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A utopia de Sócrates
Serão os livros substituídos por labirintos de hipertextos atualizados diretamente no cérebro? André
Azevedo da Fonseca Sócrates
não gostava de livros. O filósofo grego resmungava que,
por culpa dessas novas tecnologias, crias diretas da equivocada invenção
do alfabeto, os jovens deixariam de usar a memória, entregariam
esta responsabilidade a caracteres inanimados e nunca mais seriam capazes
de evocar o conhecimento por si próprios. Ele não praguejava
sozinho. Muitos pensadores de sua época também viam na
introdução da escrita um golpe mortal na capacidade de
memorizar. Além disso, diziam que a palavra registrada jamais
ofereceria a verdade, mas apenas a impressão de verdade. Assim,
Sócrates parecia temer o objeto livro. Ele preferia confiar no
conhecimento virtual dos confins do espírito. Jacques Bergier tem uma obra alucinada, na qual fala sobre os livros prodigiosos que foram sistematicamente destruídos ou tiveram suas mensagens cifradas ao longo da história. Este seria o caso do imemorial Livro de Toth, o mais antigo dos antigos, cuja autoria é atribuída a esse personagem mitológico de uma civilização pré-egípcia de mais de 10 mil anos. Segundo Bergier, a primeira alusão ao Livro de Toth apareceu no papiro de Tunis, decifrado em 1868, onde é relatada uma conspiração para destruir o faraó através de feitiçarias evocadas no começo do mundo. Há registros de que uma cópia antiqüíssima esteve nas mãos de Khanuas, filho de Ramsés II. Os antigos acreditavam que o Livro de Toth dava ao homem o poder de encarar o sol face a face, de ressuscitar os mortos, de agir à distância, de interpretar os meios secretos pelos quais os animais se comunicam entre si, além de muitas outras proezas das ciências ocultas. Uma das mais intrigantes habilidades conquistadas através da posse desta obra seria a técnica da "óptica psicológica", uma metodologia que permitiria estudar espelhos que não refletiam senão o que era mau num rosto que lhe era apresentado, os chamados ankh-en-maat, ou espelhos da verdade. Há muitas lendas sobre a obra As Estâncias de Dzyan, um livro escrito em um idioma tão antigo que nem mesmo estava redigido em sânscrito, mas numa língua perdida que se chamaria senzar. Relatos contam que este livro desaparecido encerra técnicas de clarividência e outras experiências profanas. Bergier escreve um capítulo inteiro sobre Excalibur, um livro que leva à loucura quem o lê. Suspeita-se que os fundamentos da cientologia, a teoria mística-científica criada por Lafayette Ron Hubbard, são baseados em Excalibur. Quando lembramos que Charles Manson aquele psicopata que nos anos 60 assassinou Sharon Tate, a mulher de Roman Polanski se dizia um representante da cientologia, nossa imaginação vôa. Mas basta! Esses exemplos já são suficientes para ilustrar o clima de obscuridade mágica e de veneração que há séculos turva o inconsciente coletivo em relação a idéia do poder do objeto livro. Reverência ao livro Prossigamos. Percebe-se que essa intuição temorosa de certa forma perdura até hoje. Quando crianças, em plena primavera, temos uma relação aberta e dessacralizada com textos e livros. Sem o mínimo de cerimônia, debochadas, indisciplinadas, displiscentes, riscamos, desenhamos nas margens, rasgamos, colamos, picotamos as figuras. Uma delícia. Se a obra torna-se desinteressante, desprezamos, amassamos, jogamos fora. Mas quando em um dia de verão acordamos adultos, passamos a ter uma postura mais reverencial perante o objeto livro. Muitos consideram um sacrilégio riscá-lo. Quando o fazem, preferem lápis, fingindo que, em um futuro eventual, pretendem apagar as anotações que um dia pareceram importantes. Adultos são inibidos e constrangidos. Tratam o livro como uma peça sagrada, inviolável. A leitura torna-se algo respeitável. Como bem observou a pesquisadora Maria Helena Martins, isso ocorre porque, sem dúvida, desde os pergaminhos mágicos, há ainda uma forte tradição de culto ao suporte. Além de criar uma adoração ao artefato, essa mística cartorial nos faz acreditar que o que está impresso em livro é verdade selada e carimbada. Não sem malícia, o poeta e violeiro Catullo da Paixão Cearense, quando mostrava a alguém os seus manuscritos, dizia que depois de impressos ficariam melhores, e ao saírem em livro estariam excelentes. Mas talvez tenha chegado a hora de pensar o texto menos como um artefato e mais como um acontecimento. Barthes fala da necessidade de colocarmo-nos dentro da produção, não dentro do produto. Novas leituras iconoclastas se fazem necessárias para que possamos nos libertar da adoração ao objeto para submergir, sem obstáculos, nas profundezas do texto. Paulo Freire ensinava que o ato de ler não se refere apenas às palavras. Lemos a cidade, as pessoas. Lemos o mundo. Mas, mesmo quando a leitura está restrita ao livro, o fato é que não lemos apenas com os olhos. Lemos com o paladar, com o olfato, com o tato. Quando nos dedicamos ao texto, o corpo inteiro está mobilizado na leitura. Nossos músculos lêem conosco, nosso fígado se contrai, os rins se ajeitam, a pele se arrepia, o estômago se contorce. McLuhan dizia que as tecnologias são extensões do corpo humano. Assim, o garfo seria a continuação de nossas mãos; o pneu, a extensão de nossos pés; a roupa, a extensão da pele, e assim por diante. É uma visão muito perspicaz. Todo artefato tecnológico é evidentemente cultural, pois nasceu de anseios humanos, foi feito pelos (e para) os humanos. Precisamos sempre saciar o apetite dos anseios da alma perante nossa frágil biologia. Assim, descobrimos que podemos acoplar uma pedra à mão e triplicar a potência da pancada. Depois, aprendemos a lançar o apetite através de um arco e assim alvejar uma presa. Mais tarde, transformamos em telefone os nossos delírios telepáticos. Construímos o avião com nossa vontade de voar. Burilando a roda quadrada Mas o computador ainda está em sua pré-história, quer consideremos seus processos internos, quer a estrutura física de seus equipamentos. Assim como houve um tempo em que os vasos sanitários eram quadrados, os computadores ainda não estão adequados à anatomia humana. Poucas coisas são tão desconfortáveis aos nervos e músculos quanto a combinação de mouse, teclado e monitor. Ainda estamos burilando a roda quadrada. Talvez pela pressa em vender um produto inacabado, talvez pela fome do público que salivava sonhando a Internet, comemos tecnologia mal-passada e admitimos os maus-tratos às vértebras. Essa auto-flagelação não ocorria, por exemplo, com nossas velhas tias datilógrafas. Isso porque, entre diretos de esquerda e cruzados de direita em suas Remingtons, as pugilistas alternavam os esforços repetitivos da datilografia com exercícios variados, pois se ocupavam simultaneamente em colocar papel, ajeitar o carbono, girar o botão de deslize de folhas e acionar o braço do carrinho a cada parágrafo. Hoje em dia não há digitador que não tem, teve ou terá uma lesão por esforços repetitivos, ou pelo menos uma tendinite. Ler um texto em um monitor, então, nem se fala. É ridículo. Cansa as vistas em minutos. Entretanto, persiste um grande equívoco nas críticas às narrativas da era da Internet. Nem é necessário falar sobre o desenvolvimento dos e-books (livros eletrônicos) e e-ink (uma tecnologia que simula uma impressão gráfica e que age sobre um monitor de espessura e maleabilidade de uma folha de papel), não é essa a questão. Pierre Lévy observa que considerar o computador apenas um instrumento a mais para produzir ou ler textos significa negar sua fecundidade cultural própria. Primeiro, ele argumenta que o hipertexto é análogo à estrutura de pensamento: sempre estamos nos deslocando em memórias e idéias no decorrer da leitura linear. Mas o que se articula no computador, e que provavelmente será sua grande ruptura, são as narrativas estruturadas em rede. Se a escrita alfabética estabilizou-se sobre e devido a um suporte estático, não é um despropósito questionar se o desenvolvimento de um suporte dinâmico, como são as redes de computadores, não poderia naturalmente reinvidicar a estuturação de novos sistemas de escrita. Estaríamos então em um tempo de reconfiguração mental, cujo objetivo é integrar o espírito do homem ao labirinto sináptico da Intenet extensão tecnológica de nossos próprios sistemas nervosos. Lévy chega a entusiasmar-se, como se acabássemos de saír da escrita pré-história e a aventura do texto estivesse apenas começando. "Como se acabássemos de inventar a escrita". Em eXistenz, o cineasta canadense David Cronemberg sonhou a história de um grupo que joga um vídeo-game com conexão orgânica. Para entrar no ambiente virtual, os jogadores primeiro fazem uma cirurgia para ligar o cabo do equipamento diretamente na medula. Quando começam a jogar, todos os sentidos biológicos são "transportados" para dentro do jogo ou melhor, a realidade sensorial externa é substituída pela realidade virtual interna através de estímulos eletrônicos diretamente enviados ao cérebro que mimetizam em todo o corpo a ambientação, os sons e o cheiro do jogo. Aqueles jogos tridimensionais com capacete parecem pré-históricos, pois em eXistenz o vídeo-game é vivenciado fisiologicamente pela visão, tato, olfato, audição e paladar. Durante as peripécias do jogo é possível caminhar na rua, ir a um restaurante, comer um besouro exótico e experimentar seu gosto, sentir suas perninhas roçando na língua. Este filme, como todos do Cronemberg, é repleto de ambigüidades, pois depois de algumas idas e voltas, nem o espectador nem os personagens sabem direito o que é realidade e o que é virtual, pois ambas são idênticas. Surge aí um profundo problema filosófico que, evidentemente, esse ensaio não vai aprofundar. Apesar de ainda ser pura ficção científica, e apesar de ainda necessitar de exaustivos debates sobre bioética, passo-a-passo essa parece ser a tendência de desenvolvimento dos jogos eletrônicos que, por sua vez, têm influenciado decisivamente o paradigma de recepção da tecnologia digital. A geração anterior de "analfabites" talvez não esteja preparada para isso. A atual geração lida com mais naturalidade com computadores, conexões em rede e intervenções cirúrgicas no próprio corpo. Quando as pessoas estarão dispostas a conectar a própria alma na Internet, a fazer downloads de sonhos, a transitar nas mentes de multidões, eis uma boa questão. Portanto, em um exercício de ficção científica nada despropositado (lembremo-nos que muitas banalidades cotidianas de hoje não passavam de loucas utopias no passado) poderíamos reordenar as reflexões anteriores para sonhar um sistema biotecnológico profundamente integrado à fisiologia humana, pronto para estabelecer com a literatura em rede uma conexão aberta e dessacralizada, capaz de aniquilar o culto ao objeto e proporcionar a total imersão nas vísceras do texto. Efetivando a utopia simbiótica de McLuhan, essa biotecnologia faria os textos fluírem não para uma superfície de um objeto exterior, mas diretamente para o pensamento. Como em uma alucinação transcendental, de olhos fechados, repousados em uma velha poltrona no jardim, deixaríamos as células do corpo delicirem-se na fagocitose das texturas de narrativas tridimensionais e mergulharíamos nas experiências exponenciais das articulações do texto em toda a sua plenitude. A partir desse novo paradigma no conceito de memória, em um atrevimento insolente, poderíamos sugerir que desta vez estaria sendo levado a efeito a utopia de Sócrates. Com a extensão de nosso sistema nervoso em rede, poderemos finalmente, em tributo ao desejo do filósofo, ler o conhecimento não através de um suporte físico, mas virtualizado nos recantos do próprio espírito. |