrando à sociedade a maneira com que os idosos merecem ser tratados: como seres humanos, que precisam de carinho, atenção e cuidados de saúde. |