Educação: Comida para os porcos?


Gustavo Vitor Pena
4° ano de História

Ray Bradbury, um famoso autor de ficção cientifica, escreveu certa feita um livro chamado Fahrenheit 451, que retrata o "drama de um bombeiro cuja função é queimar livros numa sociedade futurista"1 . Ainda não cheguei a esse nível de paranóia, mas confesso que já tive — e ainda tenho — vontade de colocar não só a maioria dos livros, mas assim como também as propostas educativas-pedagógicas hodiernas vigentes num grande índex e vedar o acesso por toda a eternidade ou, pelo menos, até que tudo isso seja revisto. Não sou o profeta do apocalipse, tampouco um iconoclasta da educação. Apenas desejo expor, de uma maneira bastante clara, a minha opinião sobre o atual processo educacional, ao mesmo tempo em que ousarei sugerir uma "prática educativa hoje no atual milênio possível de ser aplicada".

"Educação. Do latim "educere", que significa extrair, tirar,desenvolver. É, essencialmente, o processo de desenvolvimento e formação da personalidade"2 . Se estivermos de acordo com essa definição de educação, eu pergunto: o processo educacional hoje insere o aluno no mundo ou, pelo contrário, acaba por o alienar cada vez mais? Se educar significa extrair o que há de melhor no discente, estamos formando filósofos ou programando autômatos? Zaratustra disse uma vez que "mastigar e digerir tudo, essa é uma maneira suína"3 . Soa-lhe agradável aos tímpanos ser comparado a um porco sem restrições alimentares, que come tudo o que dão a ele? Na minha humilde opinião, é exatamente isso o que falta, de modo que eu gostaria que isso fosse encarado como uma proposta educativa: o saber ler e o saber pensar. A escola de hoje privilegia esses dois requisitos básicos? Ela incita o aluno a essas práticas? Os professores estão preparados (ou têm interesse) nisso? Afinal de contas, sabemos pensar ou, ao menos, ler?

"No que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante. Essa arte consiste em nem sequer folhear o grande público. Para ler o bom, uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta e o tempo e a energia escassos... Muitos eruditos leram até ficar estúpidos"4 . Nunca as palavras de Schopenhauer soaram tão atuais no contexto escolar, onde escolas conectadas a internet exigem que se repense o processo de (re)aprendizagem da leitura. "O trabalho na internet exige rapidez na leitura e muita seletividade, porque não se pode ler tudo o que está na tela. E a capacidade de selecionar não é algo que, há alguns anos, fosse uma exigência importante na formação do leitor. No contexto escolar, não tinha lugar preponderante mesmo. Na rede mundial de computadores, as páginas estão cheias de coisas que não têm relação com o que procuro e existe a possibilidade de um texto me conduzir a outros por meio de um click. Além disso, quando tenho um livro em mãos e o abro em qualquer página, sei claramente se é o começo, o meio ou o fim. Quando abro uma página na internet nem sempre tenho noção de onde estou"5 .

E quanto ao pensar? Pensar, etimologicamente, quer dizer "sopesar", por na balança para avaliar o peso de alguma coisa. "Pensar não é ter as informações. Pensar é o que se faz com as informações. É dançar com o pensamento, apoiando os pés no texto lido: é isso que me dá prazer. Suspeito que a leitura meticulosa e detalhada das informações tenha, freqüentemente, a função psicológica de tornar desnecessário o pensamento. Quem não sabe dançar corre sempre o perigo de escorregar e cair... Assim, ao se entupir de noticias como o comilão grosseiro que se entope de comida, o leitor se livra do trabalho de pensar"6 .

É essa a crítica que estou fazendo as vigentes práticas pedagógicas: é coisa demais que eles inventam! São vários compêndios de informação, muitas teorias são propostas, mas nada de muita utilidade prática para aluno ou, o que é pior, nada que o estimule a pensar, pois o sistema exige que se rumine sobre as idéias dos outros, que já foram aprovadas por outras pessoas e tidas como ideais. Homessa! "O prazer da leitura, para mim, está não naquilo que leio, mas naquilo que faço com aquilo que leio. Ler, só ler, é parar de pensar. É pensar o pensamento dos outros. E quem fica o tempo todo pensando o pensamento de outros acaba desaprendendo a pensar seus próprios pensamentos"7 .

Não é nenhum ovo de Colombo o que eu estou propondo. Apenas acho que a educação faria mais por nós do que, se ao invés de ficarmos discutindo teorias educacionais nem sempre compatíveis com a nossa realidade, trouxéssemos para a sala de aula os atuais problemas de nossa comunidade, de nosso mundo. Adianta-me saber de cor os sete saberes do Morin se eu não sou capaz de emitir uma opinião crítica sobre o que está acontecendo a minha volta? Rubem Alves disse que educar não é informar, e sim ensinar a pensar. Pois então levemos para a sala de aula os jornais, a revista, o gibi, o rádio, a TV, a internet, o presidente da associação do bairro, o diretor da escola, o prefeito... "Precisamos reconhecer, com humildade, que há muitos dilemas para os quais as respostas do passado já não servem e as do presente ainda não existem. Para mim, ser professor no século XXI é reinventar um sentido para a escola, tanto do ponto de vista ético quanto cultural"8 . É tolice querer reinventar a roda, pois ela já foi inventada, temos é que fazê-la rodar.

Por fim, educar uma pessoa, pra mim, quer dizer jamais deixá-la perder a capacidade de se indignar. É isso se só consegue incitando essa pessoa a pensar. Porém, como vimos, o saber pensar passa por um saber ler. O anacronismo da maioria das teorias educacionais está no fato da opinião do aluno muitas vezes ser dispensada, pois se tratam de modelos prontos. Uma fria análise do mundo através das mais diversas formas de imprensa como uma forma de se dar crédito ao que se aprende dentro da sala de aula. Eis o que eleva o processo educacional a uma espada de Dâmocles ou o reduz a comida para porcos.

1 Revista Sci-fi News. Ano 5, Número 1, Edição 47 — Agosto de 2001. Meia Sete Editora, página 12.
2 Ávila, Fernando Bastos de, padre. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo — 3a ed. — Rio de Janeiro: FENAME, 1982. Página 215.
3 Rubem Alves, citado por Alberto Dines. "Faz tempo que deixei de ler jornais" www. observatoriodaimprensa.com.br/artigos
4 idem.
5 Entrevista de Denise Pellegrini à Revista Nova Escola. Ano XVI, número 143, junho/julho de2001.
6 Rubem Alves, citado por Alberto Dines. "Faz tempo que deixei de ler jornais" www. observatoriodaimprensa.com.br/artigos
7 idem.
8 Entrevista de Antonio Nóvoa à Revista Nova Escola. Ano XVI, número 142, maio de2001.